Mulher árabe recebe rim de judeu morto em conflitos entre Israel e Palestina

Foram nove anos de espera pelo transplante que mudaria sua vida

Hadas Gold e Michael Schwartz, CNN
22 de maio de 2021 às 12:27
Mulher árabe recebe rim
Randa Aweis recebeu um rim esta semana depois de esperar nove anos por um doador
Foto: Reprodução CNN

Randa Aweis, 58, esperou nove anos pela doação de órgão que mudaria sua vida.

Cristã árabe, nascida na Cidade Velha de Jerusalém, ela dependia de sessões regulares de hemodiálise porque seus rins falhavam.

Então veio um telefonema: o rim de um doador estava disponível. Aweis foi operada na segunda-feira (17) no renomado Hospital Universitário Hadassah Ein Kerem, de Jerusalém.

Quando foi anestesiada, ela não sabia quem era o doador.

Só depois ela descobriu que era Yigal Yehoshua, um judeu israelense que morreu na onda de violência entre judeus e árabes na cidade israelense de Lod.

"Eu disse: 'O quê? Como pode ser? Como consegui o rim?'", disse Aweis à CNN, de sua cama no hospital. “Eles me disseram que eu ganhei um presente. É um rim que foi um presente de Yigal. Eu disse, 'bom'. Fiquei comovida. Em uma guerra, um judeu deu um rim a uma árabe".

Yehoshua, de 56 anos, foi gravemente ferido no dia 11 de maio após ser atacado por um grupo de jovens árabes israelenses em Lod.

Ele lutou por sua vida por quase uma semana antes de morrer na segunda-feira (17) e ser enterrado na terça-feira.

Para muitos aqui, a explosão de violência entre árabes israelenses e judeus que viveram em comunidades mistas por anos foi um dos resultados mais chocantes do conflito entre Israel e palestinos.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou os ataques como "inaceitáveis", dizendo em um comunicado: "Nada justifica o linchamento de judeus por árabes e nada justifica o linchamento de árabes por judeus".

O irmão de Yehoshua, Efi, falou em seu funeral, dizendo que seu irmão "acreditava na coexistência".

"Você me disse que isso não aconteceria. Você acreditou que se pusesse a cabeça para fora tudo ficaria bem: 'Eles conhecem Yigal' E o pior aconteceu", disse.

Ele manteve vigília na cama do hospital do irmão por seis dias.

"Eu esperei você acordar. Dia após dia. Um dedo, um braço, uma perna, uma palavra. Você nunca fez nada de errado. Você pagou com a sua vida. Você deu vida a outros. Você será abençoado", disse Efi.

Chamado por uma coexistência pacífica

Aweis, que recebeu o rim de Yehoshua, agora enfrenta as mesmas perguntas de Efi no funeral.

"Pobre homem, o que ele fez?", perguntou de sua cama de hospital após a cirurgia. "O que ele fez com eles? Por que o mataram? O que a mulher dele vai fazer com os filhos dele?", disse Aweis, que cresceu em uma comunidade mista árabe-judaica em Jerusalém.

"Não havia racismo. Nem dos judeus, nem dos árabes", disse ela. "Eu cresci com os judeus. Nossos filhos cresceram com os judeus".

Seu cirurgião, Abed Khalaeileh - um palestino nascido em Jerusalém - disse que ele e seus colegas simplesmente tratam a todos como seres humanos.

“Lidamos com todos igualmente. Não existe preto nem branco. Todos são iguais no atendimento médico que recebem”, disse.

Em sua linha de trabalho, como chefe da unidade de transplantes do Hospital Hadassah Ein Kerem, a tristeza da morte traz uma nova vida.

“O mundo do transplante é o mundo da humanidade e é importante lembrar disso”, disse. "As pessoas nascem de novo".

Ele afirma que foi inspirado pelo espírito da família de Yehoshua.

“Dirijo-me à família e sinto parte da dor deles e agradeço por tudo o que vocês fizeram. Não se pode dar por garantido que uma pessoa doará um órgão durante esse tempo”, disse.

Aweis espera poder tentar ajudar a aliviar um pouco a dor da família.

Ela disse que já havia falado com a família de Yehoshua, mas uma de suas primeiras visitas quando ela sair do hospital será para agradecê-los e oferecer apoio.

"Vou agradecer à família de Yigal. Eles não deveriam sentir mais sofrimento. Yigal está indo para o céu, onde é melhor do que aqui", disse ela.

E ela tem uma mensagem para os judeus e árabes da região: "Devemos viver juntos. Devemos ter paz. Devemos ser felizes".

Richard Allen Greene, da CNN em Jerusalém, contribuiu para esta reportagem.

Esse é um texto traduzido. Acesse a versão original, em inglês, clique aqui.