Análise: As perguntas sem respostas em meio ao escândalo do príncipe Andrew

Monarquia britânica enfrenta nova onda de críticas após lançamento de livro de Virginia Giuffre, vítima de Epstein que acusou o integrante da família real de agressão sexual

Lauren Said-Moorhouse, da CNN
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A família real britânica retirou os títulos reais do príncipe Andrew e ordenou que ele deixasse o Royal Lodge, a mansão de 30 quartos nos jardins do Castelo de Windsor, onde reside desde 2003.

A ação foi tomada devido a crescente pressão por conta de sua associação com o ex-financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

Uma avalanche de manchetes surgiu nos últimos dias, antecedendo o lançamento do livro de memórias póstumas "Nobody"s Girl" (Garota de Ninguém), de Virginia Giuffre. A mulher alegava ter sido vítima de Epstein, além de acusar Andrew de agredi-la sexualmente quando ainda era adolescente.

A família real esperava que a decisão de Andrew de renunciar ao uso de seus títulos reais na semana passada encerrasse a saga. Mas não foi o que aconteceu.

Outrora celebrado como herói de guerra condecorado, Andrew foi afastado da família real, nem mesmo sendo convidado para passar o Natal na propriedade de Sandringham, segundo uma fonte.

Andrew insiste que nunca conheceu Giuffre, e sempre negou as acusações de irregularidades contra ele. Críticos afirmam que a família real e o governo britânico precisam ir além para responsabiliza-lo pelo caso.

Virginia Giuffre morreu vítima de um suicídio em abril, aos 41 anos.

Qual era a proximidade entre Andrew e Epstein?

O príncipe Andrew, agora utilizando apenas o nome Andrew Mountbatten-Windsor, foi uma das muitas personalidades de alto perfil que se associaram a Epstein. Andrew disse que os dois foram apresentados pela ex-namorada do criminoso, Ghislaine Maxwell, em 1999.

Posteriormente, ele afirmou que se encontravam "com pouca frequência", acrescentando que seus encontros ocorriam "provavelmente não mais do que uma ou duas vezes por ano".

Andrew também admitiu ter se hospedado em várias propriedades do financista, que foi encontrado morto em sua cela de prisão em Nova York em 2019, enquanto aguardava um julgamento por acusações federais de tráfico sexual.

Sabe-se que Andrew participou de um evento beneficente na propriedade Mar-a-Lago de Donald Trump na Flórida em 2000, no qual Maxwell também estava presente, conforme fotografias publicadas em um jornal local na época.

Meses depois, Epstein e Maxwell se misturaram à realeza em uma festa no Castelo de Windsor, organizada pela Rainha Elizabeth II. O evento celebrou o 40º aniversário de Andrew, assim como o 50º aniversário da princesa Anne, o 100º da rainha Mãe e o 70º da princesa Margaret.

De acordo com o jornal britânico The Sun on Sunday, Andrew posteriormente convidou o casal para retornar a Windsor em 2006 para o baile de 18 anos de sua filha, a Princesa Beatrice.

Em 2008, dois anos depois, Epstein se declarou culpado de duas acusações estaduais de prostituição e foi registrado como agressor sexual em um acordo que o permitiu evitar acusações federais.

Quando Andrew cortou laços com Epstein?

A longa amizade levantou questões persistentes sobre o julgamento de Andrew, considerando sua posição na época como integrante ativo da realeza, status que ele abandonou em 2019.

Em seu livro, Virginia Giuffre detalha as três ocasiões em que supostamente teve relações sexuais com Andrew – em Londres, Nova York e na ilha caribenha de Epstein, Little St. James.

A mulher afirmou que Andrew adivinhou corretamente que ela era menor de idade nos Estados Unidos quando foram apresentados, e que Epstein lhe deu 15.000 dólares  "por servir o homem que os tabloides chamavam de "Randy Andy", uma gíria britânica por sua reputação de sair com diversas mulheres.

A mulher também reiterou uma alegação de uma declaração juramentada de 2015 de que o terceiro encontro foi "uma orgia" na ilha de Epstein com o financista e "aproximadamente outras oito garotas" que "aparentavam ter menos de 18 anos e mal falavam inglês."

Andrew chegou a um acordo extrajudicial com Giuffre em 2022 após ela ter apresentado uma ação civil contra ele em Nova York. Embora não tenha admitido irregularidades, Andrew reconheceu o sofrimento de Giuffre como vítima de tráfico sexual.

