Como um resort de esqui na Áustria ajudou a COVID-19 a se espalhar pela Europa


Denise Hruby da CNN
24 de março de 2020 às 02:54
Homem de máscara para prevenir contágio pelo novo coronavírus em Lisboa, capital

Homem de máscara para prevenir contágio pelo novo coronavírus em Lisboa, capital de Portugal. Europa é atualmente o maior epicentro da doença

Foto: Rafael Marchante/Reuters

Henrik Lerfeldt tem boas lembranças do Kitzloch, um restaurante e bar popular na cidade austríaca de Ischgl, onde festejou várias noites enquanto estava de férias há três semanas.

O dinamarquês de 56 anos, que conversou com a CNN em quarentena em sua casa a 80 quilômetros de Copenhague na semana passada, disse que seus dias em Kitzloch, na província austríaca do Tirol, foram uma ótima experiência depois de esquiar. "Muitas pessoas, muitas bebidas e bons garçons felizes em atendê-lo mais."

Quatro dias após seu retorno para casa, Lerfeldt deu positivo para o novo coronavírus (COVID-19), assim como um de seus amigos com quem estava viajando. Mas são apenas duas entre centenas de pessoas de toda a Europa cujas infecções são encontradas em Ischgl, algumas delas diretamente em Kitzloch, segundo as autoridades européias.

Kitzloch se recusou a comentar quando contatado pela CNN. Seu proprietário, Bernhard Zangerl, disse ao site de notícias alemão t-online em 16 de março que seus funcionários também devem ter contraído o vírus de alguém. Zangerl afirmou que era "audacioso" tentar atribuir isso a uma empresa.

Apesar de um aviso oficial do governo islandês em 4 de março de que habitantes haviam contraído coronavírus em Ischgl, as autoridades austríacas permitiram que o turismo de esqui - e as festas que o acompanham - continuasse por mais nove dias antes de colocar o resort em quarentena total em 13 de março. Os bares em Ischgl foram fechados três dias antes.

Mesmo depois que um barman deu positivo para o vírus, a autoridade médica de Tirol - onde o turismo de esqui é um dos maiores fatores econômicos - reiterou, em um comunicado à imprensa em 8 de março, que "não havia motivo para se preocupar". A CNN entrou em contato com Franz Katzgraber, diretor da autoridade médica de Tirol, para mais comentários e não recebeu resposta.

Ischgl e suas aldeias vizinhas atraem cerca de 500.000 visitantes a cada inverno, com celebridades como Paris Hilton, Naomi Campbell e Bill Clinton, que visitaram o local em anos anteriores. 

Após uma série de refutações de que a cidade e o bar estavam ligados à propagação do vírus, as autoridades austríacas admitiram que estavam.

Em um comunicado enviado à CNN, o governo da província negou que tivesse se esquivado, dizendo que agia de maneira oportuna e eficiente. "Com as medidas tomadas, as autoridades foram capazes de conter a continuação da cadeia de infecções", disse Bernhard Tilg, conselheiro provincial de Tirol responsável por saúde, instalações de cuidados, ciência e pesquisa.

Especialistas em saúde, no entanto, dizem o contrário.

Levantando alertas

Um membro do órgao responsável pela saúde na Islândia afirmou à CNN que o epidemiologista-chefe do país, Thorolfur Gudnason, informou às autoridades austríacas em 4 de março que vários turistas islandeses estavam infectados com o vírus em Ischgl. 

Em 5 de março, um dia após a Islândia notificar a Áustria de que turistas de navionalidade islandesa haviam contratado a COVID-19, Reykjavik adicionou Ischgl à sua lista de zonas de risco para transmissão da doença, em nível equivalente à época aos de China, Coreia do Sul, Itália e Irã.

Jan Pravsgaard Christensen, professor de imunologia de doenças infecciosas da Universidade de Copenhague, avalia que a lista da Islândia deveria ter imediatamente despertado o alarme.

"Considerando que é um lugar onde as pessoas estão em contato próximo em bares e restaurantes, assim que souberam de pessoas infectadas na mesma área deveriam ter iniciado a quarentena muito rapidamente", disse ele.

No entanto, as autoridades regionais de Tirol subestimaram o risco. Em uma primeira reação oficial à listagem da Islândia, Katzgraber disse em um comunicado de imprensa de 5 de março que era "improvável" que houvesse contágio na região.

Com base na declaração de um viajante que disse que um turista doente que havia visitado a Itália compartilhava o mesmo voo de volta para a Islândia, Katzgraber FIRMOU no mesmo comunicado à imprensa que o grupo de islandeses provavelmente contraiu o vírus depois que deixaram a Áustria, não dando evidência.

 

Jogos com cervejas

Em 7 de março - três dias após o aviso da Islândia - um barman de 36 anos em Kitzloch deu positivo. Vinte e dois dos contatos dele foram colocados em quarentena, 15 dos quais foram positivos para COVID-19, confirmou então o governo da província em comunicados à imprensa.

O surto se espalhou muito além de Tirol. Os números mais recentes disponíveis no governo dinamarquês mostram que, dos mais de 1.400 casos na Dinamarca, 298 provavelmente contraíram o vírus na Áustria. Em comparação, apenas 61 casos estão relacionados a viagens para a Itália, até agora ou o país mais atingido na Europa.

Em 20 de março, as autoridades islandesas estavam com oito pessoas infectadas com coronavírus em Ischgl, informou a autoridade de saúde da CNN.

