Como funcionam as pesquisas eleitorais nos Estados Unidos


Zachary B. Wolf e Harry Enten, da CNN
14 de outubro de 2020 às 05:30
Cidadão norte-americano comparece a local de votação em Flushing, Ohio

Cidadão norte-americano comparece a local de votação em Flushing, Ohio

Foto: Matt Sullivan - 06.mar.2012 / Reuters

Chegamos à parte da eleição presidencial de 2020 dos Estados Unidos em que muitas pesquisas são reveladas. É realmente uma quantidade gigante.

É fácil se sentir sufocado pelos números e ficar sem entender quais devem ser levados a sério e quais devem ser ignorados.

Por isso, falamos com Harry Enten, analista político da CNN, que mergulhou no mundo das pesquisas nas últimas semanas.

Regras básicas

Há muitas pesquisas por aí. Quais são as três (ou quatro?) regras básicas que as pessoas devem considerar ao ler sobre uma nova votação?

Harry Enten: São três regras.

Veja-a no contexto de outras pesquisas na mesma corrida eleitoral. Se o resultado for fora da curva, você deve se perguntar se alguma coisa mudou para ser algo além de uma esquisitice estatística.

Como em qualquer outra coisa na vida, você deve saber com quem está fazendo negócios e, caso não saiba (ou seja, você nunca ouviu falar do pesquisador), o resultado não vale nada.

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As pesquisas são ferramentas e apenas informam o que está acontecendo no momento. Elas não são preditivas. A margem de erro existe por uma razão e por isso reconheça que se aplica a cada candidato individualmente. Você tem que dobrar a margem de erro para saber todo o escopo da incerteza ao observar a diferença entre os candidatos.

As médias são valiosas

A CNN publica uma média das pesquisas. Qual é o objetivo de fazer isso?

Harry Enten: As médias são simplesmente mais precisas a longo prazo. Em qualquer corrida, algumas pesquisas baterão a média. Poucos institutos de pesquisa superam as médias de forma consistente.

Os sinais para ignorar

Nem todas as pesquisas são criadas da mesma forma e não incluímos todas as pesquisas em nossa média. O que deve disparar o alarme sobre uma votação?

Harry Enten: Eu mencionei isso antes, mas um alarme deve soar se você nunca ouviu falar do pesquisador ou se eles não são transparentes sobre sua metodologia.

As pesquisas patrocinadas por um grupo afiliado a uma campanha ou causa são muitas vezes tendenciosas a favorecer esse lado quando divulgadas publicamente. E, claro, dados atípicos ou fora da curva também acontecem. Portanto, sempre olhe para outras pesquisas em uma corrida, quando disponíveis

Os sinais de uma boa pesquisa

O que devemos procurar para saber se uma pesquisa é boa?

Harry Enten: A transparência é um grande problema. Os bons pesquisadores têm pouco a esconder, e aqueles que são transparentes são, em média, mais precisos.

Existem muitos bons pesquisadores que não seguem todas essas métricas, mas em geral entrevistas ao vivo feitas por telefones celulares e separadas por idade, nível de escolaridade, gênero, raça e região tendem a ser as melhores. Uma regra bastante segura é que, se uma grande organização de notícias está patrocinando a pesquisa, as chances são de que ela seja muito boa.

Como os pesquisadores chegam nas pessoas

Não tenho telefone fixo e não atendo chamadas de números que não reconheço. Como os pesquisadores estão chegando nas pessoas agora?

Harry Enten: Eu também não tenho. Os pesquisadores usam uma variedade de métodos, desde pesquisas por entrevista ao vivo até pesquisas na internet e por texto. As taxas de resposta estão mais baixas do que nunca, mas os bons pesquisadores fazem várias tentativas para alcançar aqueles que não respondem à pesquisa na primeira tentativa. A boa notícia é que as pessoas que respondem às pesquisas têm tanta probabilidade de serem democratas quanto republicanos, uma vez que a ponderação ocorre.

Para que servem as pesquisas nacionais

As pesquisas atuais sugerem uma boa vantagem para Joe Biden em nível nacional sobre o presidente Donald Trump. Mas não é o voto popular que vence a eleição. Por que prestar atenção às pesquisas nacionais?

