A Antártica deve ser um país? O que esperar do futuro do continente gelado

Turismo em um dos lugares mais inóspitos do mundo deve crescer nos próximos anos

Lilit Marcus, da CNN
18 de julho de 2021 às 20:01
Admiralty Bay na ilha  King George, Antártica
Admiralty Bay na ilha King George, Antártica
Foto: Alessandro Dahan/Getty Images

Desde que os humanos souberam de sua existência, eles sempre quiseram visitar a Antártica.

Este é o continente menos visitado do mundo, assim como o menos povoado. Em seus melhores dias, é de extremo difícil acesso. E mesmo assim, o apelo do desconhecido e o desejo de conhecer todos os continentes encorajam viajantes a tentarem traçar um caminho até o Polo Sul.

No entanto, até mesmo para os classificadores mais obcecados do mundo, a Antártica é de difícil classificação. Se não é um país, então é possível riscá-lo da lista de lugares para visitar antes de morrer? Quem controla essa regulação? Se houvesse uma capital, onde ela ficaria? Qual seria a língua nativa? 

Uma bandeira nacional para um lugar sem nação

Estas foram algumas das questões que Evan Townsend fez a si mesmo quando se inscreveu para a primeira de duas vagas de trabalho na Estação McMurdo, a base administrada pelos EUA na Antártica.

Townsend, um professor da escola primária em Boston, sabia que tinha um limite rígido de bagagem quando ia para a Antártica para trabalhar como funcionário de apoio - todos estão limitados a cerca de 40 quilos, diz ele, incluindo roupas, artigos de higiene pessoal, remédios, eletrônicos e qualquer outra coisa que eles possam querer ou precisar durante sua estadia.

Como uma de suas funções seria administrar a sala de artes e artesanato na base, ele queria trazer algumas decorações, mas sabia que precisava manter a mala leve. Townsend escolheu a bandeira do Orgulho - ela não pesava quase nada, mas seu significado era grande.

Um dia, Townsend e alguns colegas levaram a bandeira do Orgulho para fora e tiraram fotos para postar nas mídias sociais. As fotos acabaram se tornando uma história internacional, com muitos noticiários dizendo que o passeio foi a primeira Parada do Orgulho na Antártida.

"Foi quando percebi o poder das bandeiras", diz Townsend. "Por um lado, estou completamente isolado no fim da Terra e, por outro, faço parte desta comunidade global".

Apesar de não ter experiência em design, Townsend se identifica como um "nerd de bandeiras" de longa data e começou a brincar com a ideia de criar uma bandeira para representar a Antártica. Ele escolheu o azul escuro pelas águas do Oceano Austral e o branco pela paisagem, com um triângulo isósceles no centro para representar os picos gelados da Antártica.

"Eu queria que fosse uma bandeira neutra, com certeza", diz Townsend. "É um desenho distinto, é uma cor distinta, para garantir que não esteja afiliada a nenhum grupo ou nacionalidade em particular. Eu queria que fosse algo que tivesse muito simbolismo, e isso era suficientemente simples para que as pessoas pudessem aplicar à bandeira sua própria percepção da Antártica e seu próprio entendimento do continente".

O nome do projeto da bandeira, True South ("Sul Verdadeiro"), também tem seu próprio significado.

"O Sul Verdadeiro significa a direção para o pólo sul geográfico, em oposição ao sul magnético que levaria ao pólo sul magnético", explica Townsend. "Tem o objetivo de representar os objetivos e valores compartilhados pelos quais a comunidade da antártica pode se orientar".

E Townsend não tem planos de registrar a marca ou os direitos autorais do desenho da bandeira, pois acredita que ela deve pertencer a todo o mundo. "As melhores bandeiras são bandeiras que recebem seu significado e seu poder das pessoas que as hasteiam", acrescenta ele.

Bandeira da Antártica desenvolvida por Evan Townsend
Foto: Cortesia de Evan Townsend/True South

Quem está no comando?

