Após ataque de trolls, feministas chinesas são silenciadas na internet

Acusadas de praticarem ações 'anti-China', elas têm sido atacadas virtualmente e perderam suas contas na principal rede social do país, o Weibo

Nectar Gan , CNN
19 de abril de 2021 às 14:18
feministas chinesas
Feministas chinesas têm sido perseguidas por grupos coordenados; elas são acusadas de adotaram posicionamentos 'anti-China' e tiveram suas contas na rede social Weibo deletadas
Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A enxurrada de mensagens de ódio que encheu a caixa de entrada de Liang Xiaowen parou tão subitamente quanto quando havia começado. Por uma semana, a feminista chinesa de 29 anos foi alvo de incessantes ataques chauvinistas e misóginos no Weibo, uma das redes sociais mais populares da China. Ela foi chamada de “traidora” e “vadia xenocêntrica”. Alguns usuários discutiram a melhor maneira de achar o endereço residencial dos pais dela.

Então, sem qualquer aviso, a conta de Liang foi removida pelo Weibo. “No início, custei a acreditar”, contou. “A calúnia contra mim continuava online, mas eu não podia nem me defender mais”. Liang, uma advogada que mora em Nova York, está entre mais de 20 feministas chinesas e grupos de direitos das mulheres cuja presença foi varrida da rede social nas últimas duas semanas.

O desaparecimento das contas seguiu um padrão semelhante. Primeiro vieram as acusações vindas de blogueiros nacionalistas de elas serem “separatistas” ou “traidoras”.  Depois, uma enxurrada de mensagens e comentários maldosos foi publicada, com trolls denunciando suas contas aos moderadores do Weibo por conteúdo supostamente “ilegal” ou “prejudicial”. Em questão de dias, as contas dessas mulheres foram fechadas – com todas as postagens e seguidores apagados.

“Fomos silenciadas coletivamente por uma repressão em toda a internet que veio como um tsunami. A esfera pública online, a qual tivemos uma imensa dificuldade para construir, foi implacavelmente sufocada”, disse Liang.

Liang se tornou feminista em uma universidade em Guangzhou, uma cidade do sul da China que já foi conhecida por sua sociedade civil ativa. Ela continuou a se envolver no movimento feminista online da China depois de se mudar para os EUA em 2016 para fazer um mestrado.

Nos últimos anos, um exército de influenciadores nacionalistas e seus seguidores se tornaram poderosos auxiliares dos censores empregados pelo governo. Eles policiam a internet na China, atacando aqueles que falam e intimidando-os para que se calem.

O movimento feminista da China – já sujeito a uma forte repressão sob o presidente Xi Jinping – é o mais recente alvo de uma cruzada online contra vozes consideradas “antipatrióticas”. Trolls vasculham anos de postagens em contas feministas de mídia social, em busca da mais leve sugestão de uma suposta opinião “anti-China”.

Às vezes, como no caso de Liang, até mesmo apoiar as vítimas de assédio é suficiente para gerar ataques pessoais.

Incapaz de encontrar falhas nas postagens do Weibo de Liang, trolls invadiram sua conta no Twitter, que está bloqueado na China continental. Os retuítes de Liang de postagens de dissidentes chineses no exterior e artigos sobre a repressão aos uigures em Xinjiang foram expostos como “prova” de sua traição à China. E uma foto de Liang compartilhando uma refeição com uma acadêmica feminista dos EUA foi usada para provar seu “conluio” com as forças norte-americanas anti-China.

Mas Liang se recusa a ser silenciada. Em um passo raro, ela entrou com uma ação civil esta semana contra o Weibo, exigindo ter sua conta de volta. “Quero mostrar a todos que ainda podemos fazer esforços para tentar preservar o espaço que criamos juntos. Eu não quero desistir”, declarou.

A rede social Weibo disse em uma declaração que as contas de Liang e outras foram removidas após reclamações de usuários sobre postagens contendo “informações ilegais e prejudiciais”. O site enfatizou que os usuários do Weibo não devem “incitar o antagonismo entre grupos ou promover a cultura de boicote” ou “organizar ou incitar outros usuários a atacar órgãos do Estado e do Partido e empresas e instituições públicas”.

Como o ataque começou?

Liang foi atacada por defender Xiao Meili, uma voz importante no movimento feminista da China e a primeira a enfrentar a tempestade nacionalista. Tudo começou quando Xiao falou sobre um assunto que não poderia ser de natureza mais apolítica: fumar em ambientes fechados.

Lang Xiamen China
Lang Xiawen foi perseguidas por trolls na internet; depois de ser acusada de ter posicionamentos 'anti-China", ela teve sua conta pessoal do Waibo deletada sem explicações
Foto: Lang Xiawen/Reprodução

Em 29 de março, Xiao saiu para jantar com amigos e se envolveu em uma discussão com um cliente da mesa ao lado que se recusava a parar de fumar, apesar de seus repetidos pedidos. 

