Resposta dos EUA à pandemia é falha, mas países-exemplo agora vivem surtos

Especialistas dizem que o aumento mais recente de casos mostra que, apesar dos controles antiepidêmicos mais rigorosos, o vírus ainda representa uma ameaça

Emma Reynolds, da CNN
25 de julho de 2020 às 10:31
Hong Kong diminui restrições após duas semanas sem novos casos de Covid-19
Foto: Reuters

Os Estados Unidos têm sido duramente criticados por sua abordagem durante a pandemia do novo coronavírus. A falta de medidas nacionais rigorosas para conter o surto se reflete no maior número de casos e mortes no mundo.

No entanto, mesmo países elogiados por suas respostas rápidas e eficazes à Covid-19 estão enfrentando grandes surtos e ressurgimentos da infecção, pois fica cada mais claro que o sucesso em conter o vírus é, geralmente, apenas temporário.

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Hong Kong



Hong Kong foi elogiada por sua rápida resposta em janeiro, quando tomou medidas como mapeamento de casos do vírus, distanciamento social e incentivo à lavagem das mãos, entre outras.

Seu governo implementou outras ações para conter uma segunda onda em março, quando os moradores de Hong Kong começaram a retornar à cidade, trazendo o vírus de volta. As autoridades impediram os não residentes de entrar em Hong Kong, interromperam o tráfego pelo aeroporto da cidade e implementaram quarentena e testes rigorosos nas chegadas.

As academias pararam de funcionar, a venda de bebidas alcoólicas proibida em bares e restaurantes e cafés foram fechados ou tiveram de instalar medidas extras de segurança. Durante várias semanas, os casos diários de vírus foram reduzidos a um dígito e às vezes zero.

Apesar de tudo isso, a região semiautônoma enfrenta uma “terceira onda” de infecções desde 6 de julho, com autoridades alertando para o potencial “crescimento exponencial” nos casos.

Na sexta-feira (24), a cidade confirmou 123 casos, o maior aumento em um único dia desde o início da pandemia, segundo autoridades de saúde. Reuniões públicas foram limitadas novamente a quatro pessoas (o limite anterior havia subido para 50), as academias foram fechadas e os viajantes entrando no país passaram a ser obrigados a mostrar evidências de um teste negativo.

A cidade introduziu uma ordem de uso de máscaras pela primeira vez, embora muitos de seus cidadãos já as usassem normalmente.

“Se essa tendência continuar, será muito difícil controlar a situação", disse o doutor Chuang Shuk-kwan, do Centro de Proteção à Saúde de Hong Kong, alertando que a capacidade de testes da cidade, as instalações de quarentena e a lotação do hospital estavam atingindo o limite. No total, Hong Kong registrou 2.372 casos de Covid-19, e os cidadãos agora estão sendo instados a ficar em casa.

Manifestantes no Victoria Park, em Hong Kong
Foto: Isaac Yee/CNN (4.jun.2020)

Austrália



A Austrália era outro país considerado o padrão-ouro por sua resposta à pandemia.

Em 1º de fevereiro, a Austrália se juntou aos EUA na iniciativa de fechar as fronteiras a visitantes estrangeiros que haviam estado recentemente na China. Quando o vírus se espalhou, no começo de março, a Austrália proibiu visitantes vindos do Irã, Coreia do Sul e Itália – até fechar suas fronteiras para todos os não cidadãos e não residentes em 19 de março.

O país proibiu reuniões públicas e viagens não essenciais como parte de uma série de restrições no final de março e, por um tempo, o surto foi considerado sob controle.

Um porta-voz do Departamento de Saúde da Austrália disse em comunicado à CNN no início de maio que “achatamos bem e efetivamente a curva de casos e novas infecções”.

Em 8 de maio, o primeiro-ministro australiano Scott Morrison anunciou um plano para reabrir o país até julho. O governo passou então a suspender as medidas de distanciamento social com os casos relatados no país em quase 7.000, com 97 mortes.

“O próximo passo será criar confiança e impulso que farão com que nossa economia volte a girar e os australianos se recuperem e avancem com confiança”, disse Morrison.

O médico William Haseltine, presidente do think tank ACCESS Health International, considerou a Austrália um exemplo para os EUA. Segundo ele, o país (junto com a China e a Nova Zelândia) enfrentou efetivamente surtos graves de coronavírus e, através de testes, rastreamento de contatos e orientações claras, reduziu os casos a um dígito.

