Com a vacina, asilos britânicos permitem que idosos deem as mãos em visitas

Imunização de cerca de 23 milhões de pessoas tem resultado em mudanças: casas de repouso voltaram a permitir visitas, mas beijos e abraços continuam proibidos

Phil Black e Mick Krever, da CNN
12 de março de 2021 às 13:25 | Atualizado 12 de março de 2021 às 13:38
David pode visitar a mulher, Sheila, pela primeira vez desde outubro
Após serem vacinados, David pode visitar a mulher, Sheila, pela primeira vez desde outubro
Foto: Mick Krever/CNN

Em uma pequena casa de repouso à beira-mar no sul da Inglaterra, David Alexander, de 89 anos, entra no quarto da esposa pela primeira vez desde outubro. “Olá, minha querida”, diz ele. “Você sabe quem eu sou? Eu sou David”. 

Antes mesmo de colocar as malas no chão, David se senta na cama de Sheila, ao lado de sua poltrona, e segura a mão dela pela segunda vez desde que a pandemia chegou ao Reino Unido.

A resposta de Sheila, sua esposa há 55 anos, é imprevisível. Ela tem demência avançada e raramente fala. “Faz muito tempo que não vejo você”, ele diz a ela. “Isso é por causa dessa coisa do Covid”. 

Durante a pandemia, Sheila foi isolada de todos que a amavam porque as casas de saúde e cuidados do Reino Unido permaneceram praticamente fechadas para visitantes. Agora, a aplicação da vacina possibilitou uma mudança gradual, mas significativa. Cada residente na Inglaterra tem direito a um visitante designado.

A CNN recebeu permissão para acompanhar alguns dos primeiros momentos em que as pessoas em cuidados se reuniram com os entes queridos depois de longos períodos de isolamento. 

David dá narcisos do jardim para Sheila. Ele inspeciona as unhas da mulher para ver se elas precisam ser aparadas. E diz a ela que os três filhos a amam e sentem falta dela. Frequentemente, ele apenas olha para ela em silêncio enquanto acaricia seu antebraço com a mão enluvada. 

Eles se conheceram quando ambos eram professores em escolas vizinhas, Sheila agora está com 81 anos. “Ela sempre foi muito sociável”, lembra David. “Extrovertida, feliz e realizada com o lar e sua família.” 

Davi está satisfeito por não haver um declínio óbvio na condição de Sheila, mas diz que não pode saber o que ela estava pensando e sentindo durante o longo tempo em que estiveram separados. 

Os visitantes devem apresentar um resultado negativo do teste para Covid-19 antes de entrar na casa e usar equipamento de proteção individual (EPI) durante a visita. Abraços e beijos são proibidos. 

David diz que apenas dar as mãos já é uma grande melhoria para a qualidade de vida da esposa. “Uma das poucas maneiras que ela pode mostrar seus sentimentos, realmente”, diz ele. “Eu acho que você tem que ser grato pelo que tem.” 

Sara Agliata visita sua avó, Renée Dolan, na casa de cuidados em Bexhill, na Inglaterra
Foto: Mick Krever/CNN

Na cidade de Bexhill, em uma das muitas casas de repouso ao longo da costa sul da Inglaterra, Renée Dolan, de 86 anos, espera ansiosamente pela neta. De repente, Sara Agliata vira a esquina e dois grandes sorrisos iluminam a sala. 

“Nan! Ahhh”, chora Sara. “Oh, obrigada querida”, diz Renée recebendo um buquê de flores. “Você teve que vir com todo esse plástico.” “Eu sei, eu sei”, Sara ri. “Assim você pode me ouvir chegando”, despondeu a neta.

Renée agarra a mão da neta com força. Com a outra, ela dá um beijo na bochecha. “Oh, você não tem permissão para me beijar”, diz Sara suavemente. 

Durante a meia hora seguinte, elas ficam com as mãos unidas, e uma conversa animada flui, com assuntos sobre os bisnetos e a entrevista recente de Harry e Meghan

Às vezes, Renée fica tomada pela emoção e se esforça para explicar o quão importante é esse momento. “É tão bom ver você. Já faz muito tempo”, diz ela, soluçando. A neta garante: “Vou voltar na semana que vem também”.

O marido de Renée morreu aos 47 anos. Ela passou décadas morando sozinha no centro de Londres e agora sofre de demência precoce. 

Janet e George Hayes em um parque em Eastbourne, na Inglaterra
Foto: Mick Krever/CNN

“Ela é uma pessoa extremamente independente que ama a família e gosta de estar por perto”, diz Sara. “Ela gosta de estar perto de pessoas.” 

Renée é grata pelo conforto de dar as mãos. “Isso significa tudo para mim, tudo”, afirma. Mas ela espera por mais. “É uma pena que não possamos abraçar”, lamenta. “Mas não vai demorar, vai?” 

Do lado de fora da casa de repouso Manor Hall, em Eastbourne, um grupo de residentes entra lentamente, mas com entusiasmo, em um micro-ônibus. É a primeira vez que eles têm permissão para sair do edifício e do pequeno pátio desde o verão passado. 

A excursão começa com um passeio pelas colinas verdes e onduladas do Parque Nacional South Downs. 

“Esperamos muito tempo por isso, não esperamos? Está lindo”, diz George Baulch, de 87 anos, sorrindo pela janela. 

O ônibus logo para em um jardim público à beira-mar. Os residentes vão para os bancos. Os cuidadores distribuem cobertores, xícaras de chá e lanches. 

'Estivemos presos por semanas e semanas e semanas', diz George Baulch, de 87 anos
Foto: Mick Krever/CNN

Há sorrisos e muitas reclamações sobre o frio do início da primavera. Alguém faz uma piada picante sobre o tamanho de uma banana. Essa é a maior liberdade que eles experimentaram em muito tempo. 

“Você chega aqui e percebe o quão grande é a Inglaterra”, diz George com uma risada. 

Os idosos tiveram que sacrificar mais a liberdade do que a maioria da população durante a pandemia. Mais da metade das mortes por Covid-19 na Inglaterra e no País de Gales no ano passado foram de pessoas com mais de 80 anos. Elas foram priorizadas na campanha de vacinação a partir de dezembro e as primeiras doses já foram aplicadas em 99,9% dos lares de idosos da Inglaterra, de acordo com o Serviço Nacional de Saúde do país. 

Cerca de 23 milhões de pessoas em todo o Reino Unido já receberam a primeira dose de vacina. Essa proteção tem permitido mudanças modestas, a possibilidade de esperança e vislumbres de um futuro pós-Covid-19.

“Estivemos presos por semanas e semanas e semanas”, diz George. “Eu nunca prensei que isso fosse acontecer novamente para nós. E agora estamos aqui.”

Darren Bull e Matt Brealey, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)