Alemanha investiga sabotagens à rede elétrica, com temor de guerra híbrida
Incidente ocorre após Berlim responsabilizar a Rússia por ataque com drones em aeroporto e em meio à ameaça de conflito

A polícia alemã investiga uma segunda tentativa de sabotagem à rede elétrica em 24 horas nesta quarta-feira (2), um dia depois de Berlim responsabilizar a Rússia por uma tentativa de ataque com drones em um aeroporto.
Os incidentes ocorrem em um momento delicado, com o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) — que defende relações mais próximas entre a Alemanha e Moscou — liderando as pesquisas antes de uma eleição estadual neste fim de semana, enquanto Berlim enfrenta uma ameaça crescente de guerra híbrida.
O governo afirmou na terça-feira (1º) ter concluído que a Rússia estava por trás da tentativa de ataque com drones contra um avião cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig/Halle no mês passado. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, disse nesta quarta-feira (2) que o incidente apresentava todas as características de terrorismo patrocinado por um Estado.
Moscou afirma que não há provas que sustentem as acusações de que esteve por trás do ataque, mas as autoridades alemãs estão em alerta máximo para possíveis ataques contra infraestruturas vitais.
“Vandalismo premeditado”
A polícia local informou que investigava um ato de vandalismo premeditado contra a infraestrutura técnica de uma subestação de energia perto da cidade de Bergheim, no oeste do país, na tarde desta terça-feira (1º).
Um porta-voz da polícia disse que o fornecimento de energia na região não foi afetado.
A operadora da rede elétrica Amprion, controlada majoritariamente pela RWE, maior produtora de energia da Alemanha, afirmou que provavelmente houve interferência externa no incidente e que o fornecimento de energia e a estabilidade da rede foram mantidos durante todo o período.
A RWE informou, em um comunicado separado, que o incidente fez com que cinco unidades de usinas termelétricas a lignito, com capacidade combinada de 4.200 MW (megawatts), fossem desligadas da rede.
Uma das unidades afetadas, com capacidade de 600 MW, já foi reconectada, informou a empresa.
Sabotagem na rede elétrica do leste
Também na terça-feira (1º), dispositivos contendo material condutor danificaram linhas de transmissão em um dos pontos de alta tensão mais importantes do estado de Brandemburgo, no leste do país.
O ministro do Interior de Brandemburgo, Jan Redmann, disse que pareciam existir paralelos entre os ataques, mas que as investigações ainda estavam em estágio muito inicial.
Ele afirmou haver algumas diferenças entre o ataque em Brandemburgo e um incêndio criminoso cometido em 2024 por extremistas de extrema esquerda contra o fornecimento de energia da fábrica da Tesla na Alemanha, mas disse que não era possível descartar nenhum suspeito.
Alexander Throm, que preside o comitê de assuntos internos do Parlamento alemão, disse à Reuters que o número de incidentes de interrupção registrados antes da eleição deste fim de semana no estado da Saxônia-Anhalt era “extremamente suspeito”.
Pesquisas de opinião indicam que a AfD, partido anti-imigração com forte apoio no leste do país, pode chegar ao poder pela primeira vez em nível estadual. O partido defende o fim do apoio alemão à Ucrânia e a retomada de acordos de energia com Moscou, que garantiam à Alemanha petróleo e gás baratos até o fornecimento ser interrompido em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia.
Leonhard Birnbaum, CEO da maior operadora de redes de energia da Europa, a E.ON, afirmou no mês passado que a proteção completa da infraestrutura da rede era uma ilusão. Segundo ele, as operadoras podem dificultar ao máximo a ação dos responsáveis, mas não conseguem evitar totalmente os ataques.
Ao pedir uma proteção melhor, Redmann afirmou: “Há apenas algumas semanas, discutíamos extensivamente nossos aeroportos; agora, o foco voltou para as instalações de fornecimento de energia.”


