Pence aceita nomeação com discurso duro contra Biden: 'Caminho do declínio'

Discurso de vice de Trump fez forte aceno aos militares e policiais, citou otimismo com vacina americana "ainda neste ano" e afirmou que Biden 'gosta da China'

Diego Freire, na CNN, em São Paulo
27 de agosto de 2020 às 00:18 | Atualizado 27 de agosto de 2020 às 05:00

Em discurso na terceira noite da Convenção Nacional Republicana, no qual aceitou a nomeação para concorrer à reeleição como vice da chapa de Donald Trump, Mike Pence fez uma série de ataques ao candidato democrata Joe Biden.  

Vice de Trump desde 2016, Pence afirmou que as eleições de 2020 serão fundamentais para os EUA continuarem "sendo o que são", momento histórico que ele classificou como uma "encruzilhada". 

"Trump colocou nosso país em um caminho de liberdade e oportunidade. Biden vai colocá-lo no caminho do socialismo e declínio", disse, em um dos muitos ataques diretos que fez ao democrata.

O discurso do vice de Trump fez forte aceno aos militares e policiais, citou otimismo com uma vacina segura americana "ainda neste ano" e afirmou que Biden "gosta da China". 

Leia também:
Trump fará 'justiça' contra a China pela Covid-19, diz Mike Pompeo em convenção

Melania Trump cita infância em 'país comunista' e 'sonho americano' em convenção

 

'Biden se opôs à operação que matou Bin Laden'

Pence iniciou seu discurso saudando heróis de guerra e veteranos do Exército americano. Falando do Fort McHenry, próximo de Baltimore, local estratégico em guerras da história do país, afirmou: "os heróis que mantiveram esse forte de pé batalharam com sua vida e liberdade, pela bandeira americana. Esses ideais definiram essa nação, mas eles quase não foram mencionados na convenção democrata".

Em seu discurso, o vice-presidente exaltou a atuação do Exército americano contra o Estado Islâmico e a ação que matou Qasem Soleimani, major-general iraniano da Guarda Revolucionária Islâmica. 

"Joe Biden criticou a decisão (que matou Soleimani), de acabar com líderes terroristas. Isso não é surpresa porque Biden também se opôs à operação que matou Osama Bin Laden".

A página Facts First da CNN, que apura a veracidade de declarações nas convenções partidárias, confirma que Biden realmente teve restrições à operação que matou Bin Laden. Ele próprio afirmou, em 2012, que aconselhou Obama a não prosseguir na ação que resultou na morte do terrorista. Biden queria obter mais informações àquela altura.

"Com heróis como esses (do Exército) defendemos nossa nação todos os dias e lidamos com os radicais islamistas. Destruímos o califado islâmico e seu maior líder sem perda de cidadãos americanos e eu estava lá", acrescentou Pence, se referindo ao combate ao Estado Islâmico.

Pence disse que herdou "os militares devastados" e exaltou o aumento de salário nas Forças Armadas como um dos grandes feitos de seu governo com Trump, ao lado de avanços no campo espacial. 

"Trump concedeu o maior aumento para os militares desde Ronald Reagan e criou a United Space Force. Com essa nova energia também voltamos a enviar astronautas americanos em um foguete americano pela primeira vez em quase dez anos".

Sobre política externa, disse que Trump fortaleceu parceria com aliados do país, citando a mudança de embaixada em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. Pence também elogiou o enfrentamento de Trump ao governo chinês e afirmou que "Biden gosta da China".

"Lutamos por acordos comerciais e Trump se impôs à China. Biden gosta da China e criticou Trump por banir todas as viagens da China desde o início da pandemia".

A página Facts First mostra que é incorreta a afirmação de que Trump suspendeu "todas" as viagens da China. Suas restrições de viagem no início da pandemia baniram a maioria dos estrangeiros que estiveram na China nos 14 dias anteriores à aterrissagem.

'Não vamos escolher entre apoiar a polícia ou afro-americanos'

Além dos militares, Pence também dedicou boa parte de seu discurso a se comunicar com os policiais do país. "Todos os dias quando saem de casa, eles consideram nossas vidas mais importantes que as deles próprios".

Em momento no qual flagrantes de abordagens policiais violentas contra pessoas negras - como nos casos de George Floyd e Jacob Blake - levantam debates sobre uma reforma policial no país, incluindo cortes de financiamento, Pence salientou apoio ao trabalho da Polícia.

“Joe Biden disse que os Estados Unidos são racistas sistêmicos e que a polícia tem preconceito contra minorias. Respondeu que sim sobre cortar o financiamento. A verdade é que não haverá segurança nos Estados Unidos de Joe Biden. Com Trump, não vamos cortar o financiamento da polícia nem agora e nem nunca”, declarou.

