Ex-presos de Guantánamo viram desculpa para repressão chinesa contra uigures

Mais de 20 uigures ficaram presos sem julgamento; eles são de grupo étnico predominantemente muçulmano de língua turca no extremo oeste da China

James Griffiths, CNN
16 de maio de 2021 às 20:58 | Atualizado 16 de maio de 2021 às 21:14
Guantánamo
Entrada da prisão de Guantánamo, controlada pelos EUA, em Cuba
Foto: John Moore/Getty Images

 

Os homens se agacharam dentro da caverna, com rostos manchados de poeira, de vez em quando tremendo involuntariamente com as explosões logo acima, que pareciam sacudir a montanha inteira.

Do lado de fora, a visão parecia do inferno.

Imensas nuvens de fumaça e detritos subiam no ar enquanto os bombardeiros B-52 e os caças norte-americanos lançaram uma barragem de mísseis que parecia não ter fim. O barulho do bombardeio poderia ser ouvido a quilômetros de distância, um som estrondoso profundo e oco conforme cada bomba caía.

Era dezembro de 2001, e o alvo dos ataques era Osama bin Laden, orquestrador dos ataques a Nova York e Washington três meses antes. Acreditava-se que ele estava se escondendo, junto com um núcleo de combatentes da Al Qaeda, em Tora Bora, um complexo de cavernas ao sul da cidade de Jalalabad, nas montanhas entre o Afeganistão e o Paquistão.

Se Bin Laden estava mesmo lá, é algo que até hoje não se sabe ao certo. Mas, se sim, ele conseguiu escapar, junto com vários outros líderes importantes da Al Qaeda, evitando o bombardeio aéreo e as tropas norte-americanas e afegãs no solo. O líder da Al Qaeda se esquivaria das forças dos EUA por mais uma década, antes de ser rastreado até um subúrbio da cidade paquistanesa de Abbottabad, onde foi morto em 2011.

Depois de dois meses se mudando de caverna em caverna – constantemente ficando sem comida, seus nervos em frangalhos pelos constantes bombardeios e o medo de topar com as tropas da Aliança do Norte que vasculhavam a área em busca de qualquer suspeito de combate do Talibã – os homens na caverna também chegaram ao Paquistão.

Eles eram uigures, um grupo étnico predominantemente muçulmano de língua turca que vive em Xinjiang, uma região no extremo oeste da China, também conhecida por alguns como “Turquestão Oriental”. Embora hoje o grupo seja bem conhecido, devido à repressão da China em Xinjiang e a consequente crítica internacional (políticos nos Estados Unidos, Canadá e Holanda descreveram a atitude chinesa como um “genocídio”), poucos norte-americanos tinham ouvido falar, ou mesmo sabiam pronunciar a palavra uigur, no início dos anos 2000.

Isso começou a mudar quando foi revelado que mais de 20 uigures estavam detidos sem julgamento em um centro de detenção na Baía de Guantánamo, acusados de serem “combatentes inimigos” na guerra contra o terrorismo promovida pelo governo dos EUA. Na mesma época, os EUA também causaram polêmica ao colocar uma suposta organização militante uigur, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM) à lista de grupos terroristas do Departamento de Estado.

Depois de anos de batalhas judiciais e campanhas por parte de suas famílias e grupos de direitos humanos, os 22 uigures mantidos em Guantánamo foram todos declarados “não combatentes” e gradualmente libertados. Os últimos três homens finalmente deixando o campo de detenção em 2013.

Nenhum deles foi autorizado a se estabelecer nos Estados Unidos, nem poderia retornar em segurança para Xinjiang. Em vez disso, eles acabaram em uma espécie de limbo legal nos países que concordaram em aceitá-los, principalmente pequenas nações europeias e centro-americanas com boas relações com o governo dos EUA.

A partir daí, os ex-detentos viram como a situação em sua terra natal, da qual muitos deles fugiram intencionalmente há décadas, só piorou. Muitos perderam o contato com suas famílias, e acredita-se que alguns deles tenham acabado no extenso sistema de campos de detenção estabelecido em Xinjiang, que Pequim afirma ser vital para a “desradicalização” e “treinamento vocacional”.

