Durante a pandemia, China inaugurou embaixada em ilha no pacífico; saiba por que


Nectar Gan, da CNN
28 de junho de 2020 às 04:02 | Atualizado 28 de junho de 2020 às 04:11

Kiribati

Praia de ilha em Kiribati

Foto: Governo de Kiribati/Divulgação

Em um dia de céu azul em maio, enquanto o coronavírus se espalhava ao redor do mundo, a bandeira chinesa foi levantada em um país remoto, com uma população total de 116 mil pessoas, a milhares de milhas de Pequim.

A abertura da embaixada chinesa no Kiribati, uma nação formada por 33 atóis (ilha oceânica em formato circular) e ilhas de recifes no pacífico central, pode parecer um tanto estranha -- principalmente durante uma pandemia. Apenas outros três países possuem embaixadas no estado insular: Austrália, Nova Zelândia e Cuba.

Apesar disso, Kiribati está no centro de uma crescente competição geopolítica. No último mês de setembro, o país mudou o seu reconhecimento da capital de Taiwan, de Taipei para Pequim. China considera a ilha autogovernada de Taiwan uma província separatista e atraiu sete dos seus aliados diplomáticos desde 2016.

Nesta semana, o presidente pró-Pequim de Kiribati, Taneti Maamau -- que coordenou a virada diplomática do país -- venceu uma eleição acompanhada de perto após fazer campanha defendendo laços estreitos com a China, derrotando um oposicionista que era simpático a Taiwan.

Kiribati é o exemplo mais recente da influência crescente de Pequim no pacífico, que consiste em um cordão de ilhas ricas em recursos naturais que controlam caminhos navegáveis entre a Ásia e a América.

As ilhas há muito são alinhadas aos Estados Unidos, que possui uma grande presença militar, e a aliados como a Austrália, o maior doador e parceiro de segurança da região. Nos últimos anos, no entanto, muitas estreitaram as ligações com a China em meio ao crescimento diplomático e econômico de Pequim -- abrindo espaço para as tensões geopolíticas.

Kiribati e China

O presidente de Kiribati, Taneti Maamau, compareceu em janeiro a uma cerimônia de boas vindas no Grande Salão do povo, em Pequim, ao lado do presidente chinês Xi Jinping

Foto: Kyodo via AP Image

Agora, enquanto Camberra e Pequim enviam ajuda para a região, e a possibilidade de uma bolha de viagens entre as ilhas do pacífico e a Austrália levou a realidade a uma nova dimensão.

Aprofundando o alcance

Em 2006, o então primeiro-ministro Wen Jiabao se tornou o mais importante oficial chinês a visitar as ilhas do pacífico. Ele prometeu três biliões de yuans (US$ 424 milhões) em empréstimos para investimentos no desenvolvimento de recursos, agricultura, pesca e outras indústrias-chave, sinalizando o interesse de Pequim na região.

Hoje, Pequim é o segundo maior doador da região -- apenas atrás da Austrália, de acordo com dados compliados pelo Instituto Lowy, um think thank australiano. Para as ilhas do pacífico, que juntas têm um PIB combinado de cerca de US$ 33,7 bilhões -- menos de 1% do PIB chinês, o país asiático está sendo um parceiro crucial durante a pandemia.

Especialistas chineses em saúde têm dado aconselhamento sobre como combater o coronavírus através de videoconferências com seus pares locais nos países insulares do pacífico que mantém relações diplomáticas com Pequim.

Em março, a China anunciou uma doação de US$ 1,9 milhão em dinheiro e suprimentos médicos para os países, a fim de ajudá-los a combater a Covid-19. O país ainda enviou os suprimentos, equipamentos de produção e testagem, de acordo com comunicados das embaixadas chinesas na região.

Equipes médicas chinesas estão na linha de frente do combate ao coronavírus em países como a Samoa, ajudando autoridades locais de saúde a desenhar as orientações sobre como controlar a disseminação. Em Fiji, veículos militares especializados foram fornecidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o pacífico registra até o momento 312 casos e sete mortes, a maioria destas no território americano de Guam.

Até agora, as ilhas vêm conseguindo evitar o coronavírus graças à distância e às medidas antecipadas de quarentena. As comunidades locais, no entanto, podem enfrentar consequências devastadoras se o vírus se tornar uma realidade, em virtude do sistema de saúde inadequado e da falta da capacidade de testagem, alertam especialistas.

"O envolvimento da China com o pacífico hoje é movido pelo oportunismo. Eles estão tentando ganhar tanta influência quanto for possível", disse Jonathan Pryke, diretor do programa para as ilhas do pacífico do Instituto Lowy.

O ministro chinês das Relações Exteriores, dizendo que a assistência da China aos países das ilhas do pacífico é "genuína" e não tem "nenhuma razão política". 

Laços mais fortes, no entanto, são bem vindos em momentos de necessidade.