Harry Enten: Há razões para isso e compartilho aqui algumas que fazem parte de um artigo que estou escrevendo.

Em primeiro lugar, obtemos uma compreensão muito boa das questões na mente dos eleitores (por exemplo, o coronavírus) usando as pesquisas nacionais.

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Em segundo lugar, temos uma boa compreensão de como grupos de eleitores (por exemplo, aqueles com menos de 30 anos) estão decidindo em quem votar.

Terceiro, as pesquisas nacionais são mais precisas em geral do que as estaduais. Isso é importante porque sabemos, por exemplo, que se Biden está com uma alta de, digamos, 8 pontos nacionalmente, ele provavelmente está em algo perto disso. A chance de alguém perder no colégio eleitoral quando está 8 pontos acima nacionalmente é basicamente nula.

Olhe além dos números da corrida

Quais são os principais pontos que indicam força ou fraqueza em um candidato?

Harry Enten: Eles são bem conhecidos? Se não são e estão indo bem, as coisas podem mudar mais. O mesmo se aplica se suas classificações favoráveis forem baixas e eles estiverem indo bem como candidatos. As coisas podem mudar.

Também examino as questões que os eleitores consideram importantes e, em seguida, vejo se os eleitores confiam em um candidato nessa questão. Se não, então algo pode estar acontecendo. Biden está indo bem no básico das questões que importam para as pessoas, então não foi um grande choque ele ter vencido as pesquisas.

Quem vai decidir

Quem decidirá esta eleição? Eleitores indecisos? Partidários comprometidos?

Harry Enten: A resposta simples é: as duas coisas. A resposta mais longa é: os indecisos. Em 2016, por exemplo, Hillary Clinton provavelmente teria vencido por uma margem mínima se a eleição tivesse uma participação de eleitores negros semelhante à da eleição de 2012.

Ela teria esmagado Trump, no entanto, se tivesse apenas mantido os números de Barack Obama com brancos sem um diploma universitário. O mesmo vale desta vez, creio eu. Persuasão é mais importante do que comparecimento, na minha opinião.

Esta eleição não acabou

É possível que um político com 43% de aprovação (Trump) seja reeleito? Se sim, como?

Harry Enten: Claro que é possível. As avaliações de Rod Blagojevich eram ruins em 2006, e ele ganhou outro mandato como governador de Illinois. O mesmo aconteceu Harry Reid, senador de Nevada em 2010.

O que Trump provavelmente precisaria é que as avaliações de Biden estivessem na sarjeta com as dele. Foi o que aconteceu com Hillary Clinton em 2016. Cerca de 20% do eleitorado não gostava de nenhum dos candidatos, e Trump ganhou esmagadoramente com eles. Desta vez, porém, as avaliações de Biden são muito mais altas do que as de Hillary, um grande motivo pelo qual Joe Biden tem uma vantagem maior do que a de Hillary Clinton na última eleição.

O que está mudando

O índice de aprovação de Trump tem sido notavelmente consistente. O que mudou nas pesquisas recentes?

Harry Enten: Por baixo da superfície, houve algum movimento. Os números de Trump estão piores com eleitores brancos e mais velhos do que em 2016. Ao mesmo tempo, ele está se saindo melhor com eleitores negros e hispânicos.

É um grande ano para as pesquisas

Cite um dos principais equívocos sobre a pesquisa que você gostaria de corrigir agora.

Harry Enten: Não há prova NENHUMA de que os eleitores de Trump estão respondendo às pesquisas com uma taxa menor do que os de Biden. Não há prova nenhuma de que os eleitores de Trump estão mentindo sobre suas respostas aos pesquisadores.

E se as pesquisas estiverem erradas?

Qual é a pergunta que eu deveria ter feito, mas não fiz?

Harry Enten: O que acontecerá se os pesquisadores estiverem certos em 2020? O que acontece se eles estiverem errados? A resposta para a primeira é provavelmente nada.

A resposta à segunda seria muito mais interessante. A corrida está próxima o suficiente para que eu possa prever um erro na votação que permita que Trump ganhe. O resultado disso seria interessante.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).