Disparidades e falta de investimento tornam América Latina epicentro da Covid-19


Tim Lister, da CNN
05 de julho de 2020 às 02:00 | Atualizado 05 de julho de 2020 às 06:42
Funcionário cava sepultura em cemitério de Manaus

Funcionário cava sepultura em cemitério de Manaus

Foto: Altemar Alcântara/Semcom (17.jun.2020)

No final de abril, vídeos que circulavam na internet mostravam o principal hospital de Manaus com corpos alinhados em corredores, vítimas de um repentino aumento de casos do novo coronavírus. Ao mesmo tempo, a cidade começou a cavar valas comuns para centenas de pessoas que nem sequer tiveram a chance de tratamento.

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Desde então, cenas semelhantes têm se repetido em outros locais da América Latina, que vivenciam uma propagação explosiva do novo coronavírus. Em Guayaquil, a maior cidade do Equador, caixões foram fabricados a partir de caixas de papelão, à medida que os corpos eram deixados sem coleta. Na capital chilena, Santiago, os hospitais públicos ficaram sobrecarregados, pois o bloqueio foi flexibilizado muito cedo.

Na última semana de junho, as mortes relacionadas ao novo coronavírus atingiram uma média de mais de 2.000 por dia na América Latina e no Caribe - metade de todos os óbitos no mundo, de acordo com uma contagem da CNN utilizando dados da OMS.

Diversas previsões sugerem que o quadro ficará ainda mais sombrio - com quase 440.000 mortes esperadas na região em outubro, segundo a Universidade de Washington.

A chefe da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Dra. Carissa Etienne, alertou nesta semana: "a região da América é claramente o epicentro atual da pandemia de Covid-19".

Desigualdade e pouca vontade política
Há muitas razões para o enorme proporção que a Covid-19 tomou na América Latina: altos níveis de desigualdade, a vasta economia "cinzenta" dos trabalhadores informais, falta de saneamento nas favelas urbanas lotadas e respostas lentas e desiguais dos governos.

Alejandro Gaviria, ex-ministro da Saúde da Colômbia, disse à CNN: "a América Latina é muito heterogênea. Em algumas cidades, a infraestrutura de saúde é semelhante à que se encontra nos países desenvolvidos; nas áreas rurais, a infraestrutura é ruim em geral. É como ter Europa e África no mesmo continente".

Muitas vezes, essa disparidade existe dentro de uma cidade - uma razão pela qual o vírus se espalhou tão dramaticamente em Santiago.

Países latino-americanos tiveram experiências muito diferentes com a Covid-19. O Uruguai, que possui um sistema de saúde pública bem financiado, embarcou em um agressivo programa de rastreamento e testes quando a pandemia chegou. Quase 20% da população baixou um aplicativo do governo com orientações sobre o vírus.

O Paraguai, que é muito mais pobre que o Uruguai, parece ter se beneficiado de um bloqueio antecipado na circulação de pessoas. O país também impôs medidas de quarentena para pessoas que chegassem vindas do Brasil, o epicentro de infecções na América Latina.

Em outros lugares, a história é muito menos otimista, especialmente em países que possuem grandes economias informais. No México, Colômbia e Peru, quase dois terços dos trabalhadores não têm rede de segurança. E sua renda provavelmente caiu 80% durante a pandemia, segundo a Organização Internacional do Trabalho - colocando até mesmo os cuidados básicos de saúde fora de alcance.

A grande densidade populacional nas áreas urbanas mais pobres, onde a higiene básica e o distanciamento social são quase impossíveis, ameaçam a região com uma maré crescente de infecções. Como o Dr. Marcos Espinal, chefe do Departamento de Doenças Transmissíveis e Análise da Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), disse à CNN: "nos bairros de Lima, será muito difícil fazer o distanciamento social".

Espinal observou que em alguns países apenas um terço da população tem uma geladeira, o que significa que as pessoas devem fazer compras diariamente.

 

Baixo investimento
Nas duas décadas até 2015, muitos países latino-americanos investiram em saúde pública à medida que suas economias cresceram. Houve sucesso na redução da mortalidade infantil e tuberculose, por exemplo. A Colômbia aumentou dez vezes seus leitos de terapia intensiva.

Gaviria diz que existem muitas diferenças entre os países, "mas a maioria das pessoas tem acesso a algum tipo de assistência. Na Colômbia, por exemplo, a cobertura é próxima de 100%".