Os uigures de Guantánamo também viram os órgãos de propaganda da China atacando sua própria existência e ouviram afirmações feitas por Washington sobre o ETIM durante a “guerra ao terror”, como justificativa para a repressão em curso de Pequim.

Depois que os últimos detidos foram libertados no final de 2013, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China atacou o movimento, dizendo “eles são terroristas, sem dúvida”.
“Esses suspeitos são membros do ‘Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM)’, uma organização terrorista identifica pelo Conselho de Segurança da ONU”, disse o porta-voz Qin Gang. “Eles não só representam uma grave ameaça à segurança nacional da China, mas também à do país destinatário”.

Desde então, a propaganda da China em torno do ETIM só aumentou, com a mídia estatal denunciando o grupo como a “mão negra” por trás de quase todos os atos de violência em Xinjiang em “décadas”.

 

“Embora os Estados Unidos tenham declarado que éramos inocentes, que não tínhamos feito nada, a China continua a dizer que trabalhamos com o Talibã e a Al Qaeda”, afirmou Abu Bakeer Qassim, um ex-detido de Guantánamo que agora vive na Albânia. “Eles dizem que os uigures são terroristas com ligações à Al Qaeda, Talibã e Estado Islâmico. Esta campanha de propaganda foi realmente um sucesso”.

Nas últimas semanas, o presidente dos EUA, Joe Biden, renovou seu compromisso de encerrar a guerra mais longa dos Estados Unidos, prometendo retirar as tropas do Afeganistão a tempo para o vigésimo aniversário do 11 de setembro deste ano. Mas, para os uigures, a guerra contra o terrorismo continuará, graças à retórica do governo chinês para justificar uma nova rodada de repressão sob o líder chinês Xi Jinping.

Pego pela guerra

Enquanto fugia das bombas dos EUA pelas montanhas para o Paquistão, Ahmet Adil pensava em sua trajetória.

O homem diz que nunca teve a intenção de ir para o Afeganistão, mas como muitos dos outros uigures de Guantánamo, acabaram lá por falta de alternativas seguras, como contaram em entrevistas à CNN e durante depoimentos no tribunal no campo de detenção.

“A razão pela qual saí de casa primeiro foi porque nossa família estava passando por dificuldades econômicas”, disse Adil em uma entrevista, falando por meio de um intérprete. “Decidi ir para a Ásia Central e ganhar dinheiro para sustentar minha família”.

Uma das regiões mais pobres da China, Xinjiang era amplamente controlada pelo que é conhecido como Bingtuan, um corpo paramilitar estatal. Os uigures costumavam achar a vida lá sufocante, com poucas oportunidades e restrições crescentes às práticas religiosas e à cultura.

Inicialmente, Adil cruzou para o Cazaquistão, que faz fronteira com Xinjiang ao norte e há muito tempo é o lar de uma grande população uigur, cidadãos cazaques e migrantes econômicos. Adil ficou lá por cerca de um ano, fazendo alguns bicos e mandando dinheiro para casa. Mas, embora houvesse menos restrições do que na China, não era fácil, e Adil disse que “gradualmente tomou a decisão de tentar partir para a Europa por uma vida mais livre”.

Ele começou a procurar uma maneira de chegar à Turquia, lar da maior diáspora uigur do mundo. Mas, com os fundos escassos, a jornada de mais de 3.800 quilômetros de Almaty a Istambul seria difícil.

Do Cazaquistão, ele viajou para o Paquistão, permanecendo novamente por quase um ano enquanto procurava trabalho e maneiras de continuar seguindo para o oeste. Havia apenas um país entre ele e a Turquia, o Irã, mas Adil diz que não conseguiu um visto, nem tinha dinheiro para pegar um avião. Retornar a Xinjiang não era mais uma opção: ele tinha ouvido falar de pessoas que foram presas depois de terem estado no exterior por algum tempo, especialmente em países muçulmanos. A China via os uigures que deixaram o país com profundas suspeitas, especialmente se houvesse qualquer sugestão de que eles poderiam ter sido radicalizados.

Para Adil, a situação estava ficando insustentável: as autoridades no Paquistão estavam prendendo os uigures e os mandando de volta para a China.

