Aliados de Biden elegem quatro mulheres como favoritas para candidatura a vice

Senadora Kamala Harris desponta como favorita, mas Elizabeth Warren, Val Demings e Keisha Bottoms também aparecem como fortes candidatas

Protestos contra o racismo nos Estados Unidos colocaram a senadora Kamala Harris como principal nome para concorrer a vice-presidente
Protestos contra o racismo nos Estados Unidos colocaram a senadora Kamala Harris como principal nome para concorrer a vice-presidente Foto: Twitter/@KamalaHarris

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O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden está entrando no último mês das suas buscas por um companheiro de chapa e, de acordo com pessoas próximas, o processo de escolha está sendo fortemente influenciado pela discussão nacional a respeito do racismo. A equipe do pré-candidato democrata está buscando o histórico e as falas públicas dos cotados antes de apresentar uma lista de finalistas ao ex-vice-presidente.

A busca está sendo conduzida sob sigilo e envolve assessores, doadores de campanha e muitos amigos de longa data de Biden, que, intencionalmente, estão se mantendo fora dos holofotes. A CNN conversou com mais de uma dúzia de pessoas próximas ao democrata, que acreditam que são quatro as principais candidatas: as senadoras Kamala Harris (Califórnia) e Elizabeth Warren (Massachussets), a deputada Val Demings (Flórida) e a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms.

“Todo o caminho que isso (discussões sobre racismo) passou está sendo um real e sério impacto nas buscas”, afirmou o deputado Jim Clyburn, um dos principais democratas na Câmara dos Representantes, com laços próximos à campanha de Biden. “Você pode fazer uma busca para ir dando check em uma lista ou você pode fazer uma busca para ter um companheiro de chapa. Eu acredito que essa busca irá ser mais sobre escolher um companheiro de chapa mais do que sobre checar uma lista”.

Times separados de advogados encarregados de cada um dos competidores estão se aproximando das últimas etapas de revisão de três tipos distintos de registros — escritos, financeiros e médicos — em seu processo de checagem, de acordo com pessoas envolvidas no processo. Membros do comitê de busca fizeram entrevistas extensas com diversas candidatas, dizem as fontes à CNN, mas Biden não está disposto a sentar com finalistas até a segunda quinzena de julho, com a expectativa de anunciar a escolha no começo de agosto.

“A colonoscopia da verificação está acontecendo agora”, disse um oficial democrata envolvido no processo, que falou em condição de anonimato para tratar da privacidade em torno da seleção. 

A busca é um processo dinâmico, mas os envolvidos dizem que ele já evoluiu de forma significativa desde que começou e as fontes alertam que pode sofrer alterações conforme a verificação se intensificar. O objetivo é ter uma lista de opções para Biden, especialmente se alguém que antes era favorito cair em complicações.

Susan Rice, ex-assessora de segurança nacional do governo Obama, está sendo analisada, dizem duas fontes próximas, assim como a deputada Karen Bass (Califórnia), que foi fortemente indicada a Biden pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi. O deputado Jim Clyburn confirmou à CNN que Bass “está sendo verificada”. 

As senadoras Tammy Baldwin (Wisconsin) e Tammy Duckworth (Ilinóis) também estão em um cenário mais amplo de consideração. Um assessor da campanha se recusou a comentar sobre quem a campanha de Biden está avaliando.

Protestos contra o racismo

Os protestos por todo o país em resposta às muitas mortes de homens e mulheres negros nas mãos da polícia alteraram ao menos parte do pensamento em torno da busca por um companheiro de chapa, disseram à CNN pessoas próximas ao processo, escaladas para liderar um comitê que prepara a forma como a escolha de companheiro por parte do ex-vice-presidente será apresentada, enquanto resposta às movimentações da sociedade americana.

“No último mês, mais ou menos, nós vimos uma real e significativa mudança na opinião pública em termos de assuntos raciais e policiais, de uma forma que impacta o cálculo político sobre isso”, disse um democrata, citando recentes mudanças em pesquisas sobre os sentimentos dos americanos, que foram do racismo estrutural a um apoio ao movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”).