Porém, a qualidade é uma questão diferente, diz ele - um ponto ecoado por Espinal na Opas. Todos, exceto cinco ou seis governos, ficam aquém da meta da OMS de gastar 6% do PIB em saúde, diz ele. O Peru, por exemplo, gasta 3,3%.

Vários estudos mostraram que os pobres, e especialmente os pobres rurais idosos, são menos capazes de acessar os serviços de saúde. As áreas de fronteira geralmente são mal atendidas.

Algumas cidades amazônicas do Brasil, por exemplo, estão a mais de 500 quilômetros do leito de UTI mais próximo. “Em 2016, havia menos de três camas por 100.000 habitantes em alguns estados do Norte do Brasil, mas mais de 20 camas por 100.000 no sudeste mais rico. A OPAS alertou que a região não superará o vírus a menos que melhore o atendimento a comunidades marginalizadas, como os povos indígenas da Amazônia. A CNN relatou um aumento de infecções nesta semana entre os Xavante no nordeste do estado brasileiro de Mato Grosso.

Mas novos estudos sugerem que as minorias étnicas nas áreas urbanas do Brasil também estão em maior risco. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) publicada esta semana descobriu que o novo coronavírus havia infectado 2,5 vezes mais moradores negros do que brancos.

O novo coronavírus é apenas uma das múltiplas crises de saúde na América Latina. Estudos mostraram que as pessoas mais pobres da região têm níveis maiores de diabetes, obesidade, hipertensão e doenças cardíacas, os quais os tornam mais vulneráveis à Covid-19. Isso é especialmente problemático no México e no Brasil.

Fabiana Ribeiro, pesquisadora brasileira atualmente na Universidade do Luxemburgo, disse à CNN que um estudo recente mostrou as menores taxas de sobrevivência em pacientes rurais de 68 anos ou mais e em pacientes negros, analfabetos ou com doenças anteriores, como doenças cardíacas e diabetes.

Os meses de inverno no Hemisfério Sul trazem outras doenças, incluindo gripe e pneumonia. Francesco Rocca, presidente da Cruz Vermelha Internacional, disse nesta semana que a emergência sanitária da América Latina pode piorar "com a chegada do inverno, a estação de gripe na América do Sul e, especialmente, a estação de furacões no Caribe".

A Organização Pan-Americana da Saúde afirmou que nos próximos meses programas robustos de teste e rastreamento serão críticos. Existem alguns sinais promissores - como as equipes móveis da Costa Rica que verificam infecções e quarentena. E em grande parte da região já existe uma grande rede de laboratórios estabelecidos para testar a gripe que está sendo mobilizada.

Mas a capacidade de teste é extremamente variável em toda a região. Em 29 de junho, o Chile havia realizado quase 5.800 testes por 100.000 habitantes, de acordo com a Opas. Panamá tinha feito pouco menos de 3.000. Mas o Brasil fez 230 - e a Guatemala 45.

"Na Nicarágua, nem sabemos quantos testes estão sendo feitos", diz Espinal.

Tensão social
O impacto do coronavírus na América Latina provavelmente deixará cicatrizes profundas. O Banco Mundial acredita que mais de 50 milhões de pessoas verão sua renda cair abaixo da linha de pobreza de US$ 5,50 por dia. Alguns economistas temem que o dano econômico possa estar no mesmo nível da "década perdida" nos anos 1980.

Em meio a uma profunda recessão que pode reduzir a economia da região em um décimo deste ano, o investimento necessário em saúde pública pode não se concretizar. Espinal acha que isso seria um grande erro. "Não há como", disse ele à CNN. "Os países podem justificar continuar investindo no mesmo nível, mesmo que a economia sofra".

Sem isso, a agitação social que eclodiu no Chile e no Equador no ano passado, pode retornar à medida que as populações voltem do confinamento. A consultoria de risco político Verisk Maplecroft adverte: "esperamos que a agitação acelere no segundo semestre de 2020, porque os problemas reprimidos que se espalharam em protestos no final de 2019 continuam sem solução".

Alejandro Gaviria, ex-ministro da Saúde da Colômbia e agora reitor da Universidade dos Andes, está apreensivo com o que o resto de 2020 trará. "Três problemas se sobrepõem", diz ele, "uma pandemia crescente, uma devastação social e um cansaço crescente com bloqueios. Novos bloqueios só serão possíveis com medidas rigorosas e repressivas".

(Esta matéria é uma tradução. Leia a reportagem original aqui)