Pouco depois, ele conheceu um homem que sugeriu que ele fosse para o Afeganistão, onde conhecia uma comunidade uigur que vivia perto de Jalalabad e que poderia fornecer-lhe abrigo e trabalho remunerado enquanto ele continuava a economizar para ir para o ocidente.

Muitos outros uigures que acabariam em Guantánamo contam histórias parecidas. Assim como Adil, Abu Bakeer Qassim disse que deixou a China para trabalhar na Ásia Central até que se tornasse muito perigoso, viajando primeiro para o Paquistão, de onde esperava ir para a Turquia.

“Tínhamos amigos paquistaneses. Eles disseram para ir ao Afeganistão porque há uma aldeia uigur lá. Ali a gente podia aprender um pouco mais sobre religião e depois ir para a Turquia”, disse Qassim, hoje na Albânia, em uma entrevista à CNN. “Fomos para Jalalabad e depois subimos uma estrada na montanha. Mais tarde descobri que era perto de Tora Bora”, continuou.

Outro detido, Mohammed Ayoub, disse que estava no Paquistão com a esperança de viajar para os Estados Unidos, mas estava “ciente de que o governo do Paquistão estava cada vez mais cercando uigures para entregá-los aos chineses naquele momento”.

Ayoub e outro homem cruzaram a fronteira para Jalalabad, onde estavam até o início da invasão dos Estados Unidos, quando fugiram para as montanhas próximas e acabaram se encontrando com “um grupo de cinco a seis uigures que também queriam escapar”.

 

Acampamento nas montanhas

Embora possa parecer, em retrospecto, o pior lugar possível para se estar, o Afeganistão no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000 representou uma espécie de refúgio para os exilados na Ásia Central e Oriental, com poucos outros lugares para ir.

O país era governado pelo Talibã, um movimento islâmico linha-dura que assumiu o controle em 1996 no auge de uma guerra civil de vários anos que se seguiu à retirada da União Soviética em 1989.

Reconhecido oficialmente apenas por três países (Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), o Talibã nunca controlou todo o país, e grande parte da área de fronteira com o Paquistão em particular permaneceu principalmente sem lei.

Foi aqui que lutadores mujahideen, financiados pelos EUA e uma série de países muçulmanos para lutar contra a União Soviética, reuniram-se na década de 1980 para treinar e lançar ataques contra o governo comunista afegão e seus invasores aliados soviéticos.

No final da década de 1990, um grupo que supostamente se aproveitou desse ambiente sem lei foi uma pequena comunidade de nacionalistas uigures, que montou um campo de treinamento nas montanhas ao sul de Jalalabad. Sua meta era iniciar uma insurgência dentro da China, “um objetivo que nunca chegaram perto de atingir”, de acordo com Sean Roberts, autor de" The War on the Uyghurs: China's Internal Campaign Against a Muslim Minority” (“A guerra aos uiugures: a campanha interna da China contra uma minoria muçulmana”, sem versão no Brasil).

O acordo seria mais tarde comparado por autoridades dos EUA e da China àqueles feitos pela Al Qaeda, com arquivos mantidos sobre os detidos em Guantánamo descrevendo-o como “um campo de treinamento nas montanhas de Tora Bora que havia sido dado aos uigures pelo Talibã”.

Roberts, que pesquisou extensivamente o assunto e entrevistou muitos dos homens que passaram pelo campo, disse que isso é um grande exagero.

Embora um punhado de uigures fosse militante e pudesse ter sonhado com alguma revolução futura na China, a maioria era como Adil: migrantes econômicos liberados por falta de vistos ou caminhos seguros para viajar, na esperança de encontrar uma maneira de ir para o ocidente.

“Na década de 1990, houve muita pressão do governo chinês sobre os uigures, com foco na preocupação com o ‘separatismo’”, disse Roberts em uma entrevista. “Muitas pessoas queriam encontrar maneiras de viver fora da China e, inicialmente, havia uma rota bastante estável para a Ásia Central, bem como uma ligeiramente menos estável para o Paquistão”.

