Opinião: Moderadores do debate entre Trump e Biden enfrentam um grande desafio

CNN Brasil transmitirá o primeiro debate entre os candidatos nas eleições dos Estados Unidos na próxima terça-feira (29), às 22 horas

Artigo de opinião de Todd Graham
26 de setembro de 2020 às 13:07 | Atualizado 26 de setembro de 2020 às 14:28

O primeiro debate entre Joe Biden e Donald Trump nos Estados Unidos acontecerá na próxima terça-feira (29). Os brasileiros poderão acompanhar o encontro entre os dois candidatos por meio da CNN Brasil. Realizado na cidade de Cleveland, em Ohio, o debate começa às 22h, no horário de Brasília. A transmissão acontecerá pela TV, pelo site e pelo canal CNN Brasil no YouTube.

Abaixo, você confere artigo de Todd Graham, que é o diretor de debates da Southern Illinois University. Suas equipes ganharam cinco campeonatos nacionais e ele foi reconhecido três vezes como o técnico de debate nacional do ano. As opiniões expressas neste artigo pertencem exclusivamente ao autor.

Reclamar dos moderadores de debates políticos já se tornou parte do jogo, assim como falar mal dos árbitros nos esportes. De acordo com um relatório do Annenberg Debate Reform Working Group, que foi criado para entender como aumentar o peso dos debates nas eleições presidenciais, há quatro principais fatores que são alvos de críticas aos moderadores. Neste artigo, vou abordar essas questões e dar algumas dicas ao grupo deste ano.

Os jornalistas Chris Wallace, da Fox News, Steve Scully, da C-SPAN, e Kristen Welker, da NBC News, vão conduzir os três debates presidenciais entre o presidente Donald Trump e o candidato da oposição, Joe Biden, enquanto Susan Page, do USA Today, assume a liderança no debate vice-presidencial entre Mike Pence e a senadora Kamala Harris.

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Favoritismo e parcialidade:

Todos os moderadores são profissionais. Esta é uma área na qual não vale a pena gastar muita energia, embora essa seja a reclamação mais comum, com 41% dos entrevistados no relatório dizendo que estão extremamente ou muito preocupados com isso. 

Todo mundo adora alegar preconceito, e todos estão errados. Ouvir que "os juízes foram subornados! eles querem que o nosso lado perca" é tão antigo quanto a existência das competições. Assisti a todos os debates durante um quarto de século e a parcialidade dos moderadores deve ser a menor de nossas preocupações.

É o contrário que temo que possa acontecer nos próximos debates. Os moderadores podem ficar tão preocupados em serem avaliados pelo público como tendenciosos, que eles podem acabar indo na outra direção para garantir o “justo”. 

Eu sei que isso pode parecer uma coisa boa, mas, preste atenção, porque a noção de "justiça" nos debates, na verdade, pode se transformar em outra forma muito diferente de preconceito. Nós chamamos isso de “falácia da falsa equivalência” — também conhecida como “falso equilíbrio” bothsidesism (“ambos os lados”, na tradução para o português). E acredito que é contra essa tendência que os moderadores deste ano devem lutar.

Se eles pensarem: "Bem, já que fiz uma pergunta difícil a Trump sobre um tópico em que ele claramente parece estar errado, devo encontrar algum assunto sobre o qual a postura de Biden seja um pouco questionável e interrogá-lo com o mesmo fervor", então os moderadores estarão adotando um viés não intencional de falsa equivalência. 

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E o formato do debate favorece esse tipo de erro. Os moderadores apresentam perguntas para cada candidato, de forma intercalada, e com o mesmo tempo de resposta. Embora isso pareça justo, o problema acontece quando os candidatos recebem perguntas especialmente precisas ou críticas, mas suas políticas não são igualmente falhas. Para o público, parece que "os dois lados fazem isso, então é uma falha geral", quando na verdade um candidato é muito pior do que o outro.

Não conseguir controlar os candidatos:

Isso geralmente acontece quando os candidatos interrompem o oponente ou falam por mais tempo do que o permitido. A história demonstra que, a menos que os moderadores assumam o controle imediatamente, Trump e Biden vão se interromper tanto que os debates vão se transformar num verdadeiro rali.

