'Não temos mais nada': moradores de Beirute descrevem cenas apocalípticas


Tamara Qiblawi, CNN
04 de agosto de 2020 às 17:42
Bombeiros combatem chamas após explosão em Beirute, no Líbano

Bombeiros combatem chamas após explosão em Beirute, no Líbano

Foto: Mohamed Azakir/Reuters (4.ago.2020)

A explosão que ecoou pela capital libanesa na tarde desta terça-feira (4) expandiu seus estragos para quase todos os quarteirões de Beirute.

Edifícios a 10 quilômetros do local foram danificados. Pedaços de vidro cobriram as ruas, lâmpadas da iluminação pública foram destruídas pela força do impacto.

De acordo o ministro da Saúde do Líbano, pelo menos 50 pessoas morreram e mais de 2.750 ficaram feridas. Moradores da cidade correram para os hospitais para doar sangue.

“Eu estava na varanda quando todo o bairro tremeu para a esquerda e para a direita”, disse à CNN Bane Fakih, cineasta que mora no extremo oeste da cidade. “Foi muito intenso. Nunca senti tanto medo em minha vida.”

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Sirenes de ambulâncias ecoaram pela cidade, à medida que elas corriam para recolher os feridos, muitos dos quais estavam saindo dos escombros de suas casas.

A explosão no porto de Beirute formou um cogumelo no céu e pôde ser ouvida nos arredores da cidade. A gigantesca nuvem vermelha ainda pairava sobre a cidade quando os moradores da capital libanesa (cerca de quatro milhões de pessoas) começaram a descobrir a escala dos danos em suas casas.

Ao mesmo tempo, buscavam tratamento para os ferimentos e ligavam freneticamente para entes queridos para ver se estavam seguros.

“O porto de Beirute está totalmente destruído", disse à CNN a testemunha ocular Bachar Ghattas, descrevendo a cena que se desenrolava como algo semelhante a “um apocalipse”.

“É muito, muito assustador o que está acontecendo agora e as pessoas estão enlouquecendo", contou. “Os serviços de emergência estão sobrecarregados”.

A origem da explosão ainda não é conhecida. O chefe da Segurança Geral do Líbano, Abbas Ibrahim, disse que era muito cedo para opinar sobre o que houve, mas os relatórios iniciais da agência de notícias estatal disseram que foi um "acidente".

As cenas angustiantes ocorrem após quase um ano de turbulência econômica e política, um cenário que mergulhou o Líbano na incerteza e, segundo muitos especialistas, levou o país à beira do colapso.

A pobreza subiu para mais de 50% da população e cenas de pessoas vasculhando lixões em busca de alimentos e necessidades básicas tornaram-se comuns.

Jovens que há apenas alguns meses organizaram uma revolta popular contra a classe política do país (acusada repetidas vezes de corrupção), se mostraram desesperados.

“Eu nunca vi Beirute assim antes. Beirute hoje está parecida com nossos corações”, lamentou a ativista Maya Ammar. “Não temos mais nada. Quando a gente pensava que a situação não poderia ficar pior, ficou”.

“Minha família e meus entes queridos estão me pedindo para voltar para casa, porque não querem que eu respire toxinas. Mas não posso voltar. Tenho amigos que perderam suas casas”, acrescentou. “Seus lares foram completamente destruídos. Eu tenho que ir até lá e ajudá-los.”