Coreia do Norte explode escritório usado para conversas com o Sul


Joshua Berlinger, Jake Kwon e Yoonjung Seo, da CNN
16 de junho de 2020 às 04:45 | Atualizado 16 de junho de 2020 às 10:36
Fumaça acima do local onde ficava o prédio de diálogo das Coreias, em Kaesong

Nuvem de fumaça acima do local onde ficava o prédio de diálogo das Coreias, em Kaesong, vista a partir de Paju, na Coreia do Sul

Foto: Yonhap News Agency - 16.jun.2020/ Reuters

A Coreia do Norte explodiu um escritório usado para negociações com a Coreia do Sul, no mais recente sinal de que os laços entre os dois países estão se deteriorando rapidamente.

A mídia estatal norte-coreana informou que o prédio de quatro andares, localizado na cidade de Kaesong, no lado norte-coreano da zona desmilitarizada que divide as duas Coreias, foi "completamente destruído por uma explosão fantástica às 14h50 (horário local)”.

A partir do lado sul-coreano da fronteira foi possível observar uma nuvem de fumaça preta acima do local onde ficava o prédio.

O escritório estava fechado desde 30 de janeiro devido à pandemia do novo coronavírus, segundo o Ministério da Unificação da Coreia do Sul. A equipe sul-coreana não ia ao prédio desde então.

Mas a destruição de um prédio destinado a facilitar o diálogo, pago pela Coreia do Sul e construído em solo norte-coreano, é altamente simbólica. Isso pode marcar uma virada nas relações entre dois países, que se comprometeram com "uma nova era de paz" há menos de três anos.

A Coreia do Norte definiu sua decisão de destruir o escritório de ligação como uma medida de retaliação, depois que um grupo de desertores usou balões para enviar folhetos anticoreanos ao norte da zona desmilitarizada.

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"O recente ato tolo de ousadia prejudicou a dignidade de nossa liderança suprema", dizia uma declaração realizada na KCNA, a emissora estatal norte-coreana, na terça-feira. "O mundo verá claramente que punição severa nosso povo aplicará às autoridades sul-coreanas e como elas varrem a escória humana da terra."

A Coreia do Norte alegou que os panfletos violaram o acordo que Kim Jong-un e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, fizeram em 2018 em sua primeira cúpula, quando ambos os líderes concordaram em cessar "todos os atos hostis e eliminar seus meios, incluindo a transmissão através de alto-falantes e distribuição de folhetos" ao longo da fronteira compartilhada.

É ilegal para os norte-coreanos comuns consumir informações que não são aprovadas pela poderosa máquina de propaganda do país, e isso pode trazer consequências graves.

O escritório de diálogo foi reaberto e reformado como parte desse acordo para ajudar as duas Coreias a se comunicarem, mas seu futuro foi posto em dúvida na semana passada, quando a Coreia do Norte anunciou que estava cortando toda a comunicação com a Coreia do Sul, incluindo uma linha direta para conectar diretamente os líderes dos dois países, em resposta aos folhetos.

A mídia estatal norte-coreana também anunciou na terça-feira que as forças armadas do país militarizariam novamente partes da fronteira coreana que foram pacificadas por ambos os lados nos últimos anos.

Um funcionário da presidencial da Coreia do Sul chamou a decisão de explodir o escritório de "um ato de traição às expectativas de todos os que desejam melhorar as relações intercoreanas e estabelecer a paz na Península Coreana". O Ministério da Defesa da Coreia do Sul disse que monitora as forças armadas da Coreia do Norte e responderia a qualquer provocação militar.

Coreia do Norte, Kim Yo-jong, Kim Jong-un

Kim Yo-jong e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un

Foto: Reprodução/Reuters

Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un e, possivelmente, a segunda pessoa mais poderosa do país, exigiu que o governo sul-coreano punisse os desertores, a quem ela chamou de "traidores", "escória humana" e "ralé que ousavam prejudicar o prestígio absoluto do líder supremo", de acordo com comunicado divulgado pela KCNA no sábado.

Ela também sugeriu nessa declaração que o escritório seria destruído de alguma maneira. "Em breve, uma cena trágica do inútil escritório de diálogo norte-sul em completo colapso será vista", disse ela no texto.

Especialistas dizem que os panfletos irritaram a liderança política da Coreia do Norte. Mas antes desta terça, alguns analistas também especularam que a Coreia do Norte estava usando o problema para fabricar uma crise – uma tática que Pyongyang usou anteriormente para criar um senso de urgência nas negociações ou semear discórdia entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul.

As autoridades sul-coreanas investigam os desertores que enviaram os panfletos, mas qualquer tentativa de processá-los pode ser vista com fortes críticas em uma democracia liberal que valoriza a liberdade de expressão.

Na segunda-feira, Moon disse que era imperativo que a Coreia do Norte retornasse à mesa de negociações em vez de "retornar ao período anterior de confronto cortando a comunicação e aumentando a tensão".

"O caminho que duas Coreias devem percorrer é claro. Como um rio que faz curvas, mas chega ao mar, o Sul e o Norte devem manter sua fé otimista e dar cada passo em direção à reconciliação, paz e unificação nacionais, por mais lento que seja", disse ele.

"A promessa de paz na Península Coreana, feita pelo presidente Kim Jong-un e por mim, diante de 80 milhões de coreanos, não pode ser revertida."