Pandemia afeta imóveis da rainha, mas contribuintes britânicos irão salvá-la

Maior parte das receitas do Crown Estate vai para os cofres do governo, mas 25% são pagos pelo governo à rainha, como subsídio

Hanna Ziady, do CNN Business, em Londres
26 de setembro de 2020 às 15:58 | Atualizado 26 de setembro de 2020 às 16:11
A Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, aos 94 anos
Foto: Reprodução/ TheBritishMonarchy/ Facebook

A pandemia de coronavírus está atingindo o vasto império de propriedades que fornece à rainha Elizabeth II uma parte significativa de sua renda. Mas os contribuintes britânicos podem ter que compensar esse déficit nos próximos anos.

Em nota, o tesoureiro da rainha, Michael Stevens, confirmou que o tamanho do “Subsídio Soberano”, uma das principais reservas financeiras da família real, não será afetado por uma queda já esperada nos lucros dos investimentos do Crown Estate.

O Subsídio Soberano é uma provisão do governo britânico para cobrir viagens oficiais, custos de pessoal e despesas do palácio. O Subsídio é gerado pelo Patrimônio da Coroa, composto por uma vasta coleção de terras agrícolas e imóveis de alto padrão no centro de Londres. A maior parte das receitas do Patrimônio da Coroa vai para os cofres do governo, mas 25% do que é arrecadado retorna à Rainha em forma do subsídio.

Leia também:
Brexit: Boris indica 15 de outubro como prazo para acordo comercial com UE
Em meio à pandemia, rainha Elizabeth II fará raro pronunciamento aos britânicos

Na semana passada, o Patrimônio da Coroa relatou um lucro recorde de £ 345 milhões (R$ 2,4 bilhões) no ano fiscal encerrado em março de 2020, mas advertiu que os lucros no período seguinte, até março de 2021, serão “significativamente menores” devido ao impacto da pandemia de Covid-19.

Boa parte do centro de Londres foi transformada em uma cidade fantasma neste ano, pois o lockdown manteve milhões de trabalhadores e turistas longe da capital. A atividade estava começando a aumentar nos meses de verão, mas novas restrições introduzidas esta semana para combater uma segunda onda da Covid-19 devem prejudicar essa recuperação. 

De qualquer forma, a queda na arrecadação do Patrimônio da Coroa não afetará a verba destinada à rainha. Ela continuará recebendo os mesmos £ 86,3 milhões (R$ 611 milhões) que lhe couberam no ano fiscal encerrado em março de 2020 por mais dois períodos, até março de 2022, mesmo que o lucro do Patrimônio da Coroa continue sob pressão. 

“No caso de uma redução nos lucros do Patrimônio da Coroa, o Subsídio Soberano se mantém no mesmo nível do ano anterior”, disse um porta-voz do Tesouro ao CNN Business. “O Subsídio Soberano financia os negócios oficiais da Monarquia, mas não fornece uma renda privada a nenhum membro da família real”, esclareceu o porta-voz. 

A concessão feita à família real foi atacada por alguns economistas nas redes sociais. “É uma loucura. Os proprietários de imóveis (incluindo o Patrimônio da Coroa) fizeram investimentos de risco, sabendo que eles devem render menos nos tempos ruins. Mas, como sociedade, parece que não entendemos isso”, tuitou Laurie Macfarlane, bolsista do Instituto de Inovação e Propósito Público da UCL.

O Subsídio Soberano é revisado a cada cinco anos pelo primeiro-ministro, o ministro das finanças e o tesoureiro da Rainha. A lei atual que rege essa concessão não permite que o rendimento da rainha caia em termos absolutos, mas ela pode ser revista no próximo ano.

A revelação de que as empresas do Reino Unido cortaram quase 700 mil empregos entre março e agosto, e de que mais demissões podem acontecer quando o apoio do governo aos salários for reduzido significativamente no próximo mês, deve esquentar o debate. Os britânicos também enfrentam a perspectiva de impostos mais altos para pagar a dívida pública crescente, que ultrapassou £ 2 trilhões (R$ 14 trilhões) pela primeira vez no mês passado.

Leia também:
Coronavírus e Brexit: um duplo desafio para o Reino Unido
Cerimônia no Castelo de Windsor marca aniversário oficial da rainha Elizabeth II

No entanto, as contas reais não sairão totalmente ilesas pela pandemia. O crescimento reduzido do Subsídio Soberano vai cortar £ 20 milhões (R$ 141 milhões) do orçamento de £ 369 milhões (R$ 2,6 bilhões) para reformar o Palácio de Buckingham, enquanto uma queda no número de visitantes ao Palácio e outros locais como o Castelo de Windsor levará a uma perda de receita estimada de £ 15 milhões (R$ 106 milhões) nos próximos três anos.

Stevens, o tesoureiro, disse que a casa real “não tem intenção” de pedir financiamento extra e "procurará administrar esses cortes por meio de nossos próprios esforços e eficiência".

O relatório financeiro publicado na sexta-feira (25) mostra que as despesas cobertas pelo Subsídio Soberano, incluindo folha de pagamento, manutenção de propriedades e custos de viagens, aumentaram 3,6% para £ 69,4 milhões (R$ 491 milhões) ao longo do ano até março de 2020. Em comparação, a inflação de preços ao consumidor ficou entre 1,5% e 2% no mesmo período.

O impacto da pandemia destaca as “fraquezas do sistema de subsídios”, disse o jornalista David McClure, que atualmente está produzindo um documentário sobre as finanças reais. Segundo ele, o verdadeiro problema com o Subsídio Soberano é que não existem incentivos para encorajar cortes de custos.

“Parece haver uma desconexão entre requisitos e receitas”, acrescentou.

– Max Foster contribuiu nesta reportagem.

Esse texto foi traduzido. Acesse o site da CNN International para ler o original, em inglês.