A China proibiu o fumo em locais públicos fechados em 2011, mas não especificou penalidades. Em muitas cidades, a prática ainda é prevalente devido à fraca fiscalização e à falta de legislação local.

Como a discussão cada vez acirrada, o homem ficou mais agitado e jogou uma xícara com um líquido quente em Xiao e suas amigas. A polícia foi chamada, mas nenhuma acusação foi feita. Mais tarde naquela noite, Xiao postou um vídeo do jantar no Weibo, expressando sua frustração com a dificuldade de proibir o fumo em ambientes fechados em Chengdu, sua cidade natal, no sudoeste da China.

Para sua surpresa, a postagem gerou uma discussão tão intensa que se tornou um dos principais trending topics no Weibo no dia seguinte. Xiao recebeu apoio esmagador de comentaristas – e até mesmo o endosso de várias contas afiliadas ao governo.

No entanto, longe dos holofotes, uma pesada campanha de difamação estava se formando contra Xiao. Em 30 de março, uma conhecida conta nacionalista no Weibo postou uma foto de Xiao de 2014 e a acusou de apoiar a independência de Hong Kong.

Na foto, Xiao segurava uma placa com uma frase famosa da banda de rock Beyond, de Hong Kong: “Segurando firme para a liberdade no vento e na chuva!”

Originalmente uma homenagem a Nelson Mandela, a música era frequentemente cantada por manifestantes durante o Movimento Umbrella em 2014. Abaixo dela, Xiao escreveu outra linha: “Reze por Hong Kong”.

O que o Movimento Umbrella exigia era o sufrágio universal, não a independência de Hong Kong – que era uma ideia extremamente marginal que poucos levaram a sério na época. Mas, para os fervorosos nacionalistas da China, qualquer demonstração de apoio à busca de Hong Kong pela democracia é equiparada a um endosso à independência de Hong Kong.

Em pouco tempo, o relato de Xiao foi inundado com ataques violentos. “Apoiadora da independência de Hong Kong, toda a sua família merece morrer”, dizia uma mensagem. Outros a acusaram de ser uma “espiã da CIA”. Outro queria que ela fosse mergulhada em ácido sulfúrico.

Na manhã seguinte, sua conta no Weibo foi encerrada. “Eu fiquei confusa e apavorada”, lembrou Xiao. “As acusações políticas são muito graves e assustadoras”.

Os trolls a seguiram até o Taobao, um site chinês de compras online onde Xiao é dona de uma loja que vende roupas com designs feministas. Insultos continuaram chegando em sua caixa de entrada, e mais de 20 itens em sua loja foram banidos do site devido a relatórios incessantes de “clientes”.

“Estou apreensiva até hoje. Tenho chorado muito recentemente. Tenho mais medo de que o assédio online afete minha vida real. Minha empresa já foi atacada, e eu tive de fazer uma pausa para cuidar de mim, para digerir e lidar com tudo isso”.

“Sentença de morte política”

De volta ao Weibo, os agressores de Xiao celebraram o desaparecimento de sua conta. Em seguida, Zheng Churan, a amiga feminista de Xiao que estava no jantar, se tornou o alvo seguinte.

Os trolls acharam uma foto que Zheng postou dela mesma no Twitter em 2014 na qual segurava uma placa semelhante à de Xiao e usava uma fita amarela, um símbolo dos protestos pela democracia em Hong Kong.

Ela também foi atacada por apoiar a independência de Hong Kong e Taiwan e ser praticante do Falun Gong, um movimento religioso proibido e brutalmente reprimido pelo governo chinês. Zheng nega todas as três acusações.

“Minha primeira reação foi de raiva”, contou Zheng. “Então, um sentimento de pavor se instalou. Que tipo de educação e promoção do ódio esses jovens têm recebido que lhes permitiu se comportar assim online?”

As acusações de separatismo têm sido usadas há muito tempo pelo governo chinês para reprimir o ativismo e a dissidência no Tibete, em Xinjiang e, mais recentemente, em Hong Kong. Cada vez mais, ele tem sido implantado para atingir outros chineses que simpatizam com sua causa.

A rotulação política é uma arma poderosa e eficaz porque o acusado não pode contestar ou se envolver em debates significativos. Discussões honestas e livres sobre as questões de Hong Kong, Xinjiang e Taiwan não são toleradas nas redes sociais chinesas, e qualquer desvio das narrativas oficiais pode ser tachado de “anti-China”.

“É uma sentença de morte política, e os trolls misóginos e nacionalistas podem facilmente usá-la para nos atacar”, disse Lv Pin, uma ativista baseada em Nova York cuja conta no Weibo também foi removida na semana passada. “O governo não apenas a endossa: ele fez a arma e definiu as regras do jogo”.

As campanhas de ataque, portanto, quase invariavelmente terminam em vitória para os nacionalistas online. Para influenciadores “patrióticos”, a caça às bruxas, doxing (a prática virtual de pesquisar e transmitir dados privados sobre um indivíduo ou organização) e intimidação online de “traidores” também é um método testado e comprovado para gerar tráfego rapidamente e reunir seguidores.