O comitê de busca está “se certificando de que a escolha deles esteja alinhada com a mensagem mais importante deste outono”, disse a fonte. Enquanto uma parcela considerável da verificação está sendo feita em campo aberto, com Biden falando extensivamente sobre selecionar alguém que compartilhe da sua filosofia de governo, times de advogados passam semanas cavando nos bastidores de vários candidatos.

Esta busca é oficialmente liderada pelo prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, pelo ex-senador Chris Dodd (Connecticut), pela deputada Lisa Blunt Rochester (Delaware) e por Cynthia Hogan, ex-conselheira de Biden, todos envolvidos nas entrevistas dos competidores. Lisa Monaco, ex-secretária de segurança interna no governo Obama, também está exercendo um papel-chave na condução dos times de verificação.

Um manifestante levanta o punho durante uma manifestação.
Um manifestante levanta o punho durante uma manifestação em 1 de junho de 2020, em Las Vegas.
Foto: John Locher/AP

De escrutinar casos que Harris processou na Califórnia até analisar queixas feitas contra Demings, enquanto a hoje deputada era chefe da polícia de Orlando, a vasculhar artigos acadêmicos e de opinião escritos por Susan Rice e Elizabeth Warren, os times de advogados ainda estão aprendendo sobre os bastidores dos potenciais candidatos.

A pandemia do novo coronavírus transformou alguns aspectos da verificação, com boa parte da pesquisa e das conversas acontecendo virtualmente ao invés de advogados viajando pelo país para escavar cada capítulo das vidas dos possíveis companheiros de chapa. Apesar disso, o objetivo é o mesmo: procurar qualquer coisa embaraçosa, distrativa ou que pode causar qualquer outro problema para Biden, que disse que ele escolherá alguém que esteja pronta para ser presidente desde o primeiro dia.

“Todas as pedras estão sendo tiradas do caminho, apenas não necessariamente em pessoa”, disse uma pessoa próxima ao processo. Uma vez que vários dos possíveis competidores são pouco conhecidos nacionalmente, a campanha de Biden está também conduzindo grupos focais, com discursos e vídeos dos candidatos apresentados para analisar a reação do eleitor. Isso é tipico das últimas escolhas para vice-presidente, mas conselheiros disseram que esse critério pode ganhar mais importância neste ano, por causa das dinâmicas únicas deste ano.

O objetivo de Biden não mudou, dizem várias pessoas próximas a ele, mesmo com o foco político tendo sido dramaticamente alterado pelos protestos contra o racismo, a injustiça e a violência policial. Três meses atrás, Biden anunciou que escolheria uma mulher como candidata a vice-presidente. Apesar do discurso oficial, as favoritas são todas mulheres negras, com exceção de Warren.

Amy Klobuchar

O impacto do momento atual está sendo sentido na busca, especialmente no que diz respeito à decisão da senadora Amy Klobuchar (Minnesota) de sair da corrida depois que a sua cotação caiu vertiginosamente após semanas de publicidade negativa a respeito da sua interação com a política enquanto foi a principal promotora do maior condado do seu estado.

“Esse é um momento histórico e os Estados Unidos devem aproveitar esse momento”, disse Klobuchar, ao anunciar que ela estava se colocando fora de consideração. “E eu realmente acredito, como eu disse ao ex-vice-presidente quando eu liguei para ele ontem à noite, que este é o momento de colocar uma mulher negra naquela chapa”.

Esta é uma posição que lideranças democratas estão assumindo forçosamente — de forma pública — e que os integrantes do processo estão ouvindo esses pleitos. Os eleitores negros também exerceram um papel fundamental na vitória de Biden nas primárias, um ponto que não foi esquecido pela sua campanha.

“O ambiente se tornou tão influenciado pela questão racial que a pressão para escolher uma mulher negra aumentou de forma significativa”, disse outro democrata próximo ao debate interno.

Calendário

Alguns líderes do Partido Democrata acreditam que a pressão pode transferir o anúncio de Biden na linha do tempo da seleção de um parcerio de chapa. O ex-vice-presidente afirmou repetidas vezes que pretende tomar uma decisão em torno de 1º de agosto, mas alguns democratas acreditam que os protestos pelo país e a pressão para que Biden escolha uma mulher negra podem antecipar essa data.

