Escola altera fotos de 80 alunas e revolta pais e estudantes nos Estados Unidos

Situação abre discussão sobre códigos de vestimenta e sua diferença no tratamento de meninos e meninas

Christina Zdanowicz, da CNN
26 de maio de 2021 às 11:10
Riley O'Keefe
Foto da caloura Riley O'Keefe no anuário foi editada para cobrir um decote; dezenas de imagens também foram editadas
Foto: Anuário do colégio Bartram Trail

Abrir um anuário pela primeira vez normalmente é um momento cheio de emoção para estudantes dos Estados Unidos. Mas, numa escola de ensino médio da Flórida, algumas alunas ficaram em choque ao ver que suas fotos do anuário haviam sido editadas.

Quando a estudante Riley O'Keefe, da Bartram Trail High School, em St. Johns, Flórida, viu seu retrato do anuário, ela notou que uma barra preta foi adicionada para cobrir seus seios.

“Achei inacreditável que o anuário estivesse impresso desse jeito”, disse O'Keefe, 15 anos, à CNN. “Então comecei a folhear o anuário e vi mais meninas com o decote editado”.

Na hora, a aluna mandou uma mensagem para sua mãe com a foto.

“Eu sei que ela usou a roupa na escola centenas de vezes porque é uma peça que cai bem nela”, disse sua mãe, Stephanie Fabre, à CNN na segunda-feira (24), dizendo acreditar que a roupa estava de acordo com o código de vestimenta do distrito. O código de vestimenta estabelece que as blusas femininas “devem cobrir todo o ombro e devem ser recatadas, não reveladoras ou provocar distrações”.

Oitenta fotos de alunas foram alteradas no anuário este ano, disse a chefe de Relações Comunitárias do distrito, Christina Langston.

“É decepcionante ter de tratar da situação da imagem do aluno no anuário da escola Bartram Trail High”, confidenciou o superintendente do distrito escolar do condado de St. Johns, Tim Forson, em uma declaração à CNN. “Certamente nunca houve a intenção de constranger ou envergonhar nenhuma aluna pelas roupas que vestem. Infelizmente, estamos aprendendo uma lição valiosa sobre a importância do processo e a compreensão de que a intenção nem sempre é o resultado”.

O site da escola divulgou uma nota se isentando de responsabilidade, dizendo que, se os retratos dos alunos no anuário não corresponderem ao código de conduta do aluno do distrito, eles podem ser “ajustados digitalmente”.

“O coordenador do anuário tomou a decisão de editar as fotos com base em sua avaliação de que as mulheres não estavam cumprindo o código de vestimenta”, disse Langston.

O superintendente disse que não houve uma discussão antes de a escola decidir editar algumas das imagens das alunas. Ele chamou o funcionário envolvido – cuja identidade não foi revelada – de um “educador excepcional” e disse que haverá mudanças na forma como o conteúdo será considerado nos anuários que virão.

Roupas indecentes proibidas

O código de vestimenta de estudante proíbe roupas “indecentes, reveladoras ou que causem distração”. No entanto, o diretor de cada escola tem a “autoridade final” sobre se a roupa do aluno é apropriada.

A revolta pela edição das fotos do anuário é parte de um problema maior, disse a mãe Fabre. É o código de vestimenta do distrito que precisa ser revisado pela forma injusta como trata a roupa das meninas, ao contrário dos meninos, disse a mãe da estudante.

“É um problema muito maior de discriminação de gênero e dessas meninas sendo alvo de alguém e sendo sexualizadas por ouvirem que suas roupas estão erradas”, comentou. “Há desigualdade dentro do código de vestimenta”.

No trecho que trata de todos os alunos, o código de vestimenta diz que “os alunos estão proibidos de usar roupas que exponham roupas íntimas ou partes do corpo de maneira indecente ou vulgar”.

Na seção “Todos os Alunos”, está escrito: “Tops e regatas não são aceitáveis, exceto nas aulas de educação física”.

A seção feminina diz que as meninas não podem usar saias menores que dez centímetros a partir do joelho. E continua: “Roupas reveladoras, pijamas e lingerie não são aceitáveis. Peças íntimas não devem ser expostas. Penteados e maquiagem excessiva não são permitidos”.

Embora o código de vestimenta para meninos e meninas tenha três itens, a lista de regras para meninos é mais curta. As regras para meninos incluem “calças de meninos devem ser usadas na cintura. Nenhuma cueca samba-canção ou roupa íntima pode ser visível. Bigodes e barbas devem ser bem aparados”. Pijamas e roupas reveladoras não são permitidos.

O código de vestimenta do distrito também proíbe trajes que exibam “palavrões, violência, mensagens discriminatórias, frases sexualmente sugestivas, anúncios, frases ou símbolos de álcool, tabaco ou drogas”.

Código desatualizado

Fabre e outros pais estão pedindo uma mudança no código de vestimenta do distrito.

“É antiquado”, resumiu a mãe. Ela conta que o documento diz que alunos não são autorizados a usar culotes (nome dado antigamente a um tipo de saia-calça). “Sabe, estamos em 2021”, pontuou.