Quanto ao fato de ultrapassar o limite de tempo, ter um sino (uma buzina, na verdade, seria incrível) que toque e continue tocando até que o candidato pare é a melhor solução. Caso contrário, cabe aos moderadores interrompê-los verbalmente. Eles provavelmente deixarão um ou outro candidato escapar impune por quebrar essas regras, mas não porque sejam tendenciosos, e sim porque eles não sabem como lidar com debatedores agressivos por 90 minutos. 

Trump inevitavelmente tentará manipular os moderadores. Na verdade, é uma habilidade dele. Mesmo um moderador compreensivo será intimidado. Neste caso, a paciência não é uma virtude.

CNN vai exibir debate entre Donald Trump e Joe Biden na próxima terça-feira (29)
Foto: CNN Brasil

Deixar de estabelecer limites:

O jornalista Howard K. Smith, que moderou o primeiro debate presidencial televisionado entre John F. Kennedy e Richard Nixon em 1960, estabeleceu o padrão de "ficar fora do caminho". No entanto, os candidatos se tornaram mais agressivos em suas táticas ao longo dos anos, inclusive passando a mentir muito mais. Trump pode ter estabelecido um recorde de informações falsas durante seus debates contra Hillary Clinton.

O co-fundador e atual co-presidente da Comissão de Debates Presidenciais, Frank Fahrenkopf, disse recentemente que os moderadores não deveriam ser verificadores de fatos, então, a melhor maneira de se adaptar a isso é se antecipar às perguntas. 

Citar os candidatos, divulgar os fatos, e coisas do tipo, enquanto lê as questões. Dessa forma, você não estará corrigindo o candidato depois que ele respondeu, mas sim adicionando informações e contextualizando de forma natural.

Também fica mais fácil questioná-los depois, com perguntas como "de que forma você comprova isso?" ou "você tem algum exemplo específico para essa afirmação?”, que são cruciais caso um dos candidatos persistir com as informações falsas. Não deixe somente aos candidatos a verificação dos fatos, pois isso dá uma vantagem intransponível para quem mentir mais, forçando o oponente a perder um tempo precioso, que deveria ser usado na exposição das ideias e plataformas, para corrigir declarações falsas.

Não fazer as perguntas certas:

Não dá para agradar a todos, mas o formato deste ano — que permite que os primeiros tópicos do debate sejam divulgados com uma semana de antecedência — ajuda. Chris Wallace já anunciou quais temas vai abordar e, agora, os outros moderadores já podem decidir quais assuntos incluir entre as perguntas, com base no primeiro debate. Os tópicos dele são: a “ficha” política de Trump e Biden, a atuação da Suprema Corte, Covid-19 e a economia, questões de raça e violência nos grandes centros urbanos e a integridade da eleição.

Mais um fator que eu acrescento como observação própria:

A experiência é importante. Quando se trata de sucesso ou fracasso, os moderadores podem determinar o resultado dos debates presidenciais. Repetidamente, jornalistas sem experiência falharam em seu objetivo de conduzir um debate suave e informativo. Os moderadores já arruinaram mais de um debate presidencial.

Me preocupa o fato de que Wallace seja o único moderador com experiência em lidar sozinho com um debate, em 2016. Ele era terrível quando começou a moderar em 2011:  cometia todos os erros possíveis. Caramba, ele até encontrou novas maneiras desconhecidas de atrapalhar um debate sendo sarcástico e tentando superar intelectualmente Newt Gingrich. Mas Wallace aprendeu, ajustou sua postura, melhorou com o tempo e se destacou durante a campanha de 2016.

Na verdade, Scully e Page nunca moderaram um debate presidencial ou vice-presidencial na vida e Welker só o fez uma vez e como membro de uma equipe, durante as primárias em novembro passado. Na minha opinião, selecionar iniciantes foi uma jogada arriscada da Comissão de Debates Presidenciais. 

Isso coloca muita pressão sobre os moderadores no que podem ser os debates políticos mais importantes deste século. Os novatos terão que superar a história se quiserem ter um bom desempenho.

Este texto foi traduzido do inglês. Para ler a versão original, acesse o site da CNN International