Análise: Arábia Saudita foi arrastada para uma guerra que tentou evitar

Reino enfrenta ataques de mísseis Houthis, drones iraquianos e ameaças do Irã, colocando em risco sua estratégia de estabilidade regional

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A Arábia Saudita passou cinco meses tentando não ser arrastada para um conflito regional, mantendo canais de comunicação abertos com Teerã mesmo enquanto drones iranianos tinham como alvo sua indústria petrolífera.

Agora, parece estar cercada, enfrentando inimigos em três frentes: o Irã, além de seus aliados no Iraque e no Iêmen.

Na última semana, o reino enfrentou ataques de mísseis dos Houthis apoiados pelo Irã no Iêmen, ataques de drones de milícias pró-iranianas no Iraque e novas ameaças de Teerã.

Na madrugada de terça-feira (28), horário local, ficou claro que a contenção não era mais uma opção, seus caças, juntamente com aviões dos EUA, realizaram ataques em todo o leste do Iraque.

Mas as apostas são altas.

Envolver-se em um conflito mais amplo seria uma opção arriscada e potencialmente custosa para Riad. Ao longo da última década, o foco esteve em abrir o reino ao investimento estrangeiro e torná-lo a potência econômica regional.

Isso, em parte, impulsionou sua política de distensão com o Irã muito antes da guerra, o que levou a um acordo mediado pela China em 2023.

Essa estratégia está agora por um fio, à medida que a Arábia Saudita se vê no olho do furacão. Enfrentar adversários imprevisíveis, experientes em guerra assimétrica, em três frentes é o pesadelo de qualquer planejador militar.

A Arábia Saudita gastou dezenas de bilhões de dólares modernizando suas forças armadas e adquirindo defesas antimísseis de última geração, mas possui uma enorme extensão territorial (cerca de um quinto do tamanho dos Estados Unidos), costas a defender e sua infraestrutura petrolífera está amplamente dispersa.

A ameaça Houthi

No fim de semana, os Houthis dispararam mísseis contra dois complexos petrolíferos sauditas na costa do Mar Vermelho. Imagens de satélite e vídeos geolocalizados sugerem danos extensos a uma dessas instalações, em Jazan, perto da fronteira com o Iêmen.

Os ataques de mísseis ocorreram após ataques Houthis a dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, depois que o grupo anunciou um bloqueio à navegação saudita que transita pelo ponto de estrangulamento de Bab Al-Mandeb. Os Houthis reivindicaram um novo ataque a uma embarcação saudita na segunda-feira.

Para os sauditas, que redirecionaram grande parte de suas exportações de petróleo para portos do Mar Vermelho, como Yanbu, enquanto Ormuz permanece paralisado, o bloqueio representa uma escalada significativa.

Eles planejam uma expansão adicional das exportações de petróleo pelo Mar Vermelho, para cerca de 9 milhões de barris por dia ao longo dos próximos três anos. Mas os petroleiros que partem de Yanbu em direção aos mercados asiáticos precisam cruzar Bab al-Mandeb, deixando cerca de três quartos das exportações pelo Mar Vermelho expostas a perturbações dos Houthis, segundo analistas.

A Arábia Saudita passou sete anos tentando, sem sucesso, expulsar os Houthis do norte do Iêmen, lançando uma ofensiva em larga escala contra o grupo militante em 2015. O conflito resultante provocou uma das piores crises humanitárias do mundo.

Uma trégua foi acordada em 2022, mas nunca se transformou em paz. A Arábia Saudita manteve um bloqueio econômico e aéreo contra as áreas controladas pelos Houthis.

No início deste mês, os Houthis acusaram a Arábia Saudita de bombardear o aeroporto da capital, Sanaa, para impedir o pouso de um voo direto vindo de Teerã, após ele ter ignorado avisos para desviar a rota.

O voo transportava uma delegação Houthi que retornava do funeral do ex-Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei. Mas "a atenção também se voltou para o que mais poderia ter sido transportado a bordo da aeronave", afirma Nawaf Obeid, do Departamento de Estudos de Guerra do King"s College London.

Isso desencadeou o novo ciclo de violência, que culminou nos ataques com mísseis ocorridos no fim de semana.

"Todas as linhas vermelhas foram cruzadas, todos os botões (sauditas) foram pressionados (pelos Houthis)", afirma o analista Mohammed al Basha.

Uma grande força de combatentes iemenitas hostis aos Houthis está se reunindo nos desertos do leste do Iêmen, disse uma fonte regional à CNN na segunda-feira. Se avançar, ela contaria com o apoio da força aérea saudita, incluindo helicópteros de ataque Apache.

Por ora, porém, a resposta saudita deve se limitar a ataques aéreos, segundo analistas. Na sexta-feira (24), a força aérea saudita atacou o porto de Hodeidah, o maior sob controle dos Houthis, em retaliação aos ataques contra petroleiros.

A força aérea saudita é muito mais capaz do que há 10 anos, segundo Obeid, na detecção, rastreamento e engajamento de ameaças militares dispersas. Ela integrou sistemas de uma forma que "reduz dramaticamente o tempo entre a detecção e o engajamento."

