Arqueólogos encontram 2 mil peças de plástico em sítio da Idade do Ferro


Ashley Strickland, CNN
14 de janeiro de 2021 às 15:44
Fragmentos de diferentes embalagens plásticas foram encontrados no local
Fragmentos de diferentes embalagens plásticas foram encontrados no local
Foto: A. Fairley

O plástico será o provável cartão de visita de nosso tempo na Terra quando áreas dos dias atuais forem escavadas por futuros pesquisadores. E o plástico também está deixando sua marca em locais históricos, de acordo com um novo estudo.

O Castell Henllys é o sítio arqueológico de uma aldeia da Idade do Ferro dentro Parque Nacional Pembrokeshire Coast, no País de Gales. Há 2.000 anos, o local era o lar de uma família rica e incluía uma comunidade de até 100 pessoas que trabalharam juntas para produzir alimentos e materiais.

Construído como um forte numa colina, o sítio ganhou um projeto de educação décadas atrás. Quatro casas redondas foram reconstruídas no local usando estruturas circulares com telhados cônicos feitos de madeira e palha.

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Arqueólogos e pesquisadores montaram essas estruturas com os mesmos materiais que os moradores teriam usado durante a Idade do Ferro. Até os locais foram precisos: com base em extensas escavações no local, as casas redondas foram erguidas usando as trincheiras de fundação e orifícios de postes das estruturas originais.

“Este é o único sítio no Reino Unido onde isso foi feito e está aberto ao público e visitas escolares há mais de 35 anos”, contou Harold Mytum, pesquisador principal e professor de arqueologia da Universidade de Liverpool. “Isso significa que as casas reconstruídas existem há um bom tempo, o que mostra a eficácia dos projetos pré-históricos”.

Duas das casas, a Cook House e a Earthwatch House, foram substituídas em 2018 e 2019.

Embalagem térmica e óculos estão entre objetos encontrados no sítio histórico
Embalagem térmica e óculos estão entre objetos encontrados no sítio histórico
Foto: A. Fairley

Visitados por inúmeros turistas e cerca de 6.000 alunos por ano, os locais proporcionaram uma oportunidade única para os pesquisadores.

O que começou como um experimento para entender como os materiais de construção se decompõem e degradam com o tempo se transformou em outra coisa quando foi descoberta a grande quantidade de plástico no local: 2.000 itens de plástico para dar um número exato.

O estudo foi publicado esta semana na revista “Antiquity”.

Embora o local histórico seja bem conservado e limpo, pequenos resquícios de plástico da atividade dos visitantes (crianças que costumam almoçar em uma das estruturas) conseguiram se esconder sob bancos em cantos escuros das casas redondas.

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O local fica em um ambiente muito rural entre o interior ondulante do oeste do País de Gales, então “a quantidade de lixo plástico foi uma surpresa”, disse Mytum.

Segundo os estudiosos, embora o plástico seja uma das principais fontes de poluição marinha, este estudo mostra seu impacto no ambiente terrestre também.

Entre os fragmentos de plástico estavam utensílios, tampas de garrafa, canudos, embalagens de canudos, sacolas plásticas, embalagens de alimentos, de balas e até adesivos da Apple.

Eles até encontraram “uma embalagem térmica quase completa com o tema Godzilla”.

“Se (as crianças) tivessem recebido (lanches) sem toda a embalagem de plástico, isso teria feito uma enorme diferença”, opinou Mytum. “Nossa conveniência pode causar danos ambientais”.

Outros itens estão relacionados às trabalho teatral das equipes que atuam no local.

Castell Henllys abriga uma vila da Idade do Ferro, de 2 mil anos atrás
Castell Henllys abriga uma vila da Idade do Ferro no Parque Nacional Welsh Pembrokeshire Coast. Já foi o lar de uma família rica, que incluía uma comunidade de até 100 pessoas. O grupo trabalhava para produzir alimentos e materiais há 2 mil anos
Foto: Harold Mytum

Guias fazem apresentações vestidos como a tribo Demetae, que habitou esta parte do País de Gales antes, durante e depois da invasão romana. A representação de papéis e as atividades fazem parte da experiência, incluindo cozinhar, tecer e pintar o rosto com desenhos celtas.

Daí, o lixo: vários recipientes de plástico para pintura facial também foram descobertos na pesquisa. Além, é claro, de itens provavelmente perdidos por crianças no local: um par de óculos e peças de roupa.

“Pensamos que encontraríamos itens perdidos durante o uso das casas, mas as quantidades eram perturbadoras em suas implicações ambientais”, relatou o especialista. "Descobrir isso aqui dá ao site uma nova importância: mostra como nossos descartes de plástico afetam todos os lugares”.

Suas descobertas são indicativas do que os pesquisadores acreditam que será a marca registrada do Antropoceno, a era geológica atual, e que nosso dente virá a ser conhecido como a “Era do Plástico”.

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“O plástico cria uma assinatura arqueológica do nosso tempo (o Antropoceno), mas que é prejudicial ao meio ambiente. “Esse plástico vai entrar no ciclo ecológico e ter implicações mais amplas. Se todo esse material fosse reciclado, não seria representado arqueologicamente, mas ajudaria a salvar o planeta ecologicamente”.

Mytum está trabalhando com a equipe do local histórico para aumentar a consciência ambiental de futuros visitantes e usará as evidências que coletaram durante as escavações para criar uma campanha educacional.

“Isso mostra que a reconstrução cuidadosamente planejada em áreas escavadas pode fornecer uma interpretação pública muito eficaz e gerar instalações de educação, além de testar teorias sobre a construção de edifícios”, relatou. “Mas também mostra que mesmo quando parece que o local está bem conservado e o lixo coletado, muito ainda pode ser depositado. O gerenciamento do que é vendido nas lojas e permitido no local pode ajudar a reduzir a entrada de plástico no ambiente terrestre”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).