No passado, os uigures que perseguiam essas rotas muitas vezes podiam ficar indefinidamente, mandando dinheiro para casa e vivendo em grande parte sob o radar, mas isso começou a mudar quando a China pressionou seus vizinhos para expulsá-los no final dos anos 1990, preocupados com o potencial separatista movimentos crescendo próximo às suas fronteiras, de acordo com Roberts.
A pequena comunidade que se desenvolveu nas montanhas do Afeganistão “não era realmente uma organização como uma visão que não havia sido realizada”.

Adil disse que, quando chegou, encontrou o que era essencialmente uma favela. Ele ajudou a arrumar o lugar, reformando casas, bombeando água e removendo pedras. Um dia, ele saiu com um fuzil AK-47, uma das armas do campo, de propriedade dos moradores mais militantes, que falavam da necessidade de aprender a atirar em caso de uma revolução futura na terra natal dos uigures.
Embora isso mais tarde fosse usado pelos interrogadores de Guantánamo como evidência para afirmar que Adil fazia parte de um grupo terrorista, vários detidos disseram que não havia uma organização real digna de menção, apenas alguns homens entediados com uma arma e sonhos selvagens que tinham poucas chances de realizar.

Qassim disse que também foi treinado com um AK-47, mas isso foi pelo menos em parte para segurança do local, devido aos combates em curso entre o Talibã e a Aliança do Norte.
“O Afeganistão estava em guerra e todos os dias tínhamos que ficar de guarda. Não dá para ficar de guarda sem uma arma”, relatou.

Em entrevistas e em registros de interrogatórios em Guantánamo, todos os presos uigures disseram que havia pouca ou nenhuma conexão entre o campo e o Talibã ou outros afegãos – os moradores que conheceram e com quem eles lutaram muito para se comunicar, devido à falta de um idioma compartilhado.

A prática religiosa que ocorria era limitada às orações diárias e ao estudo do Alcorão, o que muitos dos uigures gostavam porque não tiveram a oportunidade porque cresceram na China, onde as restrições ao culto muçulmano aumentaram consideravelmente na década de 1990. A forma de islamismo praticada no acampamento uigur era principalmente o sufismo popular em Xinjiang, em vez da versão muito mais austera e rígida da religião promovida pelo Talibã.

 

Capturado e enviado

Isolados do resto do Afeganistão, quanto mais do resto do mundo, poucos dos homens do acampamento uigur tinham alguma ideia do que aconteceu em setembro de 2001 até que as campanhas de bombardeio começaram semanas depois.

As forças do Talibã e da Al Qaeda fugiram para as montanhas, onde estavam encenando uma ação de retaguarda contra a Aliança do Norte e as forças especiais norte-americanas.

Os uigures também correram para as cavernas que cruzam as montanhas e as tornam um local tão defensivo. Lá eles se abrigaram, sem saber o que fazer, com medo de serem mortos pelas bombas ou fuzilados pelos invasores. Mesmo que fossem detidos e sobrevivessem, eles temiam serem entregues à China.

“Ficamos presos nas montanhas. Os aviões estavam por todo lado”, lembrou Qassim. “Um velho nos disse para irmos para o Paquistão, que a gente ia congelar ali, e o homem disse que não tinha comida”.

Após dias de caminhada, o grupo de cerca de 18 uigures chegou ao Paquistão e encontrou um vilarejo, onde os moradores os abrigavam e alimentavam. Mas a hospitalidade foi uma farsa: soldados paquistaneses cercaram a vila e prenderam os uigures, que mais tarde descobriram que haviam sido vendidos por US$ 5 mil (cerca de R$ 26 mil) cada, de acordo com documentos do governo dos Estados Unidos.

“Venderam a gente”, contou Qassim. “Eles disseram ‘nós os pegamos’, a gente não sabia de nada. Eles nos vendaram e nos levaram para a base. Ficamos lá por um mês”.

Qassim lembra que eles não disseram aos paquistaneses que eram uigures, por medo de serem mandados de volta à China. Eles deram nomes falsos (aqueles que soavam árabes em vez de uigures e os manteriam em Guantánamo) e alegaram ser uzbeques afegãos.

“Achamos que seria ruim voltar para a China, para nossos parentes ou amigos, seria ruim para todos”, acrescentou. “Eles disseram que nos dariam para os Estados Unidos. Achamos que era melhor. A China é pior”.

