90% dos alunos no mundo estão em casa; pobres são os mais prejudicados

Estudantes de baixa renda enfrentam obstáculos para obter boas notas, além da falta de espaço para estudar e de acesso a recursos online

Tara John, Nectar Gan e Swati Gupta, da CNN
22 de abril de 2020 às 07:42
Alunos acompanham aula em escola de Addis Ababa, Etiópia
Foto: Emeline Wuilbercq - 14.fev.2020/ Reuters

A desigualdade entre ricos e pobres, presente também nos sistemas educacionais, está sendo exacerbada com o fechamento de escolas pelo mundo durante a pandemia, apontam especialistas. Alunos mais pobres enfrentam mais obstáculos para obter boas notas, tentam driblar a falta de espaço para estudar e de acesso a recursos online.

Uma pesquisa de 2017 da instituição de caridade educacional Sutton Trust mostra que crianças menos favorecidas têm maior chance de suas notas serem prejudicadas em comparação aos colegas mais ricos.

Theoni Bosman Quarshie, de 16 anos, estuda em Londres e, como muitos, teve as aulas migradas para o sistema virtual durante o isolamento. A mãe dela, Valerie, disse que as condições econômicas nesse período colocaram a família na linha da pobreza. 

“Quando vou dormir eu choro, porque tudo foi tirado dela”, afirmou Valerie à CNN. “Vamos ser honestos, o sistema não funciona a nosso favor como minoria étnica negra.”

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Na Inglaterra, professores e bancas examinadoras avaliam os estudantes para certas provas levando em consideração o “desempenho em simulados”, além de “outros dados relevantes, como obtenção prévia de notas”, segundo o Departamento de Edução britânico.

A CNN perguntou ao órgão como o sistema de notas prévias afetará os estudantes com histórico desfavorável neste momento, mas não obteve resposta até o momento desta publicação.

Desigualdade estrutural

Mais de 1,5 bilhão de estudantes – ou seja, mais de 90% – pelo mundo estão presos em casa por causa do fechamento de escolas em cerca de 190 países, de acordo estimativas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). 

Enquanto educadores lutam para lançar cursos de aprendizagem virtual em uma tentativa de ensinar os mais jovens remotamente, especialistas da Ásia, África, Europa e Estados Unidos temem que a crise da COVID-19 aumente a desigualdade educacional, colocando os estudantes de baixa renda ainda em mais desvantagem com relação aos colegas mais ricos.

“A pandemia causará a maior ruptura na oportunidade educacional que o mundo já viu em, ao menos, um século”, disse Fernando M. Reimers, professor na Escola de Educação de Harvard. “Os efeitos disso [fechamento de escola] irão prejudicar ainda mais um sistema de desigualdades estruturais que já estava ruim antes.”

Educadores se perguntam se o tempo fora do colégio levará a uma variação do fenômeno conhecido como perda de aprendizado das férias, no qual os alunos – especialmente aqueles com históricos menos favorecidos – perdem meses de aprendizado, principalmente em matemática, durante o período longe das aulas.

Pesquisas sugerem que esses alunos podem não ter condições de pagar escola ou atividades durante as férias, possibilidade da qual desfrutam os mais favorecidos, ressaltando a diferença de resultados entre os dois grupos.

“A maior preocupação agora é, se tivermos um longo tempo fora da escola, veremos crianças de famílias menos abastadas indo pior nas aulas do que elas já estavam indo?”, questionou Stephen Tierney, diretor do think tank britânico Headteachers' Roundtable.

A divisão digital

Em muitos países, vastos segmentos da sociedade carecem de ferramentas necessárias para a conectividade, como ter um aparelho com acesso à internet ou mesmo conexão à rede. Essa chamada divisão digital é mais aparente na China, onde cerca de 540 milhões de pessoas - ou quase 40% da população - não têm acesso à internet, segundo um relatório de 2019 de uma agência do governo.

Muitas crianças, que antes tinham que andar quilômetros até a escola mais próxima, agora precisam lidar com a falta de acesso à internet durante o isolamento no país.

Nos EUA, a Comissão de Telecomunicação Federal estimou que 21 milhões de norte-americanos não tinham acesso à internet banda larga em 2019. A falta de uma conexão estável à internet para fazer lições de casa é mais nítida entre os negros, hispânicos e famílias de baixa renda, de acordo com um estudo de 2016 da Pew Research Center.

Outra pesquisa do mesmo instituto, feita em 2018, mostrou que mesmo antes da pandemia, cerca de 17% dos adolescentes de 13 a 17 anos disseram que muitas vezes não conseguiam terminar as tarefas de casa em função da falta de conexão à internet ou de um computador.

Um local tranquilo e silencioso para estudar

Além da falta de aprendizado, as medidas de isolamento podem fazer com que crianças não tenham um lugar tranquilo ou mesmo seguro para estudar em casa. E essa situação fica agravada pelo aumento da incerteza econômica, afirmou Eric Hazard, diretor de políticas africanas na ONG Save the Children. 

O aprendizado virtual não é uma opção para muitas crianças da África subsaariana, e a ONG está preocupada com a falta de ferramentas para os mais jovens estudarem em casa.

Agências locais descobriram que, durante a epidemia de ebola em 2015, a exploração infantil e a violência contra meninas na Serra Leoa aumentaram durante o fechamento das escolas. Hazard teme que o isolamento causado pelo novo coronavírus possa trazer de volta esses problemas.

“As crianças que estão fora das escolas também estão em grande risco de serem recrutadas para trabalhar, abusadas ou exploradas, e as meninas têm mais chances de nunca mais voltarem às aulas quando elas recomeçarem”, disse o diretor.

“Enquanto cresce a pressão sobre famílias mais pobres, as crianças podem precisar trabalhar para aumentar a renda. Algumas acabam vítimas de casamento infantil. As meninas, principalmente, também podem ter que cuidar de crianças mais jovens ou enfrentar o fardo desproporcional de prover para membros da família que contraem o vírus”, afirmou ele.