Brexit reacende protestos e conflitos na Irlanda do Norte

Tensões têm aumentado no país desde que o Reino Unido votou pela saída da União Europeia; líderes britânicos e irlandeses pedem calma

Emmet Lyons e Amy Cassidy, CNN*
08 de abril de 2021 às 14:26 | Atualizado 09 de abril de 2021 às 01:13

Partes da Irlanda do Norte tiveram a sexta noite consecutiva de violência nessa quarta-feira (7), quando unionistas e nacionalistas entraram em confronto uns com os outros e com a polícia. 

No oeste de Belfast, capital do país, manifestantes se enfrentaram ao longo do chamado “Muro da Paz", construído em 1969 para dividir as duas comunidades. A polícia precisou fechar um portão projetado para separar as áreas.

Em Lanark Way, perto do cruzamento com Shankill Road, um ônibus foi incendiado. Fotos e vídeos da cena mostraram jovens de ambos os lados do portão atirando projéteis, incluindo bombas de gasolina.

A agitação começou na semana passada em meio a tensões crescentes relacionadas ao Brexit e ao descontentamento unionista devido a uma decisão da polícia de não processar líderes do partido nacionalista irlandês Sinn Fein, que supostamente teriam violado as restrições da pandemia durante o funeral de uma antiga figura líder do IRA (sigla em inglês para Exército Republicano Irlandês). 

Um ônibus foi incendiado após jovens entraram em confronto com a polícia
Foto: Jason Cairnduff/Reuters

 

Em um comunicado, o primeiro-ministro irlandês Micheal Martin condenou a violência e os "ataques à polícia", acrescentando que "a única maneira de avançar é abordar as questões preocupantes por meios pacíficos e democráticos".

"Agora é a hora de os dois governos e líderes de todos os lados trabalharem juntos para acalmar as tensões e restaurar a calma", disse Martin.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse estar "profundamente preocupado com as cenas de violência" na Irlanda do Norte.

“A maneira de resolver as diferenças é por meio do diálogo, não da violência ou da criminalidade”, disse Johnson no Twitter.

Brexit

As tensões têm aumentado na Irlanda do Norte desde que o Reino Unido votou pela saída da União Europeia, o que gerou o risco de uma fronteira entre o norte governado pelos britânicos e o republicano da Irlanda no Sul, que permanece na UE. A falta de fronteira foi vista como um elemento-chave da paz pós-1998, que se seguiu a três décadas de violência sectária.

O Protocolo da Irlanda do Norte, criado após o Brexit, deslocou a fronteira entre o Reino Unido e a UE para o Mar da Irlanda. Com isso, os controles alfandegários e regulatórios de produtos comercializados entre os britânicos e norte-irlandeses ficaram sujeitos a controles da UE, um movimento que irritou os unionistas, que acusam Londres de abandoná-los.

À CNN, o líder do Partido Democrático Unionista, Sammy Wilson, pediu a Johnson para "rasgar o acordo que destrói o Reino Unido, que quebra todas as promessas que você (Johnson) fez ao povo da Irlanda do Norte."

No mês passado, o Loyalist Communities Council (LCC), um grupo de paramilitares, disse que estava retirando seu apoio ao Acordo da Sexta-feira Santa, que encerrou os conflitos entre as duas Irlandas

Embora o LCC tenha dito que a oposição seria pacífica, a carta dizia que os grupos não voltariam "até que nossos direitos sob o Acordo sejam restaurados e o protocolo (Brexit) emendado para garantir o acesso irrestrito a bens, serviços e cidadãos em todo o Reino Unido".

O presidente da LCC, David Campbell, afirmou recentemente que "é muito fácil as coisas saírem do controle, é por isso que é essencial que o diálogo aconteça".

Pelo Twitter, Mary Lou McDonald, legisladora irlandesa e líder do Sinn Fein, disse: "uma voz unida para o fim de toda violência e para o restabelecimento da calma é a única postura aceitável de todos os líderes políticos. Os ataques e a intimidação devem acabar."

*Nic Robertson e James Griffiths da CNN contribuíram para essa matéria

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)