Análise: A conversa entre Lula e Trump e os interesses dos EUA

Contato entre presidentes é feito em um momento complexo para o líder americano

Da CNN Brasil
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O presidente Lula (PT) fez um movimento estratégico ao pedir cooperação no combate ao crime organizado em conversa por telefone com líder dos Estados Unidos, Donald Trump, observou o analista internacional Lourival Sant'Anna no Fora da Ordem, o videocast de geopolítica da CNN Brasil.

O especialista pontua que, durante a conversa, Lula expressou a necessidade de assistência americana para enfrentar organizações criminosas que utilizam o sistema financeiro dos Estados Unidos para movimentar recursos ilícitos.

O contato foi feito em um momento em que Trump está pressionado dentro dos Estados Unidos pelas operações militares no Caribe e Pacífico e a sua estratégia para a Venezuela, lembra Lourival.

Contexto geopolítico favorável

A abordagem de Lula surge em um cenário complexo para Trump, que tem sido criticado pela mobilização no entorno da Venezuela.

Para o presidente americano, a parceria com o Brasil representa uma oportunidade demonstrar capacidade de projeção de poder na América do Sul sem recorrer a ameaças militares, avalia Lourival Sant'Anna.

O Brasil, como maior país da América Latina, oferece a Trump um contraponto à situação venezuelana.

Para o analista, a cooperação proposta por Lula permite que o presidente americano apresente ao seu eleitorado a narrativa de que tem cooperado com outros países para combater o narcotráfico, e que o caso da Venezuela seria uma exceção, por causa do regime.

Interesses econômicos em jogo

Além do combate ao crime organizado, Lourival ressalta outros interesses, incluindo um investimento americano de 460 milhões de dólares em uma planta de exploração de terras raras no interior de Goiás.

O projeto, ainda em fase piloto, está sendo desenvolvido pela empresa peruana Clara, que possui capital aberto na Bolsa de Toronto.

A questão da produção de alimentos também foi abordada, considerando que os Estados Unidos não produzem determinados itens em quantidade suficiente para seu consumo interno. Esta complementaridade econômica fortalece o potencial de cooperação entre os dois países.

A aproximação entre Lula e Trump representa uma mudança significativa na política externa americana para o Brasil.

Embora Trump tenha mantido seu alinhamento com o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirma Lourival, ele tem redirecionado a estratégia ao perceber que as chances de Bolsonaro reverter a condenação e a prisão por tentativa de golpe são remotas.