O blogueiro Ziwuxiashi, um veterano do exército chinês que lançou uma série de campanhas difamatórias contra Xiao, Zheng e Liang, tem mais de 700 mil seguidores. Outro blogueiro nacionalista que desempenhou um papel central no ataque, Eagle of God, possui dois milhões de seguidores.

Muitas dessas contas proeminentes foram endossadas pelo governo. Ziwuxiashi, por exemplo, estava entre os três influenciadores digitais convidados em 2016 pela Liga da Juventude Comunista para compartilhar suas histórias de “promoção de energia positiva” na internet.

“Quero lembrar aos jovens usuários da internet que, quando olhamos para a rede, não podemos ver as coisas apenas pela superfície. Por tantos anos, por trás de cada incidente público que fomentou a opinião pública e se tornou um assunto quente online, quase sempre há o traço de forças anti-establishment”, disse no fórum.

Xiao Meli
Depois de reclamar de um homem que fumava em local fechado, a feminista Xiao Meli foi perseguida e atacada no Waibo – dias depois sua conta na rede social foi derrubada
Foto: Xiao Meli/Reprodução

Muitas vezes, os ataques pessoais desencadeados por esses blogueiros nacionalistas parecem ser dirigidos ou amplificados pelo estado. Outras vezes, parecem acontecer espontaneamente. Mas é cada vez mais difícil distinguir a diferença entre os dois.

Ryan Fedasiuk, pesquisador da Universidade de Georgetown, que estuda os esforços da China para controlar a opinião pública online, descobriu que, além de dois milhões de comentaristas pagos da internet, o Partido Comunista Chinês (PCC) também “atraiu uma rede de mais de 20 milhões de voluntários em tempo parcial para se envolver em trollagem na internet, muitos deles estudantes universitários e membros da Liga da Juventude Comunista”.

Pode ser tentador afirmar que todos os nacionalistas online chineses são trolls apoiados pelo PCC. Na realidade, porém, muitos usuários de internet chineses são genuinamente patrióticos e estão ansiosos para defender seu país.

“Muitos jovens chineses desejam participar da vida pública e fazer com que suas vozes sejam ouvidas. E o movimento patriótico é provavelmente o único caminho seguro para isso”, disse Liang. “Diante do patriotismo, muitas questões deixam de ser importantes”.

Ação legal

Conforme as contas feministas desapareciam uma após a outra, uma usuária que havia sido removida no passado pelo Weibo revelou como recuperou sua conta processando judicialmente a plataforma.

A conta da usuária foi retirada do ar em 2020 depois que ela publicou uma postagem viral ensinando as pessoas a registrar uma reclamação no governo contra o Weibo. Ela então postou o mesmo conteúdo em sua segunda conta, que também foi fechada. Irritada, ela processou o Weibo no Tribunal da Internet de Pequim, um sistema de justiça eletrônico de baixo custo que transmite casos ao vivo.

O Weibo acabou concordando em restabelecer as duas contas sob a mediação do tribunal. O precedente deu a Liang, a estudante de mestrado que hoje vive em Nova York, uma sensação de esperança. Nos dias após a remoção de sua conta, ela também pensou em processar o Weibo.

Para Liang, perder a conta que ela usava desde a universidade foi doloroso. Sempre que ela via discussões sobre feminismo nas redes sociais chinesas, seu primeiro impulso era compartilhar no Weibo.

“É como um membro fantasma, sempre sinto como se a parte amputada ainda estivesse lá. Só quando preciso urgentemente deixar minha voz ser ouvida pelo público é que percebo, em desespero, que a conta que usei por quase 11 anos realmente se foi”, contou.

Na semana passada, surgiram notícias de que mais de dez grupos feministas foram removidos do Douban, outra plataforma social popular no país. A crescente repressão estimulou Liang a entrar em ação.

Na semana passada, o advogado dela nos EUA entrou com um caso no Tribunal de Internet de Pequim, acusando o Weibo de violar o Código Civil recém-promulgado na China, prejudicando sua reputação e violando seu contrato de serviço ao usuário. Liang não tem certeza de suas chances de vitória. Primeiro, o tribunal tem que aceitar o caso dela, e depois o processo judicial pode levar meses.

“Quero tentar, mesmo que haja uma chance mínima. Mesmo se eu não ganhar, o veredito do tribunal se tornará um registro escrito do ataque contra tantos relatos feministas em abril”. Xiao, a ativista feminista em Chengdu, também está preparando um processo contra o Weibo.

“Não acho que terei grandes chances de vencer. Ir à justiça é um processo muito exaustivo e pode não valer a pena no final”, disse Xiao. “Mas eu tenho que fazer isso, então pelo menos não ficarei arrependida por não ter tentado”.

(Texto traduzido. Para ler o original, em inglês, clique aqui)