O membro da realeza sempre negou todas as acusações contra ele e insistiu que nunca testemunhou ou suspeitou de qualquer comportamento do qual Epstein foi acusado. Em uma entrevista à BBC em 2019, que se tornou notória, Andrew disse que havia cortado todos os laços com Epstein em 2010.

No entanto, um e-mail recentemente revelado de 2011 colocou essa afirmação em dúvida. No início desse mês, os jornais britâncos The Mail on Sunday e The Sun on Sunday relataram que Andrew aparentemente entrou em contato com Epstein mais uma vez, dizendo para ele "manter contato" e que eles estavam "juntos nessa".

Andrew não respondeu às reportagens e a CNN entrou em contato solicitando comentários.

Enquanto isso, a Polícia Metropolitana de Londres informou que está "investigando ativamente" uma reportagem do Mail on Sunday que afirma que Andrew, em 2011, pediu a um policial designado como seu guarda-costas para procurar informações comprometedoras sobre Giuffre.

Uma fonte real disse à CNN que a alegação deve ser "examinada de maneira apropriada."

O que e quanto a família real sabia?

Ainda não está claro o que a família real, ou outros integrantes da realeza, sabiam sobre a extensão do relacionamento de Andrew com Epstein, e quando tomaram conhecimento.

A entrevista à BBC em 2019 foi gravada no Palácio de Buckingham, mas o nível de conhecimento da família real sobre sua amizade com Epstein permanece incerto.

Tanto sua equipe quanto sua escolta de segurança estavam cientes de seus movimentos durante o período em que se associou a Epstein. No entanto, a família real não se pronunciou publicamente sobre nenhum desses aspectos.

Por que Andrew não foi destituído de seus títulos?

O comportamento de Andrew colocou o rei Charles III em uma posição difícil: efetivamente banir seu irmão como um "exilado real" ou permitir que as constantes manchetes negativas arriscassem causar mais danos à reputação da instituição.

Andrew já havia se afastado de suas funções oficiais em 2019 e foi destituído de seus títulos militares e patronatos de caridade pela falecida rainha Elizabeth II em 2022. Mas o palácio claramente sentiu que algo mais precisava ser feito para interromper o aparentemente bombardeio de manchetes sensacionalistas.

Assim, na semana passada, Andrew anunciou que deixaria de usar seu título de duque de York, além de renunciar a outros títulos e honrarias concedidos pela família real ao longo dos anos.

Ele também era conhecido como Conde de Inverness e Barão de Killyleagh, Cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem Real Vitoriana e Cavaleiro Real Companheiro da Nobilíssima Ordem da Jarreteira.

Andrew disse que a decisão foi tomada em consulta com o rei Charles, bem como com outros membros da família real, porque as "acusações contínuas" estavam desviando a atenção do trabalho da família. "Decidi, como sempre fiz, colocar meu dever para com minha família e país em primeiro lugar", acrescentou.

E aí está o problema – mantendo isso em família significa que ele não abriu mão dos títulos; ele apenas deixou de usá-los, e tecnicamente ainda os mantém.

Andrew se tornou duque, o posto mais alto no sistema britânico de nobreza hereditária, quando se casou com sua ex-esposa Sarah Ferguson em 1986. Remover o título requer um ato do parlamento, que seria um processo prolongado.

Mas críticos, incluindo o irmão de Virginia Giuffre, dizem que é necessária uma maior responsabilização.

Por fim, na quinta-feira (30), que o rei Charles III decidiu tomar a medida extraordinária de retirar formalmente os títulos e honrarias de Andrew.

Entende-se que o monarca está enviando mandados reais ao Lorde Chanceler, um integrante do gabinete do Reino Unido, para remover o título de Duque de York de Andrew do Registro de Nobreza bem como o título de príncipe e o tratamento honorífico de "Alteza Real".

Os outros títulos subsidiários de Andrew – Conde de Inverness e Barão de Killyleagh – estão recebendo as mesmas medidas.

Andrew foi nomeado duque, o título mais alto no sistema de nobreza hereditária britânica, quando se casou com sua ex-esposa Sarah Ferguson em 1986.

Embora Andrew fosse oficialmente conhecido como Duque de York, esse título não é familiar para muitas pessoas fora do Reino Unido. No fim das contas, o que importa é o status de príncipe.