"No começo, não entendemos como esses casos podem ter acontecido", disse Christensen, informado por especialistas. Mas uma imagem mais clara surgiu quando as autoridades descobriram ou estavam acontecendo em alguns bares e clubes bem fechados de Ischgl.

"Percebemos que eles trocam saliva porque jogam beer pong usando a boca", disse ele, apesar de não exibir nenhum bar específico onde o jogo aconteceu. O jogo consiste em atirar bolas de pingue-pongue da boca em copos de cerveja. As bolas depois eram reutilizadas por outras pessoas.

Lerfeldt relatou que o barman Kitzloch, juntamente com um homem de 36 anos que testou positivo, tocou em um apito de bronze para fazer com que pessoas saíssem do caminho enquanto serviam bebidas aos clientes. Vários clientes também apitaram por diversão, disse Lerfeldt. "Ninguém sabia que estava doente", disse Lerfeldt.

Monika Redlberger-Fritz, chefe do departamento de influenza da Universidade Médica de Viena, disse à CNN que as maneiras como o vírus se espalhou em Ischgl significa que provavelmente uma pessoa infectou várias outras. 

"Isso significa que ao menos um paciente com carga viral muito alta passou para várias pessoas, que, seguiram a infecção podendo transmiti-la para 40, 50 ou 80 pessoas". Redlberger-Fritz afirmou que isso pode reduzir o prazo de resposta das autoridades em vários dias.

Anita Luckner-Hornischer, uma autoridade médica de Tirol, disse em comunicado à imprensa em 8 de março que "do ponto de vista médico é improvável" uma transmissão do vírus para os visitantes do resort. Ela não deu provas.

O governo fechou Kitzloch em 9 de março e declarou que não havia risco aumentado de transmissão.

Em 10 de março, Günther Platter, governador da província de Tirol, disse em entrevista coletiva que todos os novos casos confirmados na área naquele dia - 16 no total - estavam vinculados a um único bar e um de seus funcionários. As autoridades locais mais tarde confirmaram que o bar era Kitzloch, o pequeno (mas movimentado) estabelecimento onde Lerfeldt disse que ele e seus amigos festejaram por cinco noites.

"Descobrimos que o risco de infecção é muito alto nos bares. Todos os casos remontam a um bar", disse Platter na conferência de imprensa.

Centenas de casos têm origem em Ischgl

Pelo menos quatro países já relataram ligações entre contaminações e Ischgl, mostrando como a pequena vila, que abriga não mais de 1.600 residentes permanentes, se tornou um vetor importante na disseminação da COVID-19.

Além da Dinamarca e da Islândia, a Alemanha localizou cerca de 300 casos em Ischgl, mais de 80 deles em Hamburgo e 200 na pequena cidade de Aalen, segundo a mídia alemã. A CNN não conseguiu verificar independentemente esses números.

A contagem é tão alta que Aalen configurou um novo endereço de e-mail especificamente para as pessoas que visitaram Ischgl entrarem em contato com as autoridades. Em uma entrevista coletiva virtual em 17 de março, o ministro da Saúde do estado alemão de Baden-Württemberg disse, de acordo com a agência de notícias estatal alemã DPA: "nosso problema não se chama Irã, se chama Ischgl".

A Noruega também confirmou que, em 20 de março, 862 dos seus 1.742 casos foram contratados no exterior e disse que rastreava 549 deles de volta à Áustria, segundo o Instituto Norueguês de Saúde Pública.

Kitzloch tem capacidade para 100 pessoas e, quando Lerfeldt estava lá, estava lotado de clientes da Dinamarca, Suécia, Noruega e Alemanha.

Quando o governo austríaco anunciou um bloqueio da área na tarde de 13 de março - nove dias após a notificação da Islândia - os turistas tiveram que deixar a vila e voltar para casa imediatamente.

A maioria voltou diretamente para seus respectivos países de origem, disse Tilg, conselheiro provincial responsável pela saúde, à emissora pública austríaca ORF. Os proprietários de hotéis na capital da província de Innsbruck, porém, confirmaram à mídia local que centenas de turistas de Ischgl não tinham como sair da cidade naquela tarde de sexta-feira, aguardando os voos de sábado.

"As autoridades agiram corretamente em todos os aspectos", reiterou Tilg várias vezes na entrevista à ORF em 16 de março. Ele também rejeitou todas as críticas em um e-mail à CNN.

Tilg culpou a disseminação do vírus na província de Tirol - que representava cerca de um quarto dos mais de 4.400 casos de coronavírus da Áustria em 23 de março - a turistas que o carregaram para a região ou não seguiram o conselho das autoridades regionais para voltar para casa imediatamente.

A Europa é agora o epicentro do surto de coronavírus e a União Europeia fechou suas fronteiras a todas as viagens não essenciais, enquanto tenta retardar sua propagação. O governo austríaco colocou Ischgl em quarentena completa em 13 de março. Cinco dias depois, no dia 18, as autoridades locais estenderam essas medidas e ordenaram que todas as 279 comunidades de Tirol se isolassem.

Enquanto Lerfeldt e seus amigos dizem que se recuperaram totalmente, Christensen afirmou que é impossível determinar o número de pessoas que foram infectadas pelos turistas de esqui em Ischgl, uma vez que voltaram para casa - para países de toda a Europa.