Ação coletiva: a diferença entre 20 e 40 milhões de mortes


Lourival Sant'Anna
Por Lourival Sant'Anna, CNN  
27 de março de 2020 às 00:19
Aparelho brasileiro pode evitar internação e uso de ventilador pulmonar

Dispositivo desenvolvido por laboratório brasileiro pode evitar que pacientes com coronavírus sejam hospitalizados e precisem de respiradores pulmonares

Foto: Stephane Mahe - 20.mar.2020/ Reuters

Estudo do Imperial College London (ICL) para a Organização Mundial de Saúde (OMS), assinado por 47 cientistas, calcula que, se não forem tomadas providências adequadas em relação à pandemia do coronavírus, ela infectará 7 bilhões e matará 40 milhões de pessoas no mundo. Com as medidas, esse número cai para 20 milhões.

A análise de cenário, que envolve 202 países, divide as medidas em dois grupos: a proteção dos idosos, que pode reduzir os contatos pessoais em 60%, e o isolamento e distanciamento social da população em geral, que responde pelos outros 40% de redução dos contatos.

Mesmo no melhor cenário, o que evita a morte de 20 milhões de pessoas, os sistemas de saúde de todos os países terão sua capacidade rapidamente esgotada, aponta o estudo. Nos países e camadas da população de renda mais baixa, haverá atendimento para uma de cada 25 pessoas necessitadas; nas de renda mais alta, para uma de cada 7.

“Nossa análise sugere que a demanda por serviço de saúde só pode ser mantida em níveis administráveis por meio da rápida adoção de medidas de saúde pública (incluindo exames, isolamento de casos e distanciamento social) para suprimir a transmissão, como as que têm sido adotadas em muitos países atualmente”, afirma o estudo do ICL, uma das instituições de pesquisa mais respeitadas do mundo na área da saúde.

Os cientistas estimam que, com a estratégia de supressão implementada no início do surto, quando há 2 mortes para cada milhão de habitantes por semana, as vidas de 38,7 milhões de pessoas no mundo seriam salvas. Em contrapartida, se as medidas são adotadas quando já há 16 mortes por para cada milhão, 30,7 milhões de pessoas deixariam de morrer.

Esses cálculos não consideram os custos sociais e econômicos mais amplos das medidas impostas para restringir os contatos e circulação das pessoas, que têm mais impacto sobre as camadas de mais baixa renda, reconhece o estudo. E essas estratégias teriam de ser mantidas em alguma medida até o surgimento de vacinas e tratamentos eficazes.

“Nossa análise destaca o grau de desafio das decisões que todos os governos têm diante de si nas próximas semanas e meses, mas demonstra o quanto a ação mais rápida, decisiva e coletiva agora pode salvar milhões de vidas”, escreve o grupo de cientistas, de várias partes do mundo.

Os três adjetivos são igualmente importantes, mas o mais difícil é a ação coletiva. O dilema que existe hoje no Brasil e nos Estados Unidos, o mesmo que tem havido em todos os outros países, é como parar a transmissão do vírus sem levar à fome e à miséria pela paralisia da economia.

A solução para isso seria uma transferência de recursos dos que têm mais reservas para os que não têm suficientes para atravessar esse período que leva até o tratamento eficaz e a vacina.

Isso tem que ser feito, em parte, pelo governo, com pacotes bilionários de garantia de renda. E, em parte, pela iniciativa privada, arcando com uma parte do pagamento dos salários dos trabalhadores que não podem produzir de casa. Isso envolveria desde as empresas até as famílias que dispensaram suas empregadas domésticas. Cada um de acordo com as suas reservas. E o governo completando com o que falta. O mesmo raciocínio se aplica no nível dos países, com os mais ricos ajudando os mais pobres.

Essa solução contemplaria as duas necessidades igualmente vitais do momento: reduzir a transmissão do vírus ao mínimo possível e garantir a renda mínima para a sobrevivência de todos. A humanidade, e os brasileiros em particular, estarão à altura desse desafio?

Leia o estudo (em inglês).