Saúde de líder da oposição russa se deteriora na prisão, dizem advogados

Equipe jurídica relata que Alexey Navalny tem sofrido ‘tortura por privação do sono’ em suposta estratégia deliberada para prejudicar sua saúde

Anna Chernova, Zahra Ullah, Matthew Chance e Zamira Rahim, da CNN
26 de março de 2021 às 14:06
Alexey Navalny
Alexey Navalny dentro de sela durante audiência em Moscou
Foto: BABUSHKINSKY DISTRICT COURT/REUTERS

Advogados de Alexei Navalny, principal nome da oposição na Rússia, afirmam que o ativista está com a saúde debilitada na prisão. De acordo a equipe jurídica, ele sofre de dores lombares agudas que afetam sua capacidade de andar e sua condição está sendo agravada por uma suposta "tortura por privação de sono". 

Em uma publicação no Twitter, um dos advogados de Navalny, Vadim Kobzev, afirmou que o cliente não estava sendo tratado adequadamente e que uma "estratégia deliberada está em andamento para prejudicar sua saúde".

Navalny está preso na colônia penal nº 2 em Pokrov, numa região conhecida como Vladimir. 

De acordo com Kobzev, Navalny queixou-se de dores agudas nas costas durante quatro semanas e não recebeu qualquer assistência médica. Isso levou a uma complicação e resultou em problemas em uma das pernas.

"Tudo isso, naturalmente, levou a uma complicação e agora ele perdeu a sensibilidade na perna direita, ele tem dores agudas, a perna parou de funcionar e a tal ritmo ele vai precisar de muletas", disse Kobzev.

De acordo com a Agência de Notícias Russas TASS, o Serviço Penitenciário Federal Russo (FSIN) informou que ele e outros presos na região de Vladimir fizeram exames médicos na quarta-feira (26). Em comunicado, a FSIN garantiu que Navalny tem “condição geral boa e saúde estável". O relato do ativista, porém, é diferente.

Navalny fez dois pedidos a funcionários prisionais russos: um para que tivesse acesso a um médico de sua escolha e outro para que parassem de acordá-lo repetidamente à noite. "Exigimos que o acesso do médico a Alexei seja imediatamente garantido, que seu tratamento seja iniciado e que a tortura por privação de sono seja interrompida", disseram os advogados no comunicado. 

Em seus pedidos, Navalny disse que sua condição havia piorado e que "uma forte dor se espalhou para a perna direita, que perdeu a sensibilidade da panturrilha para baixo".

"Estou tendo dificuldade para andar. O desenvolvimento clássico de uma doença associada a um nervo comprimido na ausência de tratamento adequado pode ser observado", disse ele. Navalny pediu que o sistema prisional “dê a oportunidade de submeter-me ao tratamento que me foi recomendado pelo especialista AN Barinov".

Ainda na quinta-feira (25), em uma transmissão ao vivo do YouTube, Leonid Volkov, chefe de gabinete de Navalny, disse que a equipe jurídica planejava visitá-lo todos os dias devido a preocupações com sua saúde.

Navalny foi preso em janeiro ao retornar à Rússia depois de 5 meses na Alemanha para tratar de envenenado
Foto: REUTERS/Polina Ivanova (17/1/2021)

A esposa de Navalny, Yulia Navalnaya, também fez um apelo direto ao presidente russo, Vladimir Putin, na quinta-feira, exigindo a libertação imediata do marido.

No entanto, o Kremlin rejeitou o apelo. "Não responderemos a este apelo", disse o porta-voz Dmitry Peskov, em uma teleconferência com jornalistas na sexta-feira. “Agora, quando este cidadão é um condenado e prisioneiro de uma colônia, o destinatário de tais recursos é o Serviço Penitenciário Federal”, afirmou.

Crítico do governo e ativista anticorrupção, Navalny é considerado há muito tempo como um adversário espinho para Putin. Em agosto, ele quase morreu depois de ser envenenado com uma substância conhecida como Novichok. 

Uma investigação conjunta da CNN e do grupo Bellingcat revelou que o Serviço de Segurança Russo (FSB) pode estar envolvido no envenenamento de Navalny. A Rússia nega, mas funcionários e o próprio Navalny culparam abertamente o Kremlin.

Navalny voltou à Rússia em janeiro depois uma estadia de cinco meses na Alemanha, onde estava se recuperando.

Exames médicos

Kobzev contou que um neurologista da prisão examinou Navalny na sexta-feira passada, mas "o diagnóstico e os resultados ainda são desconhecidos".

Nenhuma indicação foi dada sobre o que causou as dores nas costas de Navalny, mas o advogado atribui o estado de saúde do ativista ao fato de as autoridades da prisão o acordarem várias vezes por noite alegando risco de fuga, apesar de uma câmera monitorar a cama do detento. 

"Nos últimos dias, Navalny recebeu 2 comprimidos de ibuprofeno por dia, o que, claro, é uma zombaria. Tudo isso é muito complicado pelo fato de que ele é realmente torturado pela privação de sono: 8 vezes por noite ele é acordado para 'monitoramento preventivo', embora a câmera de vídeo já esteja pendurada bem acima de sua cama ", tuitou Kobzev.

Kobzev disse que o líder da oposição não queria divulgar suas dificuldades médicas, mas depois que membros da equipe jurídica tiveram o acesso negado a ele na quarta-feira para uma visita pré-agendada, eles optaram por tornar a situação pública.

Pena de prisão

Navalny foi preso no início deste ano por violar os termos de liberdade condicional de um caso de 2014 no qual ele recebeu uma pena de três anos e meio.

Um tribunal de Moscou levou em consideração os 11 meses que Navalny já havia passado em prisão domiciliar como parte da decisão e substituiu o restante da prisão domiciliar por uma pena de prisão no mês passado.

Kobzev enfatizou na quarta-feira que é crucial para os advogados de Navalny encontrá-lo para verificar seu bem-estar.

“Acreditamos que, em primeiro lugar, devemos vê-lo e, em segundo lugar, ele precisa ser examinado por um especialista civil normal que fará o diagnóstico e prescreverá o tratamento que ele pode fazer”, disse ele, acrescentando que pelo menos um dos os advogados do ativista o veem todos os dias.

Maria Pevchikh, chefe da unidade de investigações do fundo anticorrupção de Navalny, usou o Twitter para expressar suas preocupações sobre a saúde dele.

"O Serviço Penitenciário disse que Navalny foi submetido a um exame médico na colônia e sua saúde foi considerada 'satisfatória'", tuitou a secretária de imprensa do ativista, Kira Yarmysh. "Em Omsk também disseram isso", acrescentou ela, referindo-se à época em que Navalny estava em coma após seu envenenamento em 2020.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)