Em maio, quando a China estava enfrentando uma reação global de crítica à sua forma de lidar com o surto inicial do coronavírus, o país voltou os olhos ao pacífico em busca de apoio. Dias antes da reunião da assembleia da OMS em maio, ministros de dez países das ilhas do pacífico participaram de uma conferência sobre a Covid-19 promovida pela China.

A reunião terminou com uma afirmação enfática de aprovação à atuação da China contra o coronavírus. "Isso é o que o governo chinês precisava", diz Denghua Zhan, da Univerisdade Nacional Australiana, em Camberra.

Em um comunicado à imprensa divulgado após o evento, as nações das ilhas do pacífico elogiaram a China pela sua "aberta, transparente e responsável abordagem em abordar oportunas e robustas medidas de resposta e em compartilhar a sua experiência de contenção".

O governo de Donald Trump nos Estados Unidos vem repetidamente culpando a China pela pandemia, enquanto Camberra enfureceu Pequim com o seu pedido por uma investigação independente das origens do vírus.

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Austrália entra no jogo

A assistência chinesa ao pacífico a respeito do coronavírus, no entanto, empalidece em comparação com o apoio financeiro provido pela Austrália. No último mês, Camberra disse que estava gastando 100 milhões de dólares australianos (US$ 69 milhões) para prover "rápido apoio financeiro" a dez países da região, com dinheiro redirecionado de programas de ajuda existentes.

A Austrália anunciou recentemente que vai retransmitir programas de TV populares no país, como Neighbours Masterchef em sete países das ilhas do pacífico -- um movimento abertamente visto como uma espécie de soft power para conter o crescimento da influência da China.

"O governo australiano claramente entendeu que não pode ter nenhum espaço para a criação de um váculo, seja de hard power, seja do soft power, seja na frente de ajuda ou na frente médica", disse Pryke. "Eles não darão nenhum passo atrás para evitar a abertura de um vácuo por temer que a China o preencha".

Isso já estava no radar da Austrália antes da pandemia. Antes de chegar ao cargo em 2018, o primeiro-ministro Scott Morrison lançou a sua iniciativa "Pacific Step Up", que inclui aumento da ajuda esterna e o direcionamento de um fundo de infraestrutura de US$ 1,5 bilhão para a região.

Bolha de viagem

Uma forma em que a pandemia pode afetar as rivalidades geopolíticas no pacífico é a flexibilização seletiva das restrições de viagem entre países. Enquanto Austrália e Nova Zelândia colocam o coronavírus sob controle, os políticos destes países estão discutindo sobre abrir as fronteiras entre si, criando um corredor -- ou bolha -- de viagem entre as nações.

Ambos os países foram bem sucedidos em achatar as suas curvas de coronavírus perto do final de abril, embora a Austrália esteja agora enfrentando um aumento nos casos no estado de Victoria.

Países das ilhas do pacífico, incluindo Fiji, Samoa e as Ilhas Salomão, pediram para se juntar ao plano. Até agora, não foi registrado publicamente nenhum plano semelhante de "bolha de viagem" entre as ilhas do pacífico e a China. A China parece focada nas suas fronteiras vazias -- em sua província mais ao Sul, Guangdong, a discussão é sobre uma bolha dessa com Hong Kong e Macau.

As quarentenas em função do coronavírus colocou pressão nas economias das nações do pacífico, muito dependentes do turismo, e Austrália e Nova Zelândia são a principal fonte de turistas de lá. Em 2018, os dois países contribuíram com mais de 1 milhão de viagens de estrangeiros em direção à região, representando cerca de 51% das chegadas de turistas, de acordo com a Organização de Turismo do Pacífico do Sul.

Em comparação, 124.939 chineses visitaram as ilhas do pacífico em 2018, uma queda de 10,9% em comparação com o ano anterior.

Alguns políticos australianos também estão buscando uma bolha transpacífica. Dave Sharma, deputado pelo governista Partido Liberal, escreveu no jornal The Australian no último mês que a inclusão pode ajudar economicamente os vizinhos pacíficos da região de Camberra e assegurar que "eles continuem a ver a Austrália como o seu parceiro de primeira hora".

"A competição estratégica no pacífico está viva e bem, com a China e outros países buscando exercer um papel maior. É importante que a nossa influência e pegada em nossa vizinhança mais próxima seja visível", escreveu.

Embora a geopolítica não seja a razão prioritária para a bolha viagem -- na verdade, o principal fator é a necessidade de colocar as economias de volta no trilho, diz Pryke -- a flexibilização das restrições de viagem entre a Austrália e as ilhas do pacífico poderiam assegurar alguns ganhos políticos para Camberra e Wellington.

"De alguma forma, Austrália e Nova Zelândia se tornariam meios de acesso ao pacífico enquanto a pandemia continua ao redor do mundo. Então, isso com certeza daria a Austrália e Nova Zelândia futuras vantagens geopolíticas", escreveu.

(Texto traduzido. Leia a versão original, em inglês)