Moradores de Hong Kong glorificam homem que esfaqueou policial

Para os manifestantes, o assassino morreu lutando contra um regime não eleito que sufocou a dissidência

Joshua Berlinger, Lauren Lau e Julia Hollingsworth, da CNN
11 de julho de 2021 às 17:08 | Atualizado 11 de julho de 2021 às 17:22
Manifestantes em Hong Kong
Foto: Anthony Wallace/AFP/Getty Images

Eles chegaram com flores brancas para homenagear um homem acusado de tentativa de homicídio.

Sua vítima era um policial aparentemente aleatório -- e para alguns em Hong Kong, isso não só justificava a violência, mas era motivo de comemoração.

Na última semana, uma trilha constante de visitantes transformou a cena do crime -- praticado no dia 1º de julho -- em um memorial. Famílias trouxeram seus filhos pequenos para chorar o luto pelo assassino, que fatalmente virou sua faca contra si mesmo logo após o ataque.

O sindicato de estudantes da prestigiosa Universidade de Hong Kong aprovou uma moção para dizer que "apreciaram seu sacrifício".

E o empregador do homem, a empresa de bebidas Vitasoy, viu suas ações despencarem 14,6%, a maior queda desde a abertura do capital em 1994, depois de oferecer condolências à família do agressor em um memorando interno que vazou.

Na internet, alguns o consideram um herói.

Para eles, o assassino morreu lutando contra um regime não eleito que sufocou a dissidência.

No ano em que Pequim impôs uma lei de segurança nacional draconiana em Hong Kong, um jornal foi fechado, os protestos públicos parecem ter sido proibidos e quase todas as principais figuras pró-democracia da cidade, incluindo ativistas e políticos, foram presos ou forçados ao exílio.

As autoridades responderam aos memoriais com fúria. Carrie Lam, a líder da cidade -- eleita por apenas algumas centenas de pessoas--, pediu ao público que evite incitar mais "atos imorais".

A polícia guardou o local do esfaqueamento por vários dias, removendo flores do memorial improvisado e caracterizou o ataque como "terrorismo", alimentando uma narrativa das autoridades de que a sociedade civil está agora sob ameaça de atos aleatórios de violência política.

O ataque de 1º de julho expôs que, embora os protestos e a oposição política tenham sido atenuados, a raiva que abalou Hong Kong em 2019 permanece no campo antigovernamental, gerando temores de mais violência.

Um feriado moderado

O ataque foi particularmente chocante por dois motivos, tanto pela escolha da vítima quanto a escolha do dia.

Nos primeiros 20 anos após a volta de Hong Kong à China, 1º de julho foi um dia de marchas pacíficas em massa em prol da democracia. Este ano, essas manifestações foram proibidas, aparentemente sob restrições do coronavírus, e uma grande presença policial foi implantada.

A vítima foi uma das dezenas de policiais estacionados perto de uma esquina isolada, que havia sido o ponto de partida para passeatas de massa pró-democracia anteriores, quando seu agressor puxou um objeto de sua bolsa e enfiou no policial.

O agente foi levado às pressas para o hospital em estado crítico.

Antes da lei de segurança nacional, as autoridades de Hong Kong davam licenças para marchas de 1º de julho, um símbolo do nível relativamente alto de liberdade de Hong Kong em comparação com a China.

Isso mudou depois de 2019. Durante meses daquele ano, protestos pró-democracia paralisaram partes de Hong Kong, às vezes resultando em confrontos violentos entre manifestantes e a polícia. Muitos manifestantes consideraram a resposta da polícia violenta, alimentando a desconfiança do público.

E à medida que o movimento se transformava em algo mais perigoso, a tolerância de Pequim com as manifestações em Hong Kong acabou.

Quando a pandemia de coronavírus interrompeu as reuniões em massa, Pequim rapidamente usou uma porta dos fundos na miniconstituição de Hong Kong para contornar o sistema legal independente da cidade e aprovar uma polêmica lei de segurança nacional, que criminalizou atos de secessão, subversão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras.

Com avenidas para protestos pacíficos bloqueados, milhares deixaram a cidade, emigrando para democracias ocidentais que oferecem um porto seguro, enquanto centenas se tornaram refugiados políticos. Para aqueles que ficaram em Hong Kong, há poucas maneiras legais de serem ouvidos.

John Lee, ex-policial de Hong Kong, disse em uma declaração enviada por e-mail à CNN que a lei de segurança restaurou "a tão necessária paz, calma e estabilidade para a sociedade e as ruas de Hong Kong".

Ninguém foi "forçado ao exílio" ou "sair", escreveu. “Os chamados 'refugiados' políticos incluem aqueles que defenderam a violência e a derrubada do governo HKSAR, mas evitaram as consequências de suas ações fugindo”, disse ele.

O ataque de 1º de julho mostrou que, embora a dissidência tenha sido silenciada, ela não desapareceu, disse Joseph Cheng, um proeminente comentarista político de Hong Kong que agora vive na Nova Zelândia. "A raiva está obviamente lá", acrescentou.

As autoridades não revelaram o motivo do assassino. A polícia o chamou de terrorista doméstico solitário que provavelmente foi "radicalizado por uma miríade de informações falsas". De acordo com a mídia local RTHK, o homem tinha 50 anos, era solteiro e morava com os pais.

A mídia local noticiou que o relatório de um psicólogo policial sobre o estado mental do agressor seria entregue ao legista, em preparação para um possível inquérito.