Townsend é apenas uma das muitas pessoas ao redor do mundo que são obcecadas pela Antártica, mesmo que nunca possam visitá-la pessoalmente. Então, o que há no continente mais ao sul que continua a mobilizar as pessoas?

Em um mundo mais interconectado do que nunca, a Antártica continua a ser um dos poucos lugares sobre os quais a maioria das pessoas não sabe nada.

Não há população indígena, e a atividade humana lá ainda é relativamente recente. As únicas instalações permanentes são um punhado de estações científicas, que empregam apenas cientistas e sua equipe de apoio - um termo que abrange desde chefs de cozinha e trabalhadores de manutenção até eletricistas e gerentes de aeroportos.

É comum que as pessoas sejam multitarefas. Townsend trabalhou no serviço de alimentação como barman e como gerente de sala de artesanato durante sua estadia. Em seu auge, o número de residentes humanos na Antártida é de aproximadamente 10.000.

Em 1959, 12 países - incluindo Japão, África do Sul, França, Reino Unido, Argentina e o que era então a URSS - assinaram o Tratado da Antártica em Washington, DC. Entre os itens, eles concordaram era que a Antártica deveria "ser usada somente para fins pacíficos" e que a ciência estaria na vanguarda de qualquer desenvolvimento ou assentamento ali. Os membros das Forças Armadas estão autorizados a estar lá, mas somente em funções de apoio.

Embora poucas pessoas vivam lá, o escopo de influência da Antártica é enorme. A mudança climática fez com que o continente encolhesse. E apesar da existência do tratado, a política mundial mudou e novos atores do poder - especialmente a China - emergiram na Antártica.

Klaus Dodds, professor de Geopolítica na Universidade de Londres, é autor de vários livros sobre as regiões polares, o mais recente "The Arctic: A Very Short Introduction", publicado em junho de 2021.

"Coisas continuam sendo tiradas da Antártica: informação, gelo, recursos como focas, baleias e peixes", diz ele. "A fragilidade da Antártica, penso eu, representa a fragilidade do mundo mais amplo".

Embora a mudança climática seja a maior influência na Antártica, há outro fator importante que só se tornará mais significativo conforme a pandemia esvanesce -- o turismo.

Pinguim na ilha King George, Antártica
Foto: Alessandro Dahan/Getty Images

O futuro do sétimo continente

Cerca de 90% dos turistas vão de barco para a Antártica. Essas viagens são caras e a maioria dos viajantes passa apenas algumas horas em terra antes de voltarem para os navios e darem meia-volta.

Atualmente, os Estados Unidos são a maior fonte de turismo na Antártica, mas a China está subindo rapidamente para o segundo lugar, e Dodds acredita que, em uma década, alcançarão o topo da lista.

Alguns destinos, como a cidade turística argentina de Ushuaia, e Hobart, na Austrália, ganham dinheiro com esses turistas devido à localização como pontos de escala finais pré-Antárticos.

Dodds prevê que, na próxima década, várias empresas de cruzeiros marítimos abrirão itinerários na Antártica e mais empresas de viagem investirão na infraestrutura do continente.

Assim como os países se empenham no poder com bases militares e manobras políticas, a Antártica se tornou outro local para que suas rivalidades - e receios - se desenvolvam. "Ninguém pode responder à pergunta (de) quem é dono da Antártica", diz Dodds.

"Eu acho que a Antártica representa, em essência, não apenas o idealismo que o tratado representa, mas também representa a suprema natureza contraditória da humanidade de modo mais geral. Portanto, para todas as coisas que desejamos celebrar na Antártida, há também a feiúra da humanidade".

Ele aponta para alguns grandes sucessos: A Antártica foi o primeiro continente a estar completamente livre de armas nucleares. Ela também é desmilitarizada.

Outro exemplo do potencial do continente para a beleza e a unidade? A bandeira do Sul Verdadeiro, que Dodds admira. "É uma lembrança bem intencionada de que a Antártica é uma maravilha. Ela deve representar o melhor de todos nós".