Mas também existe a possibilidade de que os Houthis possam ser comprados; eles frequentemente exigiram dinheiro para sua enorme folha de pagamento de funcionários públicos e milícias.

"Os Houthis parecem estar seguindo o manual norte-coreano, usando ciclos recorrentes de provocação para extrair concessões políticas e econômicas… transformando seus territórios ao sul da Arábia Saudita e do Mar Vermelho em seu palco", segundo Basha.

Se eles virariam as costas para seus patrocinadores iranianos em troca de dinheiro saudita permanece incerto.

A ameaça do Iraque

Entre os palmeirais do sul do Iraque, milícias pró-iranianas lançaram dois ataques de drones visando infraestruturas críticas sauditas e a capital Riad na segunda e na terça-feira, segundo o ministério da defesa saudita. Os Houthis podem ter fornecido a essas milícias assistência técnica, de acordo com analistas.

A paciência de Riad se esgotou. E no início da terça-feira, ela "conduziu ataques precisos e direcionados" contra milícias no leste do Iraque "ligadas aos ataques às instalações petrolíferas no Reino", segundo o Ministério da Defesa.

Havia uma nova linha vermelha. "O Reino enfatiza que não busca escalada, mas responderá a qualquer agressão que enfrente", acrescentou o ministério.

"Um número de pessoas" foi morto e ferido nos ataques, segundo as Forças de Mobilização Popular, o grupo guarda-chuva das milícias.

O CENTCOM (Comando Central dos EUA) afirmou que a operação conjunta foi "uma resposta contundente" a mais de 30 ataques de drones que, segundo ele, foram dirigidos pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana.

Nas primeiras semanas da guerra, centenas de drones foram disparados do Iraque em direção a instalações dos EUA na Arábia Saudita, segundo o CENTCOM. Apesar do cessar-fogo no conflito, alguns outros se seguiram em maio.

Os oficiais sauditas não terão esquecido o ataque preciso e devastador à refinaria de Abqaiq em 2019, que eliminou quase metade da produção de petróleo da Arábia Saudita.

Os Houthis reivindicaram o ataque, mas fontes de inteligência disseram à CNN na época que ele provavelmente havia partido do Iraque. Naquela ocasião, a Arábia Saudita optou por não retaliar, mas culpou o Irã pelo ataque.

A ameaça do Irã

Em março e abril, as autoridades sauditas correram para investir em tecnologia antidrone enquanto drones Shahed iranianos tinham como alvo instalações petrolíferas em sua costa leste. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky visitou Riad para oferecer um sistema defensivo integrado contra os enxames de drones iranianos.

Mas tal aparato não é instalado da noite para o dia. A Arábia Saudita ainda enfrenta a dupla ameaça de drones iranianos e mísseis balísticos de curto alcance provenientes do outro lado do Golfo.

Embora o Irã não tenha atacado diretamente a Arábia Saudita desde abril, seu ministério das Relações Exteriores afirmou novamente esta semana que "alguns países do Golfo Pérsico participaram de forma independente de ataques militares contra o Irã. Os EUA são responsáveis pelos ataques, mas o papel de alguns países da região não pode ser ignorado."

A Arábia Saudita realizou alguns ataques aéreos contra o Irã no início do conflito, mas eles foram cuidadosamente calibrados, de acordo com um diplomata familiarizado com os acontecimentos.

Foi uma resposta proporcional, concebida para demonstrar que o reino poderia se defender "caso os EUA não estejam por perto", disse o diplomata à CNN em maio.

Caso a Arábia Saudita volte a sofrer ataques de mísseis e drones iranianos, ela poderá se deparar com uma escolha difícil: responder diretamente de uma forma que a envolva mais profundamente na guerra, ou virar a outra face e encorajar um regime de Teerã que muitos consideram mais linha-dura do que antes da guerra.

A Arábia Saudita já enfrenta um impacto econômico significativo decorrente do conflito. Nos primeiros três meses deste ano, registrou seu maior déficit trimestral desde 2018, ao aumentar os gastos para compensar os efeitos da guerra e de uma economia lenta.

O déficit foi parcialmente compensado por receitas mais elevadas provenientes do petróleo mais caro, mas uma maior perturbação na produção e nas exportações de petróleo colocaria isso em risco. Muitos dos megaprojetos do reino já foram reduzidos.

Uma vizinhança perigosa

Em última análise, a Arábia Saudita está no centro de uma vizinhança que parece mais ameaçadora e volátil do que era em 28 de fevereiro, o dia em que a guerra começou.

Autoridades sauditas foram surpreendidas pelo estilo imprevisível das políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao Irã e a Gaza.

Embora a cooperação militar entre a Arábia Saudita e os EUA permaneça estreita, há uma apreensão mais ampla em Riad de ser deixada sozinha para enfrentar um Irã mais beligerante e assertivo, caso o interesse americano diminua.

O reino e seus aliados estão em uma encruzilhada. Não ajuda o fato de que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão apenas agora começando a reparar as relações marcadas pela saída repentina dos EAU do cartel petrolífero OPEC, pelas divergências sobre o conflito com o Irã e por uma ruptura sobre a quem apoiar contra os Houthis no Iêmen.

A Arábia Saudita claramente decidiu agora que há um limite para o quanto pode absorver de punição antes de revidar.

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