Após cerca de seis meses, Qassim disse que os homens foram colocados em um avião e levados de avião para o Camp X-Ray, nome da prisão militar recém-criada na Baía de Guantánamo.

Criado na sequência dos ataques de 11 de setembro como um lugar para interrogar e deter suspeitos de terrorismo, a Baía de Guantánamo logo se tornou um símbolo internacional de abusos dos direitos dos EUA durante a chamada “guerra ao terror”.

Os presos foram detidos sem acusação e sujeitos a abusos generalizados, incluindo tortura. O governo dos EUA alegava que a prisão, localizada em uma base naval dos Estados Unidos no sul de Cuba, não estava coberta pela constituição, um argumento que o Supremo Tribunal rejeitou em 2004. Seguindo essa decisão, vários prisioneiros, incluindo muitos uigures, entraram com processos de habeas corpus, forçando o governo dos Estados Unidos a apresentar as provas que tinha contra eles, um movimento que muitas vezes resultou em sua eventual libertação.

O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama prometeu e não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo, onde cerca de 40 detidos ainda estão alojados – embora isso seja menos do que as centenas que abrigava no auge da Guerra Global contra o Terror. No início deste ano, o governo Biden fez a mesma promessa para fechar o campo de detenção.

“Considerando a violência que aconteceu em Guantánamo, temos certeza de que, depois de mais de 19 anos, prender pessoas indefinidamente sem julgamento e submetê-las a tortura, crueldade e tratamento degradante, sem acesso significativo às famílias ou sistemas legais adequados, é o cúmulo da injustiça”, escreveram sete ex-detentos em uma carta para Biden em janeiro. “É por isso que a prisão em Guantánamo deve acabar”.

Dois ex-detentos uigures abordados para este artigo se recusaram a ser entrevistados, citando o desejo de não reviver o trauma que sofreram em Guantánamo.

Uma organização sombria

Chegando a Guantánamo, com os olhos vendados e algemados, os presos uigures descobriram que estavam sendo classificados como “combatentes inimigos”, membros de um grupo ligado ao Talibã e à Al Qaeda, um grupo do qual a maioria nunca tinha ouvido falar: o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM).

Documentos oficiais de Guantánamo, publicados pelo Wikileaks, descrevem o ETIM como uma “organização separatista uigur dedicada à criação de uma pátria islâmica na China, por meio de insurreições armadas e terrorismo”. Eles alegaram que havia se unido ao Movimento Islâmico do Uzbequistão “para formar uma organização terrorista maior e mais capaz, que agora é diretamente afiliada e apoiada” pela Al Qaeda e outros grupos terroristas.

As autoridades chinesas vão ainda mais longe, culpando o ETIM por quase todos os ataques terroristas ou incidentes violentos em Xinjiang e outras partes do país desde meados da década de 1990 até hoje.

Em novembro de 2020, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, disse que o grupo “há muito se envolve em atividades terroristas e violentas, causando pesadas baixas e perdas de propriedades e representando sérias ameaças à segurança e estabilidade na China, na região e além”.

Um vídeo lançado pela emissora estatal chinesa CGTN em 2019 comparou o grupo à Al Qaeda e ao Estado Islâmico, dizendo que ele “tentou recrutar pessoas em grande escala, espalhando uma ideologia radical que continua a causar o caos em muitos países ao redor do mundo”. Embora as autoridades chinesas se gabem de ter derrotado o terrorismo em Xinjiang, elas argumentam que o ETIM representa uma ameaça contínua, que justifica a repressão aos uigures e ao islamismo em geral.

Segundo a maioria dos especialistas, o problema é que há poucas evidências independentes para confirmar as afirmações da China sobre o tamanho e a influência do ETIM. Embora tenha havido um aumento na violência em Xinjiang nas décadas de 1990 e 2000, e alguns pequenos grupos radicais uigures fossem conhecidos por estarem baseados na área da fronteira Paquistão-Afeganistão, Roberts disse que a imagem de Pequim de um movimento internacional coeso e organizado direcionando o terror ataques dentro da China é muito enganosa.

“Meu entendimento é que não houve realmente nenhuma resistência militante organizada, em vez disso houve esses incidentes isolados (em Xinjiang). O que aconteceu depois do 11 de setembro foi que o governo chinês tentou reformular todos aqueles incidentes como sendo relacionados ao terrorismo islâmico e dizendo abertamente que foram financiados por Osama bin Laden”.