Mas a Austrália foi forçada a isolar 6,6 milhões de pessoas no estado de Victoria, impedindo-as de circular no país a partir de 7 de julho, após um surto de vírus na cidade de Melbourne.

A fronteira entre Victoria e New South Wales (NSW) – os dois estados mais populosos da Austrália – foi fechada pela primeira vez em 7 de julho, o confinamento foi reimposto e as máscaras se tornaram obrigatórias no último final de semana. Comprar comida, fazer exercício, ir ao trabalho e cuidar da saúde são as únicas exceções ao pedido de confinamento em casa para moradores de Melbourne e região metropolitana.

Victoria registrou 403 novos casos de Covid-19 na quarta-feira (22), de acordo com o premiê do estado, Daniel Andrews. Foi o terceiro maior aumento diário de casos desde o início da pandemia, um pouco abaixo do recorde de 484 novos casos na terça-feira (22). Desde então, o país mais de 13 mil casos e 140 mortes, segundo dados da Universidade Johns Hopkins (JHU na sigla em inglês).

Passageiras usam equipamento de segurança para se proteger do coronavírus no aeroporto de Melbourne, Austrália (via Reuters - 13.mar.2020)
Foto: AAP Image/James Ross

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Japão



O Japão também parecia ter agido com sucesso contra o coronavírus.

Em 25 de maio, o primeiro-ministro Shinzo Abe suspendeu o estado de emergência, dizendo em um comunicado que “conseguimos encerrar o surto em cerca de um mês e meio, do jeito japonês”. Ele disse que o país aumentaria gradualmente as atividades sociais e econômicas para criar uma “nova vida” com o coronavírus.

As atividades sociais e de negócios começaram a retornar e o governador da província de Tóquio, Yuriko Koike, disse que os museus e as instalações esportivas seriam reabertos com condições de segurança, e que as escolas seriam reativadas.

O governo japonês até lançou uma nova iniciativa de viagens para incentivar as rotas domésticas.

No entanto, desde então as infecções começaram a aumentar, e o Japão registrou seu maior número diário de casos, 981, na quinta-feira (23), segundo o Ministério da Saúde, com duas mortes. O número total de casos no Japão é agora quase 29 mil, com 994 mortes, de acordo com a JHU.

Várias prefeituras de grandes cidades registraram números recordes na quinta-feira (23).

O governador de Tóquio, Yuriko Koike, relatou 366 novos casos de Covid-19 - a primeira vez que supera a marca dos 300. Dos pacientes, 60% têm entre 20 e 30 anos, de acordo com Koike.

Na semana passada, o governo anunciou que estava suspendendo as viagens para Tóquio do novo programa de viagens, adicionando que os residentes de Tóquio também seriam excluídos da iniciativa.

Novas pesquisas do Japão sugerem que muitos focos de coronavírus fora dos hospitais podem ter sido iniciados por pessoas com menos de 40 anos ou que não se sentem doentes, ressaltando a importância de medidas, como uso de máscaras ou coberturas faciais, para retardar a disseminação.

Israel

Durante meses, Israel também parecia ser um modelo internacional do sucesso no combate ao coronavírus.

Com as restrições precoces de viagens e fechamentos de amplas áreas, o país conteve por semanas a disseminação do vírus, registrando uma taxa de mortalidade muito menor do que muitos países do mundo ocidental. Enquanto o coronavírus cruzava os EUA e a Europa sem dó, Israel se movia direção à reabertura.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deu várias entrevistas coletivas sobre esse sucesso, alertando sobre os mais novos desafios e assumindo o crédito pelas vitórias.

Em 18 de abril, quase exatamente dois meses depois que Israel descobriu seu primeiro caso, Netanyahu declarou que o país havia vencido sua luta, estabelecendo um exemplo global “para salvar vidas e bloquear o surto da pandemia”. O governante também que Israel também seria um exemplo no reinício da economia.

Mas a segunda onda que seus especialistas em saúde estão contabilizando agora parece sugerir um final muito diferente.

Apenas algumas semanas após a reabertura de restaurantes, shoppings e praias, Israel registrou um aumento de 50 vezes nos casos de coronavírus - de aproximadamente 20 novos casos por dia em meados de maio para mais de 1.000 menos de dois meses depois.

