China e Índia voltam a se acusar de disparos na fronteira e tensão aumenta

Ambas as partes culpam umas às outras por violar os acordos bilaterais e realizar ações ‘de provocação’

Swati Gupta e Nectar Gan, da CNN
09 de setembro de 2020 às 11:34
Placa no lado indiano da fronteira com a China
Placa no lado indiano da fronteira com a China
Foto: Adnan Abidi - 11.nov.2009 / Reuters

A China e a Índia se acusaram mutuamente de ter feito disparos de advertência durante um enfrentamento na segunda-feira (7) na disputada região fronteiriça do Himalaia. A ação marca uma escalada nas tensões entre as duas potências nucleares.

Segundo relatos, esta é a primeira vez que são feitos disparos ao longo da fronteira entre a China e a Índia em mais de quatro décadas, mas ambas as partes culpam umas às outras por violar os acordos bilaterais e realizar ações “de provocação”.

Em um comunicado divulgado na noite de segunda, um porta-voz do Comando do Teatro Ocidental do Exército de Libertação Popular da China disse que as tropas indianas “cruzaram ilegalmente” a Linha de Controle Real (LAC, em inglês) – a linha de demarcação pouco definida que separa os dois países –, e entraram em Shenpao, região montanhosa perto da costa sul de Pangong Tso, um lago estrategicamente localizado na parte ocidental da fronteira de 3.379 km de extensão.

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“Os soldados indianos dispararam descaradamente tiros de advertência para os soldados das patrulhas fronteiriças chinesas que se aproximaram para negociar, e os soldados fronteiriços chineses se viram obrigados a tomar contramedidas para estabilizar a situação”, disse o coronel Zhang Shuili, porta-voz militar chinês, sem especificar quais seriam essas “contramedidas”.

Qualificando a ação como uma “provocação militar séria”, Zhang pediu à parte indiana que “detenha imediatamente as ações perigosas, restrinja estritamente aos soldados de primeira linha, e investigue e castigue seriamente o pessoal que disparou para garantir que incidentes similares não se repitam”.

Índia rejeita acusações da China

Nessa terça-feira (8), o Exército indiano rechaçou as acusações da China e qualificou a declaração como “uma tentativa de enganar sua audiência nacional e internacional”.

Os militares afirmaram que os soldados indianos haviam “exercido uma grande moderação e se comportado de maneira madura e responsável”, e acusou o Exército chinês de “violar abertamente os acordos e realizar manobras agressivas”.

Para a Índia, foram as tropas chinesas que tentaram se aproximar de uma das posições avançadas dos soldados indianos ao longo da fronteira. Quando as tropas indianas os dissuadiram, os soldados do Exército de Libertação Popular da China dispararam “algumas vezes para o ar em uma tentativa de intimidá-los”, segundo o comunicado do Exército indiano.

“Em nenhum momento o Exército da Índia transgrediu através da LAC ou recorreu ao uso de qualquer meio agressivo, incluindo disparos”, disse o comunicado.

Primeiros disparos em décadas

Acredita-se que esta é a primeira vez que são feitos disparos ao longo da fronteira entre a China e a Índia desde 1975, quando quatro soldados indianos foram assassinados por tropas chinesas em uma área remota no extremo oriente da fronteira, de acordo com Harsh V. Pant, professor de Relações Internacionais em King’s College, em Londres.

Na terça, Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, confirmou que o incidente foi o primeiro disparo ao longo da fronteira em 45 anos, e garantiu que “a parte indiana disparou primeiro contra os soldados fronteiriços chineses”.

A China e a Índia disputam a área que circunda o lago Pangong Tso desde que os dois países lutaram em uma sangrenta guerra fronteiriça em 1962. A LAC, que passa pelo lago, foi estabelecida na esteira do conflito. Apesar de aparecer nos mapas, Índia e China não estão de acordo com sua localização exata e ambos se acusam regularmente de ultrapassá-la ou de buscar expandir seu território.

Du Youkang, professor de estudos do sul da Ásia na Universidade Fudan em Xangai, disse que os disparos de advertência são uma escalada “séria” na disputa fronteiriça. “Ambas as partes chegaram a um consenso, sabendo que as coisas poderiam explodir quando fizessem disparos. Não deveriam sequer ter permitido disparar para o ar”, afirmou ele.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em espanhol.)