Muitos dos eventos agora atribuídos ao ETIM pelas autoridades chinesas, como a agitação étnica na capital de Xinjiang, Urumqi, em 2009, foram cobertos pela mídia internacional na época e não tinham ligações com terrorismo e sim claras motivações alternativas. Embora grupos no exterior tenham reivindicado o crédito por alguns incidentes dentro da China, poucas evidências foram fornecidas. Roberts disse que isso é semelhante ao Estado Islâmico alegando falsamente ataques de lobos solitários nos EUA e em outros lugares.

O quadro é ainda mais confuso porque a mídia estatal chinesa inicialmente proibiu a cobertura ou ignorou outros incidentes em Xinjiang agora usados para argumentar que a região era um viveiro de terrorismo antes das recentes repressões.

No entanto, uma coisa está clara: a partir de 2002, a narrativa do governo chinês mudou da preocupação com os separatistas nacionalistas à pintura de todos os dissidentes uigures como terroristas islâmicos. A transformação parece ter sido inspirada em parte por e recebeu um grande impulso do que hoje parece ser uma fonte improvável: Washington.

Em agosto de 2002, o governo George W. Bush designou o ETIM como Organização Terrorista Estrangeira, um movimento que foi rapidamente seguido por sanções das Nações Unidas, patrocinadas pelos EUA, China, Quirguistão e o novo governo afegão patrocinado pelos EUA em Cabul.

Na época, o grupo era “virtualmente desconhecido entre os especialistas da região”, disse Roberts, e ainda assim os EUA foram além da China, culpando o ETIM por quase todos os incidentes violentos em Xinjiang desde a década de 1990 em uma preempção da atual linha de propaganda.
Falando em uma audiência do congresso anos depois, Randall Schriver, que era subsecretário adjunto para assuntos do Leste Asiático e do Pacífico no Departamento de Estado na época, defendeu a designação da ETIM como organização terrorista, dizendo que o governo Bush foi pressionado por Pequim para listar vários grupos, e o ETIM era o único em que havia alguma evidência convincente.

Outros especialistas, tanto na época quanto desde então, expressaram ceticismo, no entanto, principalmente quanto à ideia de que o ETIM poderia ter dirigido ataques terroristas na China enquanto estava sob a proteção nominal do Talibã, visto que o governo chinês tinha laços relativamente bons com o governo afegão na época.

Schriver reconheceu também que, embora a comunidade uigur “não esteja imune a esse lado mais feio do nacionalismo”, os militantes são “uma minoria muito pequena dentro de uma minoria”.
Ao comparar a propaganda chinesa e as declarações do governo Bush, o congressista Bill Delahunt, que presidiu a audiência, disse que “me parece que pegamos informações de inteligência substanciais do regime comunista chinês e, em seguida, usamos essas evidências questionáveis como nossas próprias como um fator significativo na determinação de que o ETIM era uma organização terrorista”.

Seu colega Dana Rohrabacher acusou o governo de designar o ETIM “para apaziguar o governo chinês em uma tentativa patética de obter seu apoio no início da guerra contra o Iraque”.
Em resposta a um pedido de comentário para este artigo, uma porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que Washington revogou a designação do ETIM como grupo terrorista em novembro de 2020.

“O ETIM foi removido da lista porque, por mais de uma década, não houve nenhuma evidência confiável de que o ETIM continua existindo”, disse a porta-voz. “Avaliamos que o ETIM é agora um rótulo amplo que a China usa para pintar de forma imprecisa uma variedade de atores (uigures), incluindo ativistas não violentos e defensores dos direitos humanos, como ameaças terroristas. A China frequentemente rotula indivíduos e grupos como terroristas com base em suas crenças políticas e religiosas, mesmo que eles não defendam a violência”.

A cooperação com os chineses no combate ao terrorismo foi um raro ponto positivo nos esforços do governo Bush para construir laços mais fortes com Pequim, prejudicados no início de seu mandato pela colisão em pleno ar de aviões militares chineses e norte-americanos sobre a ilha de Hainan.
Ao lado do então líder chinês Jiang Zemin em Pequim em 2002, Bush deu as boas-vindas à “cooperação da China em nossa guerra contra o terrorismo”.

