França começa flexibilização após oito semanas de lockdown

Lojas não-essenciais estavam fechadas desde 17 de março; país é o sexto mais afetado pela Covid-19

Reuters
11 de maio de 2020 às 15:38
Pedestres caminham em frente à entrada da galeria Lafayette, em Paris, França
Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters (11.mai.2020)

A França começou a engatinhar para fora do lockdown nesta segunda-feira (11), com a permissão de reabertura de comércios não-essenciais, fábricas e outros negócios pela primeira vez em oito semanas. O governo espera que a flexibilização ajude a ressucitar a economia, mesmo com o risco de uma segunda onda de infecções por Covid-19.

Com o quinto maior número de vítimas da doença em todo o mundo, a França começará a reabrir as escolas em fases e seus 67 milhões de cidadãos poderão sair de casa sem documentos do governo.

Desde 17 de março, ir para a rua requeria uma declaração de próprio punho, atestando que estava indo ao trabalho, ao médico, ao mercado ou para um exercício físico individual. Esse requisito segue mantido para movimentação durante o horário de pico em Paris.

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Teatros, restaurantes e bares seguirão fechados até pelo menos o mês de junho, com as autoridades cientes do risco de um novo surto — na Coreia do Sul, o governo corre para conter uma série de casos após a reabertura de casas noturnas.

"Todo mundo está um pouco nervoso. Não sabemos para onde vamos, mas estamos saindo", disse Marc Mauny, um cabeleireiro que abriu seu salão de beleza no oeste da França assim que o relógio bateu meia-noite.

Em Paris, as lojas da avenida Champs Elysées abriram suas portas pela primeira vez em mais de cinquenta dias. Nas estações do metrô, funcionários entregavam máscaras faciais e álcool em gel para os passageiros, e adesivos marcam dentro dos trens os assentos interditados para manter o distanciamento social.

O distrito comercial La Defense continuou deserto, com a maioria dos trabalhadores continuando a trabalhar remotamente.

Apenas 10-15% dos empregados eram previstos para voltar aos arranha-céus de vidro, um índice que deve subir para 25% em junho e 70% em setembro, contou Marie-Celie Guillaume, chefe da agência estatal que gerencia os locais públicos do bairro.

"Estamos encaminhados para um retorno muito lento e gradual", disse. 

Um dos lockdowns mais severos da Europa

O presidente da França, Emmanuel Macron
Foto: Pascal Rossignol/Pool/Reuters (15.mar.2020)

O governo do presidente Emmanuel Macron começou a levantar um dos lockdowns mais severos da Europa após a taxa de infecção reduzir e o número de pacientes na UTI cair a menos da metade do observado durante abril.

O vírus matou 26.380 pessoas na França.

Indústrias podem reabrir desde que imponham medidas de segurança, o que, para algumas, significa não funcionar a toda capacidade. Os cidadãos só podem viajar 100 km, a não ser por motivos profissionais, enterros ou para prover cuidados médicos.

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Sindicatos e partidos da oposição ressaltaram o risco de que as infecções por Covid-19 voltem a subir, particularmente em lugares em que o distanciamento social é difícil de ser aplicado, como escolas.

O ministro da Saúde Olivier Veran alertou que o governo reverteria a flexibilização caso o número de casos voltasse a crescer.

"Se o vírus continuasse no mesmo ritmo, imporíamos o lockdown novamente", disse ao canal de TV BFM.

Busca por equilíbrio

Cannes, na Riviera Francesa, adiou seu festival de cinema anual, previsto para começar nesta terça (12). Enquanto isso, a polícia local perseguiu uma dúzia de surfistas para fora do mar. As praias continuam restritas pela maior parte da costa do Mediterrâneo.

"[Estar na água], que sonho", disse um surfista, sob a sombra das palmeiras da esplanada. "Quase vale a multa de 135 euros (aproximadamente R$ 850)", riu outro.

O presidente Macron está ansioso para resgatar uma economia em parafuso. A segunda maior economia da zona do euro deve contrair 8% neste ano, e se junta aos países que estão lutando para reconstruir as cadeias de abastecimento.

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O ministro da Economia Bruno Le Maire disse nesta segunda que os fabricantes de automóveis —duramente afetados pela pandemia — devem trazer uma parte maior da produção para a França, em troca de auxílio governamental. 

O ministério está preparando planos específicos para os setores turísticos, aeroespacial e automobilísticos. "Estamos prontos para ajudá-los", disse Le Maire à rádio BFM. "Em troca, qual vai ser o plano de vocês [as indústrias] de realocação?"

Para ajudar os trabalhadores a voltarem ao trabalho, creches e escolas primárias reabrem nesta semana, e escolas fundamentais e médias mais tarde neste mês em áreas em que a infecção está reduzida.

A França está dividida entre "zonas verdes", em que o contágio está baixo, e "zonas vermelhas", que incluem a região metropolitana de Paris, onde a transmissão ainda é alta e as restrições continuam valendo. Toda a população é incentivada a continuar trabalhando de casa, se possível.

A crise de saúde pública vai deixar marcas profundas na França. Acostumados com um discurso de que seus altos impostos pagavam pelo melhor sistema de saúde do mundo, os franceses ficaram decepcionados pelo racionamento de medicamentos importantes, máscaras faciais e equipamentos hospitalares.