Adversários tentam barrar prefeito muçulmano de cerimônia do 11/9

Zohran Mamdani, primeiro muçulmano a liderar a cidade, defende sua participação após oposição de adversários políticos e alerta para possível islamofobia

Gloria Pazmino, da CNN
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Rudy Giuliani, líder da cidade de Nova York na época dos ataques de 11 de setembro, diz que se sente "ofendido" pelo fato de o atual prefeito, Zohran Mamdani, comparecer à cerimônia de homenagem de sexta-feira (11).

George Pataki, governador do estado durante a tragédia, afirma que Mamdani deveria manter distância.

Bruce Blakeman, candidato a governador, promete virar as costas para o prefeito caso ele apareça.

As declarações dos três republicanos à imprensa surgem após uma petição — lançada por um homem cuja esposa morreu em 11 de setembro de 2001 — pedir que o convite a Mamdani fosse cancelado, para que o 25º aniversário pudesse ser "centrado na memória, na unidade e na rejeição inequívoca à violência e ao extremismo que marcaram aquele dia".

Mamdani, político progressista que assumiu o cargo de primeiro prefeito muçulmano da cidade em janeiro, sempre afirmou que compareceria à cerimônia no Marco Zero para relembrar e homenagear as vítimas.

A cerimônia em memória deste ano ocorrerá apenas três dias depois de a administração de Mamdani ter divulgado mais de 170 mil documentos mostrando que autoridades — desde a gestão de Giuliani em diante, fossem republicanos, democratas ou independentes — enganaram repetidamente o público sobre a qualidade do ar após o desabamento das torres gêmeas do World Trade Center.

“As pessoas adoeceram porque os líderes em quem confiavam mentiram e disseram que era seguro respirar aquele ar tóxico”, disse Mamdani durante o anúncio, na terça-feira (8), da primeira leva de documentos.

No entanto, ele evitou criticar qualquer pessoa nominalmente, afirmando que caberia ao público fazer qualquer julgamento sobre os ex-líderes dos governos municipal, estadual ou federal.

Nas semanas que antecederam o aniversário do que ele chama de “o dia mais sombrio da história da nossa cidade”, Mamdani visitou quartéis de bombeiros que perderam integrantes de suas equipes e inaugurou homenagens às quase 3 mil pessoas que morreram naquele dia e aos milhares de outros que, desde então, sofreram com doenças relacionadas — e muitas vezes fatais.

Ele instituiu o dia 11 de setembro como o primeiro “Dia de Memória e Serviço” oficial da cidade e, usando uma touca de proteção, ajudou voluntários a preparar refeições para nova-iorquinos que não tinham o que comer.

“Tenho orgulho de ser o prefeito desta cidade; amo esta cidade, amo este país. E quero que, nesta semana, o foco esteja nas famílias cujos entes queridos lhes foram tirados há 25 anos, no terrível ato de terror de 11 de setembro”, disse Mamdani aos repórteres na última segunda-feira (7).

Contudo, o ressentimento em relação à sua presença na cerimônia não dá sinais de diminuir. Enquanto os nomes dos mortos forem lidos e os sinos badalarem nos momentos trágicos, é possível que algumas pessoas também lhe virem as costas.

De certa forma, a retórica atual é semelhante à islamofobia do período após o 11 de setembro, afirmou Scott Hibbard, professor associado e chefe do departamento de Ciência Política da Universidade DePaul, que pesquisa política externa americana, política do Oriente Médio e relações internacionais.

"É possível obter grande repercussão ao politizar o terrorismo", disse ele, acrescentando que tais comentários não surpreendem vindo de republicanos que enfrentam dificuldades políticas antes das eleições de meio de mandato.

Não se espera a presença do presidente Donald Trump em Nova York, mas a participação do vice-presidente JD Vance — que afirmou que o prefeito não demonstrou "nenhuma gratidão" para com a América — está confirmada.

Mamdani, que tinha 9 anos em 2001, falou com entusiasmo sobre como a era depois do 11 de setembro moldou sua vida enquanto crescia na cidade de Nova York.

Seus apoiadores argumentam que as exigências para impedi-lo de participar da cerimônia são injustas.

“É preocupante para mim que o prefeitp esteja sendo tratado de forma diferente simplesmente por ser muçulmano”, disse a vereadora Shahana Hanif à CNN.

“Fico muito triste pelos nova-iorquinos muçulmanos — que também perderam entes queridos e socorristas muçulmanos; todos nós vivenciamos aquilo e, depois, a onda avassaladora de islamofobia que se seguiu e que, infelizmente, ainda persiste", completou ela.

Hanif, a primeira mulher muçulmana eleita para a Câmara Municipal de Nova York, também era criança em 2001 e disse que algumas de suas primeiras lembranças envolviam agressões a membros de sua comunidade que trabalhavam como taxistas.

Muito antes de mergulhar em teorias da conspiração e no negacionismo eleitoral, Giuliani era conhecido como o “Prefeito da América” devido ao que muitos consideravam uma liderança unificadora após os ataques.

No entanto, para muitos muçulmanos da cidade, Giuliani era uma figura divisiva que ajudou a alimentar o sentimento antimuçulmano — algo que continua fazendo até hoje.

“Quem é ele para dizer aos muçulmanos onde eles devem ou não estar?”, disse Hanif sobre a exigência de Giuliani para que Mamdani se mantivesse afastado do Marco Zero.

Os críticos de Mamdani afirmam que são as suas ações que os incomodam.

Eles apontam para a sua postura política progressista, bem como para a sua associação com Hasan Piker — o streamer e ativista de esquerda que disse que os Estados Unidos "mereceram o 11 de Setembro".

Mais tarde, Piker classificou seu comentário como "inapropriado" e afirmou que tentava expressar uma opinião mais matizada sobre a política externa dos EUA.

Desde então, Mamdani descreveu os comentários como "inaceitáveis ​​e condenáveis".

Cheri Sparacio — cujo marido, Tom Sparacio, operador de câmbio da Euro Brokers no 84º andar da Torre Sul, morreu nos atentados — disse que não estava atacando Mamdani por causa de sua religião ou origem.

"Trata-se estritamente das posições políticas que ele defende hoje", disse Sparacio. "É o fato de ele se alinhar atualmente a pessoas como Hasan Piker... é isso que contestamos."

Sparacio, juntamente com outros familiares de vítimas do 11 de Setembro e dois membros da Câmara Municipal, reuniu-se na Prefeitura na terça-feira (8) para entregar uma petição online — assinada por mais de 100 mil pessoas — que pede a Mamdani que não compareça à cerimônia em memória das vítimas, marcada para sexta-feira (11).

Alguns sobreviventes e familiares disseram à CNN, no mês passado, que talvez não compareçam ao evento deste ano.

Mas haverá políticos presentes.

Como fazem há 25 anos, autoridades se reunirão sob uma tenda na praça para acompanhar a leitura dos nomes dos mortos e a observância de minutos de silêncio, enquanto um silêncio inquietante paira sobre Lower Manhattan.

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