A colaboração entre os EUA e a China na década de 2000 foi além da designação do ETIM. Após dois anos de detenção, os interrogadores do Partido Comunista Chinês tiveram acesso aos detidos uigures em Guantánamo, entrevistas que aterrorizaram os homens, que temiam que suas famílias pudessem sofrer repercussões ou que fossem entregues às autoridades em Pequim.

“Durante o interrogatório, não respondi a nenhuma pergunta”, disse Adil. “Eles me ameaçaram dizendo ‘quando nós devolvemos você para a China, você receberá o que merece e responderá às nossas perguntas’”.

Ayoub disse à CNN que “alguns de nós falaram, outros não”.

“Mas estávamos todos preocupados que, se as autoridades chinesas pudessem vir aqui e nos questionar, eles também poderiam nos levar de volta. Fui interrogado por três horas, mas não falei. Eu não disse uma palavra”.

Ele acrescentou que os guardas “ameaçaram a mim e minha família”. Qassim disse que ficaram “com muito medo quando os chineses chegaram”.

“Eles me perguntaram 'de onde você é?' Eu disse do Turquestão Oriental - eles disseram que esse lugar não existe, e eu disse que existia”, lembrou Qassim.

Quando a chamada para a oração foi tocada nos alto-falantes do acampamento, Qassim disse que seu interrogador chinês ficou surpreso, supondo que os norte-americanos não permitiriam tal prática abertamente muçulmana.

“Eu disse a ele que a gente orava e jejuava aqui. Eles cometem erros, mas não espezinham nossa religião. Temos o Alcorão, oração, jejum. Essa foi a parte boa (de Guantánamo)”.
Falando na audiência de 2009, Shriver, o ex-funcionário do Departamento de Estado, disse que era “absolutamente inapropriado e inaceitável” permitir que oficiais de segurança do Partido Comunista Chinês entrevistassem os presos uigures.

A China continua a ver o ETIM como uma organização terrorista perigosa. 

Solto no limbo

Quando chegaram a Guantánamo, todos os 22 uigures detidos foram designados “combatentes inimigos’ e disseram, para surpresa de muitos, que eram considerados membros do ETIM e ligados à Al Qaeda.

Ao longo da década seguinte, o Pentágono gradualmente reverteu essa decisão, e iria enfim categorizá-los todos como “não mais combatentes inimigos”.

O problema era então o que fazer com eles. Embora autoridades do governo Bush tenham dito relativamente cedo que os homens nunca seriam enviados à China, por medo de serem torturados ou executados, eles também não estavam dispostos a reassentar quaisquer ex-detentos de Guantánamo nos Estados Unidos.

“Pedimos ao governo dos Estados Unidos que encontrasse um lar para eles, onde não mais tarde acabassem na China sob pressão diplomática”, explicou Nury Turkel, advogado que trabalhou em nome dos detidos uigures.

Depois de anos de campanha dos próprios detidos, seus advogados e grupos de direitos humanos, o primeiro grupo de cinco detidos, incluindo Adil, Ayoub e Qassim, foi transferido para a Albânia em 2007.

Com a eleição de Obama, que prometeu fechar o campo da Baía de Guantánamo, Turkel disse que havia muito otimismo de que os uigures restantes seriam libertados rapidamente e podem até mesmo ser reassentados nos Estados Unidos.

Mas essas esperanças se desvaneceram quando os republicanos do Congresso introduziram uma lei para manter os terroristas fora dos EUA, em uma tentativa de bloquear o governo Obama de transferir os detidos de Guantánamo para o continente, e que mobilizou a pressão da mídia contra a Casa Branca. Isso tornou mais difícil negociar com outros países também, disse Turkel, porque eles expressaram ceticismo em tomar homens que os EUA aparentemente consideraram perigosos demais para se reassentarem.

Também houve pressão de Pequim: telegramas publicados pelo WikiLeaks em 2010 mostraram que, à certa altura, a Alemanha estava considerando aceitar sete uigures, mas foi “posteriormente advertida pela China de ‘um pesado fardo nas relações bilaterais’” entre Berlim e Pequim caso o fizesse.

