Nigeriano que poderia atuar contra a Covid-19 enfrenta deportação no Reino Unido

O microbiologista Charles Oti deveria estar na linha de frente do Serviço Nacional de Saúde (NHS), mas o governo britânico recusou seus pedidos de permanência

Kieron Monks, CNN
31 de março de 2021 às 14:24
O microbiologista nigeriano Charles Oti
O microbiologista nigeriano Charles Oti, que poderia atuar na linha de frente no NHS, corre risco de ser deportado
Foto: Cortesia/Charles Oti

Poucos invejariam os trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) da Grã-Bretanha no ano passado.

Quando o país enfrentou dos piores cenários da Covid-19 do mundo, as equipes do NHS passaram a enfrentar turnos cansativos e os locais de trabalho se tornaram cheios de tristeza e trauma.

Mas Charles Oti trocaria de lugar com eles em um piscar de olhos. Microbiologista de formação, nigeriano de nascimento, Oti passou quatro anos trabalhando para o NHS aprimorando sua especialização em controle de infecções.

As habilidades que Oti possui são escassas e estão entre as maiores prioridades do governo do Reino Unido para recrutamento. Mas, em vez de assumir uma posição na linha de frente em resposta à pandemia, ele foi impedido de trabalhar e ameaçado de deportação.

“Acredito que tenho as habilidades para fazer a diferença”, diz Oti. “Isso tem sido muito frustrante porque estou sendo desperdiçado”.

O caso representa uma provação pessoal e um problema mais amplo. Numa época em que a Grã-Bretanha depende fortemente dos imigrantes para prover seus serviços essenciais, especialmente no NHS, muitos desses mesmos trabalhadores estão lutando pelo direito de permanecer no país.

Vivendo no limbo judicial

Em 2013, Oti recebeu autorização de residência de cinco anos quando chegou ao Reino Unido com seu parceiro, um cidadão europeu.

Depois de uma passagem pelo setor privado, ele conseguiu um emprego no NHS em Londres, em 2015, como coordenador de dispositivos médicos. Suas funções regulares incluíam controle de contaminação e garantia da segurança de equipamentos como máquinas de raio-X e respiradores.

Mulher de máscara no Reino Unido.
Associação Médica do Reino Unido deve enviar carta ao primeiro-ministro Boris Johnson pedindo a Licença Indefinida de Permanência no país
Foto: Maja Hitij/Getty Images

O melhor salário estava disponível na iniciativa privada, mas Oti diz que o serviço público lhe interessava mais. Ele achava que o trabalho fazia mais diferença na vida dos pacientes e gostava da camaradagem dentro da força de trabalho multinacional do NHS, que era “como uma família”. Lá, ele formou amizades que o ajudaram a se adaptar ao novo país.

Mas a autorização de residência de Oti foi revogada sem que ele soubesse e, após retornar de uma viagem à Nigéria em 2017, foi detido na fronteira e teve que deixar a Grã-Bretanha.

Desde então, o microbiologista vive em um limbo jurídico. Vários pedidos de permanência foram negados. Embora Oti tenha sido autorizado a continuar trabalhando até 2019, o Ministério do Interior informou ao NHS que seu estado era inseguro e ele foi suspenso sem remuneração.

“Eles falam para você parar de trabalhar e isso coloca a pessoa em uma posição muito difícil”, diz Oti. “Você não pode se dar ao luxo de fazer um novo pedido ou apelar se ele falhar. Alguém pode ficar na miséria por causa disso, muitos migrantes ficarão”.

Oti evitou esse destino com a ajuda de seus amigos e um novo parceiro – um cidadão britânico e funcionário do NHS –, que o apoiaram enquanto estava impossibilitado de trabalhar.

Crime de ódio e 'remoção forçada'

Em setembro de 2020, com o agravamento da pandemia, Oti recebeu uma oferta de emprego do NHS. “Eu deveria estar em um laboratório fazendo análises microbiológicas”, lembra. “Havia uma falta de pessoal e teria sido apenas trabalho contra a Covid-19”.

Embora Oti não tenha conseguido aceitar a oferta, ele a incluiu em sua apresentação mais recente ao Ministério do Interior.

A inscrição também abrangeu os próprios registros do Ministério do Interior de um crime de ódio brutal na cidade de Northampton, no centro da Inglaterra, no qual Oti sofreu trauma físico e psicológico, considerado caso de tortura.

Segundo o relatório, em 2014, ele foi sequestrado e espancado por três homens com um instrumento contundente.

Nem o ataque e o trauma resultante e nem seu trabalho foram reconhecidos na carta de rejeição que Oti recebeu, em janeiro de 2021, que mais uma vez ordenou que ele deixasse o país ou enfrentaria a ameaça de remoção forçada.