“Em meio ao momentum [expressão da política americana que se refere ao sentimento político de ascensão de um candidato ou de uma ideia] do apoio a uma mulher negra candidata a vice-presidente, que continua a se intensificar, aumenta também a pressão para que o ex-vice-presidente Joe Biden anuncie a sua decisão mais cedo do que tarde”, disse Karen Finney, que trabalhou como assessora do senador Tim Kaine, quando este concorreu a vice na chapa de Hillary Clinton em 2016.

Biden disse a várias pessoas que o seu critério ainda inclui, mas não está restrito a isso, alguém que tenha se apresentado como pré-candidato a presidente e que já tenha sido testado no cenário nacional, assim como alguém que ele acredite que possa ser um forte parceiro para governar. Esses pontos continuam importantes, o que leva mais de uma dúzia de pessoas próximas a Biden dizerem à CNN que eles acreditam que Kamala Harris entre no último mês como a favorita.

“Ele precisa de alguém em quem ele confie, que seja o melhor parceiro de governo possível”, disse um aliado de longa data de Biden à CNN. “Isso não mudou”.

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Obama

Faz 12 anos neste verão desde que Barack Obama escolheu Joe Biden para ser seu candidato a vice-presidente. Os dois não eram exatamente próximos, mas Obama disse aos seus aliados à época que a experiência de Biden e o fato de que ele já havia sido testado nacionalmente eram essenciais. Hoje, os mesmos sentimentos moldam o pensamento de Biden.

Aliados dos dois, Obama e Biden, afirmam que hoje o ex-presidente é mais um conselheiro do pré-candidato do que alguém que tentaria convencê-lo de um candidato específico. Os dois conversam regularmente sobre o momento político vivido pelo país, dizem às fontes, mas eles ainda não tiveram uma discussão aprofundada a respeito dos finalistas considerados por Biden.

Barack Obama foi, inicialmente, um defensor enfático de Elizabeth Warren, principalmente pelas suas ideias centrais para reviver a economia e combater a desigualdade de renda. No entanto, pessoas próximas a ele reconhecem que é impossível separar a escolha do candidato a vice-presidente com os eventos do último mês no país.

Relatório

E enquanto o comitê de Biden está trabalhando em secreto por semana, duas das pessoas mais influentes no processo de seleção — Bob Bauer, advogado pessoal de Biden que está liderando verificações, e Anita Dunn, uma alta oficial da campanha de Biden — foram parte de um relatório do Centro Bipartidário de Política que fala sobre as melhores formas de buscar um candidato a vice.

O documento diz que apesar das checagens e aconselhamentos serem importantes, “a consideração mais importante para um candidato escolhido é conhecer ou tentar conhecer os possíveis candidatos a vice-presidente pessoalmente”. O relatório recomenda que o nomeado tente passar vários dias com cada um dos possíveis candidatos.

No entanto, isso pode se mostrar algo difícil para Biden nas próximas semanas. A campanha reduziu drasticamente os eventos em pessoa em meio à pandemia do coronavírus, com arrecadações de recursos sendo feitas virtualmente e todos os eventos limitados ao escopo das orientações de saúde pública.

Biden vem buscando outras formas de testar a sua química política com as mulheres na lista preferencial, incluindo aparecer junto com ela eventos por videoconferências ou entrevistas para a TV.

Aliados de Biden dizem repetidamente que o conforto pessoal com a escolha será o principal critério para o ex-vice-presidente, que abartamente fala sobre a amizade desenvolvida ao longo de oito anos trabalhando ao lado de Obama.

A decisão final também é esperada para ser mantida bem guardada até que seja anunciada pela campanha, uma estratégia que Bauer e Dunn detalharam no relatório de 2016. “O aviso ao escolhido para ser candidato a vice-presidente deve ser feito antes do anúncio ao público, mas apenas um ou dois dias antes”, orientaram os especialistas em seu trabalho acadêmico.

(Texto traduzido. Leia versão original, em inglês)

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