“Deve ser igual para todos os lados. É preciso haver uma mudança sistemática no código de vestimenta”.

Adrian Bartlett, outra mãe que espera que a escola mude o código de vestimenta, disse que sua filha, Brooke, de 15 anos, também notou que sua foto do anuário havia sido alterada.

Brooke, estudante de 15 anos, também teve sua foto alterada no anuário
Foto: Anuário do colégio Bartram Trail

“Com isso, estão dizendo à minha filha que ela deveria ter vergonha dessa parte do corpo, que deveria estar cobrindo isso”, disse Bartlett. "Acho que é uma mensagem completamente errada a dar às adolescentes que já estão passando pela era de ter vergonha do corpo e tentando se entender e ficar à vontade com elas mesmas”.

Segundo a mãe, Brooke, cujo sobrenome sua mãe pediu para não ser divulgado, tem lutado contra problemas de saúde mental e imagem corporal, e a pandemia tornou as coisas mais difíceis.

A jovem já foi internada e segue em tratamento para problemas de saúde mental, disse Bartlett. Só recentemente começou a se sentir confortável para ir à escola usando roupas que não fossem moletons largos.

“Na Flórida, faz calor 90% do ano. Mas, nos últimos anos, muitos de nossos filhos vêm usando camisetas muito largas 24 horas por dia, sete dias por semana, seja no inverno ou no verão”.

Embora Brooke inicialmente tenha dado risada da terrível edição de seu retrato feita no Photoshop, sua mãe se preocupou com o que isso poderia fazer pelos adolescentes a longo prazo.

“Temo que alguns desses outros jovens podem não estar lidando com isso tão bem quanto Brooke e como isso pode ser prejudicial para a saúde mental a longo prazo”, comentou. “É preciso ter consciência das questões de saúde mental, e eles estragaram tudo para esses alunos”.

Bartlett, assim como Fabre, considera o código de vestimenta da escola muito rígido para as meninas. Ela conta que é difícil encontrar roupas que estejam de acordo com o código e, quando sua filha encontra algo, nem sempre se sente bem com a peça.

“Afeta a autoestima e cria ainda mais problemas corporais. Deve haver algum tipo de meio termo onde nossas meninas possam se sentir confortáveis e confiantes indo para a escola, mas ainda estejam apropriadas”.

Meninos protegidos

A desigualdade entre os códigos de vestimenta entre os gêneros é algo que algumas alunas e seus pais desejam que seja abordado.

“Espero que a escola dê uma boa olhada em como todos veem os corpos das mulheres e assuma um papel de liderança na tentativa de mudar essa visão”, disse a estudante O'Keefe.

A questão também vai além do código de vestimenta.

“É também uma abordagem de como as pessoas veem nossos corpos. Por exemplo, uma garota com seios maiores tem muito mais chance de ser enquadrada no código de vestimenta, e isso não é justo. Deveríamos poder usar as mesmas camisas, as mesmas roupas e não temer sermos codificados nas roupas”.

Bartlett, a mãe da outra estudante, concordou, observando que a escola enviava “a mensagem errada”.

“Estamos dizendo às nossas meninas para se cobrirem e se vestirem com recato para proteger os meninos. Acho que essa é a mensagem errada. Todos devem ser responsáveis por si mesmos e por nossas meninas para poderem se vestir de maneira confortável e respeitosa”.

Os pais não estão procurando apenas um pedido de desculpas, e sim uma mudança duradoura que beneficiará os alunos no futuro, disse Fabre.

“Embora um pedido de desculpas seja 100% necessário, o principal aqui é que deve haver uma mudança sistemática no código de vestimenta e na consistência de como ele é aplicado”, comentou.

Além de mudar o código de vestimenta, a estudante O'Keefe disse que espera que a escola eduque os funcionários e os alunos do sexo masculino.

“Espero que eles ensinem aos meninos que não há nada de errado com nosso corpo. É natural, igual ao deles. Não há nenhuma razão para que nosso corpo deva ser censurado e o deles esteja OK”.

Fabre disse que ela e outros pais participaram de uma oficina do conselho escolar na semana passada na qual o código de conduta da escola foi discutido.

Mudanças foram propostas no código de conduta do estudante, que inclui mudanças no código de vestimenta.

"Foram muitos comentários públicos”, comentou Langston, a chefe de Relações Comunitárias do distrito. O presidente do conselho escolar disse que queria “um comitê a ser criado para revisar o código de vestimenta em geral”. Uma votação sobre o código de conduta marcada para 8 de junho.

“O Código de Conduta do Estudante contém uma parte sobre o código de vestimenta e há algumas revisões neste ano”, disse Langston. "Todos os anos, o Código de Conduta do Aluno é revisado nesta época do ano."

A escola está oferecendo reembolso total aos pais que entrarem em contato com a escola reclamando do anuário.  Mas os anuários que já estiverem muito alterados por textos e assinaturas (uma tradição entre alunos) receberão reembolso parcial.

Tina Burnside e Alisha Ebrahimji da CNN contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)