A decisão chocou seus advogados, que acreditam que o pedido pode não ter sido examinado minuciosamente.

Paciente infectado com o novo coronavírus é tratado em hospital em Surrey, no Re
Paciente infectado com o novo coronavírus é tratado em hospital em Surrey, no Reino Unido
Foto: Steve Parsons - 22.mai.2020/Pool via Reuters

“É difícil entender que o Ministério do Interior gostaria que um indivíduo com tão vasta experiência em controle de infecções fosse removido à força do Reino Unido durante uma pandemia”, destaca Maria Petrova-Collins, advogada do escritório Duncan Lewis, com sede em Londres.

“Esperamos que o Ministério do Interior revise este assunto com compaixão e considere apropriadamente as evidências apresentadas”. Petrova-Collins afirma que, se Oti estivesse fora do Reino Unido, ele teria direito a um visto de qualificação.

Um porta-voz do Ministério do Interior se recusou a comentar o caso, pontuando: “Não comentamos rotineiramente casos individuais”.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, acredita que o caso de Oti indica a necessidade de uma reforma urgente. “A situação do Sr. Oti mostra a realidade cruel e autodestrutiva da política ambiental hostil do governo”, disse um porta-voz. 

“Apesar de ser um trabalhador altamente qualificado do NHS que poderia contribuir enormemente durante esta pandemia, o Sr. Oti está sendo impedido de trabalhar e enfrenta a deportação deste país, que é sua casa”.

“O prefeito exorta o governo a examinar novamente o caso do Sr. Oti e a revisar o quebrado sistema de imigração da Grã-Bretanha, que está impedindo os profissionais de saúde de servirem à nossa nação durante este tempo de crise”.

Ponta do iceberg

O caso de Oti está longe de ser único, mostram as estatísticas. Estima-se que, de 1.28 milhão, 170 mil pessoas da força de trabalho do NHS são estrangeiras, muitas das quais não têm segurança.

A Associação Médica do Reino Unido (DAUK, na sigla em inglês) está fazendo campanha por "Licença Indefinida para Permanecer" para todos os trabalhadores do NHS e suas famílias, escrevendo uma carta aberta ao primeiro-ministro Boris Johnson, que observa sua própria dependência recente do serviço.

“O caso de Charles Oti representa precisamente a razão pela qual a DAUK fez campanha para que os trabalhadores e dependentes do NHS recebessem uma Licença Indefinida para Permanecer”, disse o vice-presidente Dolin Bhagawati à CNN.

“É inacreditável que Ministério do Interior não esteja fazendo sua parte no esforço nacional para combater uma pandemia que ainda afeta o país”.

Ativistas pelos direitos dos migrantes acreditam que as políticas de “ambiente hostil” do Ministério do Interior, lançadas em 2012, são as culpadas.

Essas políticas, destinadas a impedir a imigração ilegal, introduziram controles mais rigorosos e frequentes que aumentaram a dificuldade de acesso aos serviços e deixaram os migrantes mais vulneráveis.

No caso mais notório da “geração Windrush” (homenagem ao navio MV Empire Windrush que, em 1948, atracou no Reino Unido com 500 jamaicanos a bordo), as chegadas legais na Commonwealth foram cortadas de habitação, saúde e serviços bancários e, em alguns casos, deportadas.

O governo pediu desculpas, encomendou uma revisão independente e estabeleceu um mecanismo de compensação. “O Ministério do Interior tem uma longa história de tratar os migrantes com desdém e crueldade”, disse Minnie Rahman, do Conselho Conjunto para o Bem-Estar dos Imigrantes.

“A revisão do Windrush mostrou quão profundamente o Ministério do Interior precisa de uma reforma fundamental e significativa, mas o governo não agiu até agora”. O governo introduziu extensões gratuitas de vistos para cerca de três mil trabalhadores de saúde e cuidadores, que os sindicatos criticaram por excluir outros milhares.

Os advogados de Oti estão agora buscando uma revisão judicial do caso, que eles dizem ser sua última esperança. Um apelo de financiamento coletivo para seus honorários advocatícios arrecadou cerca de £2.700 (R$ 21mil).

Para Oti, a pandemia destacou a necessidade de as pessoas trabalharem além das fronteiras, já que nossos destinos estão invariavelmente conectados.

“Quando você entra em um hospital, o consultor que o vê pode ser um migrante, e a enfermeira que apoia o consultor pode ser um migrante”, finaliza. “Quando algo dá errado [como uma pandemia], isso pode afetar a todos”.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui.)