Um professor de psicologia de uma universidade em Hong Kong, que pediu para não ser identificado por medo de reação, alertou ser contra colocar a culpa do ataque apenas nas questões de saúde mental, dizendo que tal "explicação simplista" não resolveria "adequadamente" a situação.

Uma enlutada trabalhadora da educação na casa dos 20 anos disse acreditar que o agressor "chegou a um ponto de desespero" após os protestos de 2019.

“Queria fazer parte da comemoração dele para mostrar que ele não estava sozinho”, disse ela. “Não há espaço para expressão política. Não temos saída nenhuma. Não podemos ir às ruas, não podemos cantar canções com implicações políticas porque é ilegal”.

Uma 'busca distorcida pela liberdade'

O esfaqueamento de 1º de julho também representa outra dura realidade: como a outrora venerada Força Policial de Hong Kong se tornou um inimigo público para alguns.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa de Opinião Pública de Hong Kong revelou que a satisfação com a força policial caiu durante os protestos de 2019. Na última pesquisa, realizada em maio, o índice de satisfação da polícia subiu para 44 em 100, número bem abaixo do pico de 67 registrado há quase uma década.

A polícia de Hong Kong se recusou a comentar a pesquisa, mas um veterano de 10 anos da força que pediu para não ser identificado porque não estava autorizado a falar com a imprensa, disse que ficou chocado e triste com o ataque.

O oficial disse que foi uma "busca distorcida pela liberdade", inspirada por "notícias falsas", incluindo alegações infundadas de que a polícia havia matado vários manifestantes.

"Na minha linha de trabalho, preciso monitorar a atividade nas redes sociais. O número de contas falsas que ocupam meu feed principal é impressionante", disse ele. "Não importa quais são seus valores e não importa o quão nobres eles possam ser, não pode haver tolerância para a violência e táticas extremistas."

Os enlutados, disse ele, são "ingênuos". "Mostrar empatia para com o assassino é errado", disse ele. "Como você pode ensinar à próxima geração que esse comportamento é aceitável?"

Um ex-oficial de polícia de alto escalão, que falou à CNN sob a condição de anonimato por medo de represálias, disse que os policiais "precisam ser cautelosos".

"O homem que se matou é um assassino. Por que você o vê como um herói?" o veterano da polícia há mais de 30 anos perguntou sobre quem botava flores no local do crime.

Para o governo e seus apoiadores, o assassino de 1º de julho é um dos "terroristas" que estão começando a surgir como a mais recente ameaça à estabilidade de Hong Kong.

Medos para o futuro

Menos de uma semana após o ataque, a Divisão de Segurança Nacional da Força Policial de Hong Kong disse que descobriu um complô ligado a um grupo pró-independência para bombardear estações de trem, prédios de tribunais e túneis subterrâneos.

Não foi a primeira suposta ameaça terrorista que descobriram relacionada ao movimento pela democracia. Durante os protestos de 2019, a polícia apreendeu o maior esconderijo de explosivos de alta potência já encontrado na cidade.

Quando um jovem de 29 anos foi condenado no início deste ano em relação a esse roubo, o juiz disse que ele "esteve perto de declarar guerra" à sociedade, noticiou o jornal local South China Morning Post.

Hong Kong é uma cidade com poucos crimes violentos e poucas salvaguardas contra ataques terroristas. Não há controles de segurança em metrôs ou shoppings, por exemplo.

Em um clima polarizado, alguns são céticos sobre o quão real é a ameaça do terrorismo. Para muitos, a separação de poderes entre a polícia e o governo está se tornando confusa.

Outros acreditam que pode haver motivo legítimo para a preocupação de que ataques possam inflamar tensões que se transformam em uma ameaça maior.

Um usuário do LIHKG, um popular fórum semelhante ao Reddit usado por manifestantes em 2019, afirmou estar planejando um ataque semelhante contra um policial. O veterano da polícia, com mais de 30 anos, disse estar preocupado com ataques semelhantes, especialmente se o público continuar a oferecer o que ele chama de "orações por um assassino".

A redução das formas legais de expressar a dissidência significa que era possível que lobos solitários pudessem recorrer a ações mais extremas, disse o especialista político Cheng. “Você está conduzindo um grupo muito, muito pequeno de radicais a ações extremas”, disse ele, apelando a Lam para restaurar e reconstruir a confiança das pessoas na força policial.

“Qualquer governo sensato tem que reconhecer esse acúmulo de raiva e fazer tentativas para reduzir a raiva, em vez de apenas condenar os atos violentos”, disse ele.

Se os habitantes de Hong Kong ouviriam seu líder, é outra questão. Uma pesquisa recente do Instituto independente de Pesquisa de Opinião Pública de Hong Kong descobriu que 70% dos entrevistados dariam a Lam um voto de não confiança, e apenas 16% estavam satisfeitos com o desempenho do governo.

Enquanto isso, os policiais, que não fazem a lei, mas têm de aplicá-la, estão na linha de frente da ira pública.

O professor de psicologia disse que as autoridades de Hong Kong se tornaram "um alvo fácil no qual as pessoas podem projetar toda a sua frustração e decepção, política ou não".

"As pessoas de Hong Kong ainda não tiveram a chance de processar coletivamente ou resolver o que vivenciaram [em 2019]", disse ele. "Covid-19 serviu como uma distração substancial e talvez muito eficaz, mas, em última análise, a verdadeira cura precisa ocorrer."

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)