"Não temos que escolher entre apoiar a polícia e a comunidade afro-americana. Desde o primeiro dia desse governo, fizemos os dois", argumentou Mike Pence, que destacou os incidentes violentos em protestos no país e prestou tributo ao policial Dave Patrick Underwood, que Pence disse ter morrido durante "distúrbios em Oakland", na Califórnia. A página Facts First checou que Underwood morreu alvejado próximo a um protesto contra violência policial, mas não há relação direta comprovada do crime com os manifestantes. 

"No meio dessa pandemia, quando nossa economia estava começando a se recuperar, vimos violência e caos nas nossas ruas. Trump e seu sempre apoiaremos o direito de protestos pacíficos, mas saques e destruição de estátuas não é liberdade de expressão", disse Pence, afirmando que envolvidos em incidentes violentos serão indiciados.

“Biden não disse uma única palavra sobre a violência e o casos que está acontecendo nas ruas desse país. A violência tem que parar. Teremos lei e ordem nas ruas desse país para todo cidadão americano, de toda raça. credo e cor”, pontuou o republicano.

 

'Somos um país de milagres, no caminho para a 1ª vacina segura'

Um importante trecho do discurso de Pence foi dedicado à pandemia do novo coronavírus. Segundo ele, até então a economia americana era a “melhor do mundo”.

 “Nos primeiros três anos (de governo), criamos a melhor economia do mundo. Tornamos os EUA grande novamente. E depois o coronavírus veio da China. Trump tomou ações sem precedentes (para combater a Covid-19), banindo viagens da China, uma ação que salvou milhares de vidas americanas. Assim, ganhamos tempo para criar a maior mobilização nacional desde a II Guerra Mundial. Trump enviou dinheiro para todos os estados e criou parcerias com os governos”, disse Pence.

Como checado pela página Facts First, é falso que Trump baniu todas as viagens originárias da China. Suas restrições de viagem no início da pandemia baniram a maioria dos estrangeiros que estiveram na China nos 14 dias anteriores à aterrissagem.

Ao mostrar otimismo nas ações contra o vírus e inclusive citar uma possível vacina até o fim de 2020, Pence lembrou de uma fala de Joe Biden na convenção de democrata, de que Trump aguardava um milagre, mas não há milagre vindo.

“Biden disse que não há milagre vindo, mas o que ele não entende é que nosso país é um país de milagres. Posso dizer que estamos no caminho para ter a primeira vacina segura do mundo contra o coronavírus até o fim deste ano. Após todo o sofrimento, estamos criando o caminho para o avanço”.

O vice-presidente indicou que os EUA já começam a se recuperar dos impactos econômicos da pandemia e que Trump é o nome certo para dar sequência a uma recuperação.

“Em quem vocês confiam para reconstruir a economia? Um político de carreira que estava à frente da recuperação mais lenta desde a recessão ou um líder de verdade? A escolha é clara. Precisamos de mais quatro anos de Donald Trump na Casa Branca”.

O republicano celebrou a reabertura da economia nas cidades do país, incluindo a volta às aulas presenciais. Casado com uma professora, ele citou sua experiência pessoal.

"Não estamos só reabrindo o país, mas reabrindo escolas também. Tenho orgulho em dizer que a professora com quem sou casado vai voltar para a sala de aula semana que vem".

 

'Onde Biden vê escuridão, vemos a grandeza dos EUA'

“A dúvida (desta eleição) é se os EUA continuarão sendo o que são, estamos em uma encruzilhada. Trump colocou nosso país em um caminho de liberdade e oportunidade. Biden vai colocá-lo no caminho do socialismo e declínio”, disse o republicano, que classificou a plataforma do governo Trump como “baseada na liberdade”.

Em diversos momentos de sua fala, Pence procurou rebater falas da convenção democrata da última semana e atacar o partido oponente.

“Passaram quatro dias atacando os Estados Unidos (na convenção democrata). Como Trump disse, onde Joe Biden vê escuridão, nós vemos a grandeza dos Estados Unidos”, disse.

“Biden diz que é um presidente de transição. Transição para quê? Não apresentaram seu programa na última semana. Eu faria o mesmo”, ironizou Pence, que fez acusações às propostas democratas.

“Onde Trump corta impostos, Biden quer aumentar impostos. Onde Trump conquistou independência energética, Biden quer acabar com combustíveis fósseis. Quer abrir as fronteiras, com serviços para imigrantes ilegais, enquanto Trump construiu quilômetros do muro. Trump apoia a vida, Biden quer que contribuintes paguem por aborto”, disse, entre outros ataques.

Pence destacou, ainda, a nomeação de juízes conservadores, combate à burocracia e manutenção do direito de posse de arma como realizações do governo Trump. Disse que desemprego de negros e hispânicos diminuiu e que país tem menor taxa de desemprego para mulheres em 65 anos.

"Trump manteve sua palavra com o povo americano. Precisamos de um presidente que acredita na América", disse.