Incêndios na Austrália liberaram tanta fumaça quanto uma erupção vulcânica

A fumaça provocada pelas queimadas de 2019 e 2020 foi carregada por 35 quilômetros, atingiu a estratosfera e impactou no resfriamento dos oceanos da região

Jessie Yeung, CNN
19 de março de 2021 às 09:44
Incêndio em East Gippsland, na Austrália
Incêndio em East Gippsland, na Austrália
Foto: Victoria State Government

Os incêndios florestais devastadores da Austrália lançaram tanta fumaça na atmosfera da Terra quanto uma poderosa erupção vulcânica, causando resfriamento dos oceanos da região com impactos potencialmente duradouros, de acordo com um novo estudo coordenado pelo Instituto de Pesquisa Biológica de Israel e do Instituto de Ciência Weizmann. 

Dezenas de pessoas morreram na temporada de 2019-2020 dos incêndios florestais da Austrália, que foi uma das piores já registradas. Mais de 10 milhões de hectares de terra foram queimados e estima-se que mais de um bilhão de animais morreram, com muitas espécies à beira da extinção. 

Usando dados de duas missões de satélite, os cientistas encontraram “níveis recordes de profundidade óptica do aerossol (AOD, na sigla em inglês) injetados na estratosfera que foram resultantes da fumaça dos incêndios florestais australianos”, informa o estudo.

Nos primeiros meses de 2020, a fumaça dos incêndios foi carregada por 35 quilômetros até a estratosfera, a segunda camada da atmosfera, muito acima da altura em que os aviões comerciais voam. 

Os aerossóis na camada mais baixa da atmosfera – a troposfera – têm uma vida útil muito mais curta, durando de minutos a semanas. Mas não há nuvens de chuva na estratosfera superior para lavar os poluentes – o que significa que os aerossóis podem durar meses ou até anos, diz o estudo publicado nesta quinta-feira (18) na revista Science. 

Isso normalmente é visto quando erupções vulcânicas explosivas enviam aerossóis para a estratosfera, o que pode causar mudanças meteorológicas na precipitação ou nas condições do solo. Mas, sem o incrível poder de explosão dos vulcões, é muito mais raro a fumaça de um incêndio atingir a estratosfera.

Após meses de grandes incêndios na Austrália, os níveis de aerossol no hemisfério sul aumentaram mais de 50% em comparação com as médias dos 17 anos anteriores, disseram os pesquisadores.

Os níveis “até eclipsaram os que foram medidos após a erupção do Monte Pinatubo, a segunda maior do século 20”. O Monte Pinatubo entrou em erupção nas Filipinas em 1991, ejetando enormes quantidades de cinzas, fumaça e dióxido de enxofre para a estratosfera.

Por mais de dois anos depois, os fortes ventos estratosféricos espalharam essas partículas de aerossol por todo o mundo, resfriando significativamente a superfície da Terra ao absorver a luz solar.

De acordo com a Nasa, a temperatura média global caiu 0,6 grau Celsius nos 15 meses após a erupção.

Os efeitos dos incêndios na Austrália já estão se tornando aparentes, menos de um ano após o fim da temporada de incêndios florestais. A grande quantidade de fumaça emitida significa que menos energia solar atingiu a superfície da Terra, resfriando as temperaturas em 1 watt por metro quadrado sobre mares sem nuvens, diz o estudo.

Ao absorver a luz solar, a fumaça também pode ter aquecido a estratosfera e alterado sua circulação.

Vários fatores podem explicar por que a fumaça subiu tão alto na estratosfera. Os incêndios foram intensos e em grande escala, espalhando-se por vários estados, e duraram meses a fio – criando maiores quantidades de fumaça do que incêndios individuais ou pontuais.

Eles também ocorreram em latitudes mais altas, onde a tropopausa – a fronteira entre a troposfera e a estratosfera – é mais rasa, tornando mais fácil para a fumaça passar para a camada superior.

A temporada de incêndios florestais começou em junho de 2019 e continuou até a primavera seguinte. A maioria dos incêndios no estado de New South Wales foi completamente extinta em março de 2020, com o último incêndio da temporada apagado em maio, na Austrália Ocidental.

De acordo com o parlamento australiano, os incêndios mataram 33 pessoas, incluindo nove bombeiros, e destruíram mais de 3 mil casas em todo o país. 

Coala caminha entre arbustos em chamas na Austrália
Foto: Reuters

A Austrália passa por uma temporada de incêndios a cada verão, mas a de 2019-2020 veio durante uma grande onda de calor e uma das piores secas do país em décadas, aumentando as chamas e tornando as condições de combate a incêndios particularmente difíceis. 

Os especialistas também dizem que a mudança climática piorou o escopo e o impacto dos desastres naturais – as condições climáticas estão ficando mais extremas e, durante anos, os incêndios têm começado no início da temporada e se espalham com maior intensidade.

(Esse texto é uma tradução. Para ler a versão original, em inglês, clique aqui)