Andrew tornou-se príncipe automaticamente ao nascer, por ser filho da monarca da época, e esse status só pode ser alterado se o rei Charles emitir uma diretiva conhecida como carta-patente.

Apesar do anúncio de quinta-feira (30), Andrew permanece em oitavo lugar na linha de sucessão ao trono britânico. Essa posição poderia ser revogada por lei, mas isso exigiria o consentimento das nações da Commonwealth em todo o mundo, o que levaria tempo.

A última vez que esse protocolo foi utilizado foi quando Eduardo VIII abdicou em 1936.

Por que Andrew ainda vive na propriedade real?

Apesar dos escândalos, Andrew continuou vivendo com sua ex-esposa no Royal Lodge, uma mansão de 30 cômodos na propriedade de Windsor, nos arredores de Londres, apesar das tentativas relatadas de Charles para persuadi-lo a se mudar. Ele garantiu um contrato de arrendamento de 75 anos sobre a propriedade em 2003.

Os lucros da propriedade são pagos ao governo britânico, e a indignação aumentou ainda mais depois que foi revelado que os termos do contrato de aluguel significam, na prática, que Andrew nunca pagou aluguel pelo imóvel.

O contrato de arrendamento exigia um pagamento inicial único de £1 milhão (US$ 1,34 milhão). Além disso, ele teve que pagar mais £7,5 milhões (US$ 10 milhões) para cobrir as reformas concluídas em 2005, de acordo com um relatório do National Audit Office (Escritório Nacional de Auditoria).

Após esses custos iniciais, o contrato estipula que Andrew pagou um aluguel anual de “um grão de pimenta (se exigido)”, conforme mostra uma cópia do contrato de arrendamento do Royal Lodge.

O contrato também inclui uma cláusula que obriga a Crown Estate a pagar a Andrew £558.000 (US$ 743.600) caso ele desocupasse a propriedade antes do prazo.

"O National Audit Office analisou os acordos de arrendamento de Royal Lodge em 2005 e, em seu relatório publicado na época, concluiu que a Crown Estate não possui procedimentos especiais ao negociar acordos com a Família Real", disse o porta-voz de Downing Street.

"Uma avaliação independente concluiu que a transação com o Príncipe Andrew e Royal Lodge foi apropriada."

Mesmo assim, nos últimos dias, tem aumentado a pressão para que Andrew deixe a propriedade, localizada em Windsor Great Park, próxima à capela utilizada pela família real.

Geoffrey Clifton-Brown, presidente do Comitê de Contas Públicas, escreveu à Coroa e ao Tesouro do Reino Unido solicitando mais informações sobre a Residência Real.

"Isso faz parte de nossa missão de longa data, em nome do Parlamento e do público britânico, de examinar a economia, a eficiência e a eficácia dos gastos públicos e garantir que o contribuinte esteja recebendo o melhor custo-benefício", disse Clifton-Brown em um comunicado.

Uma pesquisa da YouGov publicada em outubro revelou que quatro em cada cinco britânicos apoiariam a destituição formal de Andrew de seu título.

O Palácio pode ter sentido que não tinha outra opção a não ser ordenar que Andrew deixasse a residência, dado o aumento do escrutínio dos parlamentares e o escândalo iminente.

Existem outros escândalos envolvendo Andrew?

O príncipe Andrew também tem enfrentado intensos questionamentos sobre seus negócios com a China e seu contato com um suposto espião chinês. Documentos judiciais revelaram o aparente relacionamento próximo do príncipe com o empresário Yang Tengbo.

Em uma audiência tribunal em dezembro de 2024, que manteve a decisão anterior de proibir Yang de entrar no Reino Unido, foi revelado que o empresário chinês estava autorizado a agir em nome do príncipe Andrew durante reuniões de negócios com potenciais investidores chineses no Reino Unido.

Além disso, a audiência também revelou que Yang foi convidado para a festa de 60 anos de Andrew em 2020. Durante toda a investigação governamental sobre o relacionamento, o empresário negou qualquer irregularidade.

O gabinete de Andrew informou na ocasião que o príncipe encerrou seu relacionamento com Yang após receber orientações do governo.

Enquanto isso, novos documentos divulgados este ano revelaram que Andrew enviava feliz aniversário todos os anos ao líder chinês Xi Jinping. Uma declaração de um ex-assessor do príncipe revelou que Andrew mantinha um "canal de comunicação" com a China através de Yang, mas insistiu que não havia "nada a esconder."

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