No início de julho, Netanyahu anunciou que academias, piscinas, salas de eventos, bares e muito outros tipos de estabelecimentos fechariam indefinidamente. Já restaurantes e espaços religiosos operariam com número limitado. Desesperado para evitar um bloqueio completo com o desemprego já em mais de 20%, Netanyahu emitiu um alerta severo.

“Todos os cidadãos de Israel sabem, ou precisam entender, que agora devemos tomar ações limitadas, com o mínimo de impacto econômico possível, a fim de evitar medidas extremas que paralisarão a economia”, afirmou.

No entanto, em 17 de julho, Israel reimprimiu uma série de limitações estritas, aproximando o país de um segundo bloqueio (ou lockdown) completo, com os casos atingindo outro recorde diário. O governo anunciou que os restaurantes fariam apenas serviço de entrega ou coleta no balcão, as reuniões se limitariam a 10 pessoas em ambientes fechados e as lojas, shoppings, museus e salões fechariam nos fins de semana. A partir de sexta-feira (24), as praias também passaram a ficar fechadas nos finais de semana.

Na quinta-feira (23), Israel atingiu um novo recorde, com 1.819 novos casos em 24 horas. O recorde anterior de 1.758 fora estabelecido um dia antes.

Em uma reunião de gabinete naquele dia, Netanyahu advertiu: “Estamos fazendo todos os esforços para evitar um bloqueio geral. Não temos muitas opções; não é uma situação normal. Não é uma situação em que possamos realizar todos esses processos que levam dias e esperamos que tudo corra bem. A doença está mudando de velocidade e devemos mudar juntos”.

A confiança do público no tratamento da pandemia por Netanyahu está desaparecendo rapidamente. De uma alta de 73% em meados de maio, quando o país parecia ter a Covid-19 sob controle, a aprovação do primeiro-ministro caiu para 46%, de acordo com pesquisas conduzidas pelo Channel 12 News.

A principal autoridade de saúde pública de Israel, professor Siegal Sadetzki, renunciou, escrevendo no Facebook: “Para meu pesar, por várias semanas o tratamento do surto perdeu o rumo. Apesar das advertências sistêmicas e regulares nos vários sistemas e nas discussões em diferentes fóruns, observamos com frustração o momento em que a ampulheta de oportunidades se esgota”.

Protestos na frente da residência de Netanyahu em Jerusalém vêm crescendo em tamanho e frequência. Os manifestantes se agitam contra a corrupção e com a administração do governo da pandemia de coronavírus e seu grave impacto econômico.

Não é uma ciência exata



As preocupações estão crescendo em outros lugares. Em 1º de julho, cidadãos de Praga, capital da República Checa, montaram uma mesa com 500 metros de comprimento e realizaram um enorme jantar público para comemorar o fim do confinamento causado pelo coronavírus no país.

No início, o país havia imposto regras e máscaras estritas e precoces, que se tornaram obrigatórias para todos em qualquer lugar fora de casa a partir de 19 de março.

Veio a flexibilização, mas um aumento nos casos durante essa fase viu a volta de várias medidas. Os tchecos novamente terão que usar máscaras em ambientes fechados em todos os eventos com mais de 100 pessoas, incluindo casamentos e funerais, a partir do sábado (25). Todos os encontros serão limitados a 500 pessoas (o limite anterior era 1.000), de acordo com anúncio do Ministério da Saúde do país na sexta-feira (24).

Em Praga, as pessoas devem usar máscaras novamente em todas as instalações de saúde, incluindo consultórios médicos e farmácias, o mesmo valendo para o metrô. O país já registrou 14.800 casos e 365 mortes, de acordo com a JHU.

Embora os novos números de casos permaneçam baixos em muitos desses países, em comparação com os países onde a pandemia está ocorrendo de forma desenfreada (como EUA e Brasil), especialistas dizem que o aumento mais recente de casos mostra que, apesar dos controles antiepidêmicos mais rigorosos, o vírus ainda representa uma ameaça.

E como o distanciamento social e as mudanças comportamentais não são uma ciência exata, os ressurgimentos enfatizam que erradicar completamente o risco pode ser impossível até que uma vacina seja encontrada – e as ondas de infecção e novos bloqueios devem continuar.

Vanessa Yung, Isaac Yee, Angus Watson, Sol Han, Yoko Wakatsuki, Junko Ogura, Kaori Enjoji, Tomas Etzler, Ivana Kottasova e Oren Liebermann contribuíram nesta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).