Há risco de que Rússia e Turquia entrem no conflito de Armênia e Azerbaijão?

Ex-repúblicas soviéticas promovem escalada de tensão em Nagorno-Karabakh, gerando temor de que potências da região se envolvam

Diego Freire, da CNN, em São Paulo
29 de setembro de 2020 às 04:18 | Atualizado 29 de setembro de 2020 às 04:30
Artilharia do Exército do Azerbaijão 
Foto: Reprodução/ Instagram

As forças militares da Armênia e do Azerbaijão se utilizaram de artilharia pesada nesta terça-feira (29), em mais um dia o confronto na região separatista de Nagorno-Karabakh, disseram ambos os países.

Há temor de que qualquer movimento para uma guerra total entre as duas ex-repúblicas soviéticas possa arrastar as grandes potências regionais da Rússia e da Turquia para os conflitos.

Moscou tem uma aliança de defesa com a Armênia, que tem localização estratégica para acesso russo a outros países, enquanto Ancara apoia o Azerbaijão, considerando que o povo azeri tem origem turca, com história e cultura em comum. 

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Não apenas por conta da proximidade da Turquia com o Azerbaijão, a Armênia tem historicamente relações tensas com o governo turco, de quem cobra o reconhecimento de que foi cometido um genocídio contra armênios no período do Império Otomano.

Após a intensificação dos conflitos em Nagorno-Karabakh, o Ministério das Relações Exteriores da Armênia afirma que o Azerbaijão está recebendo "apoio político-militar em larga escala da Turquia".

De forma similar, em anos recentes o governo azeri criticou o governo russo por envio de armas à Armênia.

Diante do histórico, o governo russo se manifestou nesta segunda-feira a favor da pacificação na região e frisou que também tem boas relações com o Azerbaijão.

“Apelamos a todas as partes para que se abstenham de agir com métodos militares com a máxima serenidade e medidas que possam fazer com que a situação piore no futuro. O importante não é esclarecer quem é culpado ou não, mas parar os confrontos. O conflito deve ser resolvido por meio da diplomacia política", disse Dimitri Peskov, porta-voz do Kremlin.

“A Rússia tem boas relações com o Azerbaijão e a Armênia. Temos uma posição equilibrada sobre a situação em Nagorno-Karabakh", declarou Peskov, salientando que Moscou "está em pleno contato com a Turquia" a respeito da situação.

 

Novo dia de conflitos

O Ministério da Defesa azeri afirmou nesta segunda-feira que as forças adversárias tentaram recuperar o terreno perdido lançando contra-ataques nas direções de Fizuli, Jabrayil, Agdere e Terter.

Em comunicado, o órgão do governo do Azerbaijão houve combates em torno da cidade de Fizuli e o exército armênio bombardeou a região de Dashkesan na fronteira entre os dois países, a quilômetros de Nagorno-Karabakh.

A Armênia negou essas informações, mas relatou combates durante a noite e disse que o Exército de Nagorno-Karabakh repeliu ataques em várias direções ao longo da linha de contato.

Nagorno-Karabakh é uma região separatista que fica dentro do Azerbaijão, mas é administrada por armênios étnicos e é apoiada pela Armênia. A área se separou do Azerbaijão em uma guerra na década de 1990, mas não é reconhecida por nenhum país como uma república independente.

Os confrontos entre as forças armênias e azeris em torno de Nagorno-Karabakh, o mais pesado desde 2016, reacenderam a preocupação com a estabilidade na região do sul do Cáucaso, um corredor para oleodutos que transportam petróleo e gás para os mercados mundiais.

Os dois lados se acusam mutuamente de usar artilharia pesada nos confrontos desta semana, nos quais dezenas de pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

O Azerbaijão informou no domingo sobre a morte de cinco membros de uma família, enquanto a Armênia disse na terça-feira que uma menina de 9 anos foi morta em um bombardeio, enquanto sua mãe e um irmão ficaram feridos.

Uma mãe e seu filho foram mortos em Martuni no domingo, disse o ministério da defesa de Nagorno-Karabakh.

A Armênia está considerando a possibilidade de concluir uma aliança político-militar com Nagorno-Karabakh, escreveu Lilit Makunts, parlamentar da aliança My Step no governo, em sua página no Facebook.

(Com informações de Nailia Bagirova e Nvard Hovhannisyan, da Reuters)