Por fim, foram encontradas casas para todos os 22 uigures de Guantánamo, com os últimos homens deixando o campo de detenção em 2013 para a Eslováquia, após anos de negociações entre Washington e vários aliados, incluindo a Albânia, sobre quem estaria disposto a levar os ex-detidos.
A liberação não significou um retorno à normalidade, no entanto. Adil disse que a própria vida na Albânia é uma espécie de detenção e que suas liberdades ainda são muito limitadas.
“Vivemos na Albânia há 15 anos com severas restrições”, contou. “Nossa vida aqui pode ser comparada a uma prisão a céu aberto. Tudo o que temos é um documento de autorização de residência, e não podemos nem ter acesso a serviços tão simples como comprar um chip de celular por falta de documentos legais”.

Qassim disse que haviam prometido passaportes aos homens, mas isso nunca aconteceu.
O Ministério da Europa e Relações Exteriores da Albânia não respondeu a um pedido de comentários.

“É como se fôssemos prisioneiros de novo. Não viemos aqui apenas para morrer. Eu quero poder viver. Quero poder mandar meus filhos para uma escola no exterior e visitá-los. Eles vivem me dizendo que as pessoas vão para a Turquia, vamos lá visitar, mas não podemos”.
As tentativas de alguns uigures de deixar os locais onde se reassentaram não tiveram sucesso. Ayoub faz parte de um processo que três ex-detentos de Guantánamo moveram contra o governo canadense, tentando permitir que viajem para aquele país.

“Não temos permissão para trabalhar aqui (na Albânia)”, disse Ayoub. “Não podemos obter passaportes, não podemos viajar para fora da Albânia. Estamos aqui há mais de 15 anos”.
Todos os três demandantes são casados com cidadãs canadenses, mas as autoridades se recusaram a permitir que eles se juntem a elas no Canadá, argumentando que são pedidos “inadmissíveis por motivos de segurança" devido à sua suposta filiação a uma organização terrorista, o ETIM.

“As evidências de que o governo canadense confia em todos surgiram de sua detenção em Guantánamo”, disse Prasanna Balasundaram, o advogado responsável pelo caso. "Não há nenhuma evidência confiável de que Ayoub tenha sido um membro do ETIM”.

O advogado mencionou a aparente hipocrisia do Canadá, cujo parlamento recentemente acusou a China de cometer “genocídio” em Xinjiang, de confiar nas mesmas evidências que Pequim para negar a entrada de seus clientes.

“O problema é que para eles serem considerados inadmissíveis por motivos de segurança é algo muito fraco, abaixo até mesmo do padrão civil de prova”, afirmou Balasundaram, acrescentando que espera que uma maior atenção à situação geral dos uigures pressione Ottawa para mudar sua decisão em relação a seus clientes.

O Ministério das Relações Exteriores do país não respondeu a um pedido de comentários sobre o caso de Ayoub.

“Há um grande mal-entendido na datação de quando fomos presos”, disse Ayoub. “Fomos essencialmente vitimados pela política. Fomos apanhados na política entre essas nações”.
O governo dos EUA também recuou de suas declarações anteriores sobre o ETIM, dizendo em um relatório em 2019 que havia uma “falta de evidências independentes de que um grupo com esse nome ainda está ativo”. No ano passado, isso levou o governo Donald Trump a tirar o ETIM inteiramente da lista, para fúria do governo chinês, com as autoridades chinesas denunciando a medida como política.

Ayoub disse que quando houve uma tentativa de reassentamento dos uigures de Guantánamo, ficou claro que muitos países se recusaram a tomá-los porque temiam prejudicar suas relações econômicas com a China, algo que ele viu se repetir na reação de vários governos à situação atual.
“Mesmo a maioria dos países de maioria muçulmana está optando por ficar do lado da China”, disse Ayoub. “A comunidade internacional precisa se unir para colocar os direitos humanos acima de seus interesses econômicos. Ficar à margem da opressão apenas ajuda a opressão, então todos têm a responsabilidade de se levantar”.

Gul Tuysuz, da CNN, contribuiu com reportagem de Istambul, Turquia.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui)