Invasão ao Capitólio deixa sequelas na democracia dos EUA e na história de Trump


Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
07 de janeiro de 2021 às 06:18
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Foto: REUTERS

As cenas registradas nesta quarta-feira (6) nos Estados Unidos, com a invasão de manifestantes à sede do Congresso americano, são históricas e seguirão repercutindo no país nos próximos dias e semanas, segundo especialistas ouvidos pela CNN.

Interrompida, a sessão acabou retomada horas depois, com a certificação da vitória do presidente eleito Joe Biden e da sua vice, Kamala Harris, que tomam posse no próximo dia 20. Em situação de ânimos tão exaltados, os últimos 13 dias de Donald Trump podem ser uma eternidade.

"Trump já mostrou que todas as vezes em que ele foi colocado contra a parede ele é capaz de aumentar mais a temperatura. As decisões que ele pode tomar nos próximos dias podem levar a situações inimagináveis", afirma o analista político Thiago de Aragão, da consultoria Arko Advice.

Assista e leia também:

Democracia dos EUA sofre um ataque inédito, diz Biden após invasão ao Congresso

Trump critica Pence: 'Não teve a coragem de fazer o que deveria ter feito'

Morre mulher baleada durante invasão de manifestantes pró-Trump ao Capitólio

Caso a situação se agrave ainda mais, já há quem fale em acionar a 25ª Emenda da Constituição americana, que prevê a remoção do presidente em caso de situações extremas.

Para que isso seja feito, o vice-presidente deve considerar que há gravidade na continuidade do titular e convocar o gabinete de ministros ou o Congresso. Caso a maioria concorde, o presidente pode ser afastado.

"Vice-presidente, dê o próximo passo. Faça a sua tarefa constitucional. Projeta os Estados Unidos, se coloque em defesa da nossa democracia e invoque a 25ª emenda", afirmou em pronunciamento Karl Racine, procurador-geral do distrito de Columbia.

Governo Biden

A professora Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), explica que dificilmente as contestações sobre as eleições de 2020 terminarão com a posse de Joe Biden e Kamala Harris.

"Mais de um terço dos eleitores de Trump consideram que Biden é um presidente ilegítimo. Um presidente que toma posse, que juridicamente é legítimo, mas que vai ter que conviver com uma parte da sociedade que o vê com muita desconfiança", argumenta.

Para Magnotta, "quando um presidente, no cargo, descredibiliza o sistema, esse descrédito permanece mesmo depois do mandato desse presidente".

A professora completa que Donald Trump já deixou claro, mesmo sem admitir que perdeu, que não será um ex-presidente distante da vida pública americana. Aos 74 anos, Trump não descarta concorrer novamente em 2024 ou até lançar a candidatura de um dos seus filhos nas próximas eleições.

Para Thiago de Aragão, essa influência do atual presidente será bastante enfraquecida depois que este deixar a Presidência. O analista afirma, no entanto, que o que mais decisivo para a legitimidade do presidente eleito Joe Biden será os resultados práticos que seu governo obtiver.

"A chave do sucesso de Biden será a retomada econômica. Se ele conseguir promover a recuperação que é necessária, a tendência é que essas contestações fiquem em segundo plano", disse o especialista à CNN.

Apoiadores de Trump invadem o Capitólio
Apoiadores de Trump invadem o Capitólio
Foto: REUTERS

Futuro de Trump

O presidente Donald Trump pretende se manter influente na política americana, mas a invasão ao Capitólio tende a ser marcante na trajetória do republicano. 

"O episódio de hoje fortalece Trump diante de uma base inflamada, mas enfraquece ele em relação ao Partido Republicano", explica Thiago de Aragão, da Arko Advice.

"Trump esticou a corda até a cena de hoje, que vai manchar a história democrática dos Estados Unidos. O que vemos agora é que os republicanos têm um limite e que ele passou desse limite", diz Magnotta.

A entrada dos manifestantes dentro da sede do Congresso provocou reações de políticos proeminentes do partido, como o vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado Mike Pompeo e o líder no Senado, Mitch McConnell.

"Ninguém nunca cogitou que uma coisa como essa poderia acontecer nos Estados Unidos", diz Aragão. "O episódio de hoje acaba unificando um pouco o Partido Republicano em relação ao bom senso", completa.

2024

Entre os nomes que agora dão passos para se distanciar de Trump estão possíveis nomes republicanos para as próximas eleições presidenciais, em 2024. O próprio Mike Pence é um potencial concorrente, assim como Pompeo, que também já manifestou pretensões presidenciais.

Nesse cenário, os políticos buscam achar um flanco em que possam se apresentar, se alinhando às bandeiras conservadoras de Trump, mas tentando se distanciar do que passa a ser visto como algo mais radical ou extremada.

"A sucessão sempre faz parte das equações de um político. Há situações em que o bom senso vem a calhar e há outras situações em que não compensa, mas que mesmo assim isso deve ser feito", afirma Thiago de Aragão.