Decisão histórica: Poluição do ar é dada como causa da morte de menina britânica

Para especialista, veredito abre precedente para mudança sísmica na no enfrentamento à crise da saúde pela poluição do ar

Emma Reynolds, CNN
17 de dezembro de 2020 às 12:34 | Atualizado 17 de dezembro de 2020 às 12:38
Ella, que morreu em fevereiro de 2013, é considerada a primeira pessoa no mundo a ter a poluição do ar listada como causa de morte.
Foto: Cortesia/PA/SIPA

Uma menina de 9 anos que morreu após uma crise de asma é considerada a primeira pessoa no mundo a ter a poluição do ar apontada como causa de morte em uma decisão judicial histórica.

Ella Kissi-Debrah morava em Lewisham, sudeste de Londres, perto de uma das estradas mais movimentadas da capital do Reino Unido, a South Circular (Circular Sul). Ela morreu no hospital em fevereiro de 2013, após sofrer uma parada cardíaca da qual não pôde ser ressuscitada, informou o legista na quarta-feira (16).

A menina sofria de asma grave, que causou episódios de parada cardíaca e respiratória e frequentes internações de emergência em hospitais durante três anos.

A causa médica de morte foi registrada como insuficiência respiratória aguda, asma grave e exposição à poluição do ar. A conclusão do legista foi que Ella “morreu de asma causada pela exposição à poluição excessiva do ar”.

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As instituições de caridade Asthma UK e a British Lung Foundation disseram que Ella foi a primeira pessoa na história mundial a ter a poluição do ar declarada como causa de morte em seu atestado de óbito.

O legista assistente Philip Barlow disse que a mãe de Ella não tinha recebido informações sobre a poluição do ar e asma que poderiam tê-la levado a tomar medidas que “poderiam” ter evitado a morte de sua filha, de acordo com a agência de notícias PA Media.

“A poluição do ar foi um fator contribuinte significativo tanto para a indução quanto para a piora de sua asma”, disse Barlow ao apresentar suas conclusões no Southwark Coroner’s Court após um inquérito de duas semanas.

“Durante o curso de sua doença entre 2010 e 2013, ela foi exposta a níveis de dióxido de nitrogênio e partículas em excesso que excediam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

“A principal fonte de sua exposição foram as emissões vindos do trânsito”, continuou o médico.

O doutor Barlow disse que houve uma falha neste período em reduzir o nível de dióxido de nitrogênio dentro dos limites estabelecidos pela UE e pela legislação nacional.

“Agora temos a justiça que ela tanto merecia”, declarou a mãe de Ella, Rosamund Kissi-Debrah, após a decisão. E acrescentou: “Também é importante para outras crianças, já que circulamos em nossa cidade com altos níveis de poluição do ar”.

“O legado dela seria trazer uma nova Lei do Ar Limpo e para os governos – não estou falando apenas sobre o governo do Reino Unido – de todo o mundo levarem este assunto a sério", disse Kissi-Debrah.

“Eu ainda acho que há uma falta de compreensão sobre os danos que [a poluição] causa aos pulmões jovens, especialmente aqueles que não estão totalmente formados."

A mãe de Ella, Rosamund Kissi-Debrah, disse que sua filha recebeu a justiça que merecia
Foto: PA/SIPA

Kissi-Debrah disse que preferia ver uma campanha de conscientização pública sobre os danos que a poluição do ar pode causar “em vez de um jogo de acusações”.

Uma decisão anterior do inquérito, revelada em 2014, que concluía que Ella havia morrido de insuficiência respiratória aguda, foi anulada pelo Tribunal Superior após novas evidências sobre os níveis perigosos de poluição do ar perto de sua casa.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse que foi um “momento marcante” e elogiou a mãe de Ella por sua coragem “extraordinária” e anos de campanha.

“A poluição tóxica do ar é uma crise de saúde pública, especialmente para nossas crianças”, ele escreveu em um comunicado. “Hoje deve ser um ponto de virada para que outras famílias não tenham que sofrer a mesma dor que a família de Ella”.

Um relatório de 2018 elaborado por Stephen Holgate, professor da Universidade de Southampton, descobriu que os níveis de poluição do ar na estação de monitoramento de Catford, a menos de dois quilômetros de onde Ella vivia, “consistentemente” ultrapassaram os limites legais da UE durante os três anos antes de sua morte, de acordo com a PA.

“Se queremos que uma geração saudável venha ao mundo, teremos que limpar nosso meio ambiente”, afirmou Holgate em uma entrevista coletiva após o inquérito.

Ele disse que os profissionais de saúde e médicos devem começar a “assumir a responsabilidade por alguns desses problemas”, como fizeram com o fumo.

“Nossos corações estão com a família de Ella, que lutou incansavelmente pelo resultado histórico de hoje”, disse Sarah Woolnough, presidente-executiva da Asthma UK e da British Lung Foundation.

“O legado de Ella colocou firmemente os holofotes sobre os perigos invisíveis de respirar ar sujo”, especialmente para aqueles com asma ou doenças pulmonares, disse ela, criticando “as leis e políticas inadequadas de qualidade do ar”.

“Esse veredito abre o precedente para uma mudança sísmica no ritmo e na extensão em que o governo, as autoridades locais e os médicos devem agora trabalhar, juntos, para enfrentar a crise de saúde da poluição do ar no país", acrescentou.

Um porta-voz do governo do Reino Unido disse: “Nossos pensamentos permanecem com a família e amigos de Ella”.

O porta-voz disse que o governo estava finalizando um plano de £ 3,8 bilhões (R$ 26 bilhões) para limpar o transporte, combater a poluição por NO2 (dióxido de nitrogênio) e ir mais longe na proteção das comunidades contra a poluição do ar, além de estabelecer “novas metas ambiciosas de qualidade do ar”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).