Especialistas divergem de Trump e não acreditam em vacina já em novembro

Presidente dos Estados Unidos disse acreditar na disponibilidade da proteção contra o novo coronavírus antes das eleições norte-americanas

Elizabeth Cohen, da CNN
10 de agosto de 2020 às 10:13
Para especialistas, mesmo que a farmacêutica Moderna acelere seus testes clínicos, resultados devem sair só no 1º trimestre de 2021
Foto: Brian Snyder - 18.mai.2020/ Reuters

Ao contrário da previsão feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não haverá uma vacina contra o novo coronavírus até o dia da eleição norte-americana, disseram à CNN especialistas em vacinação.

Essa foi a conclusão após a análise de dados da farmacêutica Moderna, a primeira empresa a entrar na fase 3 dos testes clínicos de uma vacina contra a Covid-19 nos EUA.

“Não tem jeito. Simplesmente não tem como [isso acontecer]”, disse Peter Hotez, vacinologista da Baylor College of Medicine, uma universidade particular no Texas, e analista médico da CNN.

Na semana passada, Trump afirmou que estava “otimista” com a possibilidade de uma vacina estar disponível perto da eleição presidencial norte-americana, em 3 de novembro. 

“Acredito que teremos a vacina antes do fim do ano, certamente, mas perto desta data, sim. Eu acho”, disse Trump, na quinta-feira (6).

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A CNN obteve parte de um e-mail que a Moderna enviou na sexta-feira (7) aos principais analistas de seus testes de vacinas. A mensagem diz que 4.536 pessoas se inscreveram nos ensaios.

O teste começou na manhã de 27 de julho e pretende contar com 30.000 participantes. A empresa disse que está "no caminho certo para concluir as inscrições em setembro".

A Moderna não chegará a 30 mil voluntários em setembro se continuar no ritmo das duas primeiras semanas, mas é provável que a velocidade de inscrição aumente, já que até sexta-feira apenas 54 dos 89 locais do estudo estavam funcionando, de acordo com o e-mail da empresa para seus pesquisadores.

Os números da Moderna aumentaram significativamente da primeira semana do teste para a segunda semana.

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Mesmo que a farmacêutica alcance sua meta de inscrições durante o mês de setembro, a empresa ainda não terá uma vacina no mercado até o dia das eleições, dizem especialistas em doenças infecciosas.

"Não vejo como isso seria possível", disse Paul Offit, especialista em vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia.

Depois que a Moderna aceita a inscrição de um participante e lhe dá a primeira dose da vacina, eles têm que esperar 28 dias antes de tomar a segunda dose.

Isso significa que os participantes que entrarem no programa no fim de setembro só receberão a segunda dose da vacina no fim de outubro. Offit disse que, depois disso, é preciso esperar várias semanas até a vacina se tornar efetiva.

“Aí já será depois do dia da eleição”, afirmou o especialista.

Com protocolo acelerado, Moderna realiza fases 2 e 3 dos testes clínicos de sua vacina contra Covid-19 ao mesmo tempo
Foto: Dado Ruvic/Ilustração/Reuters

Além disso, depois da segunda dose de imunização os pesquisadores têm que esperar para ver quem se infecta com Covid-19 e quem fica imune, de fato. Metade dos participantes do estudo recebe a vacina real e a outra metade um placebo, ou uma injeção que não faz nada. 

Nem os participantes nem os médicos que os vacinaram sabem quem recebeu quais injeções. Tanto Offit quanto Hotez prevêem que os resultados do estudo Moderna só estarão disponíveis no primeiro trimestre de 2021, na melhor das hipóteses.

"Talvez no dia da posse [em 20 de janeiro de 2021] possamos ter um vislumbre se a vacina está funcionando e sermos capazes de avaliar sua segurança", disse Hotez. O Instituto Nacional de Saúde (NIH, em inglês) colabora com a Moderna na vacina contra o novo coronavírus.

"Não posso comentar se a conclusão das inscrições até o final de setembro é realista ou não, mas acho que as inscrições diárias devem aumentar nas próximas semanas, em comparação com as primeiras duas semanas", disse o médico Francis Collins, diretor do NIH.

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Carl Fichtenbaum, que conduz o estudo do Moderna na Universidade de Cincinnati, disse que espera começar receber voluntários em meados de agosto. Ele disse que sua meta é inscrever 500 pessoas e que 2.500 já entraram em contato com ele perguntando sobre o estudo.

"Estamos obtendo bons números", disse ele sobre o teste. "Acho que vamos atingir a meta muito rapidamente."

Outra possibilidade

A Pfizer iniciou seu estudo de Fase 2 e 3 nos Estados Unidos em 27 de julho. O presidente e CEO da empresa, Albert Bourla, disse ao jornal The Washington Post na semana passada que espera ter já no início de setembro os 30.000 participantes.

Ele não especificou se quis dizer que nesta data todos os 30.000 terão recebido uma ou duas doses. Bourla disse que sua empresa vacinou mais de 2.000 pessoas na primeira semana de agosto.

E acrescentou que achava que "até o final de setembro, início de outubro" a Pfizer saberia se a vacina funcionou ou não e entraria em contato com a Food and Drug Administration (FDA, em inglês), órgão equivalente à Anvisa nos Estados Unidos, para uma revisão regulatória em outubro. 

Ele disse ao Post esperar uma aprovação rápida e prometeu que, quando isso acontecer, terá as vacinas fabricadas e prontas para distribuição.

Hotez e Offit disseram que o cronograma de Bourla parecia altamente improvável de ser seguido, visto que, como a Moderna, a Pfizer tem que dar duas doses, esperar que a vacina se torne totalmente eficaz e, em seguida, acompanhar os participantes do estudo para ver se eles adoecem com Covid-19 ou não.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)