Análise: Como a economia explica parte da virada democrata nos EUA

Inflação, guerra no Irã e menor poder de compra da classe média são alguns dos pontos; eleitores estabeleceram uma ligação direta entre as principais políticas de Donald Trump e suas preocupações financeiras

David Goldman, da CNN
À primeira vista, não é tão complicado.

O presidente Donald Trump e os republicanos no Congresso foram eleitos em novembro de 2024 para consertar a economia. Agora estamos em novembro de 2026, e os americanos estão ainda mais insatisfeitos com a situação do que estavam dois anos atrás.

"É a economia, estúpido."

Mas, com todo o respeito a James Carville, a questão não é bem tão simples assim.

A economia americana está em uma situação surpreendentemente boa. O desemprego está baixo — o suficiente para que economistas considerem que os Estados Unidos estão em uma situação de "pleno emprego". Os gastos dos consumidores, a base da economia americana, permaneceram relativamente resilientes. E a revolução da inteligência artificial (IA) acelerou um motor econômico tão poderoso que a expectativa é que ela provoque o maior ciclo de expansão de gastos da história moderna dos Estados Unidos.

Se a economia está tão forte, por que os americanos se voltaram contra os republicanos apenas dois anos depois de terem levado o partido ao poder?

A inflação voltou, e os eleitores estabeleceram uma ligação direta entre as principais políticas de Trump e suas preocupações financeiras. Tarifas. Regulação pouco rigorosa da IA. Restrições rígidas à imigração. E, especialmente, a guerra no Irã.

"Se não fosse pela guerra no Irã, esta seria uma eleição de meio de mandato muito diferente", afirmou Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union.

O custo de vida

Os americanos ainda não se recuperaram do aumento significativo dos preços de... bem, praticamente tudo... desde 2021.

A inflação havia voltado a níveis mais baixos no último ano da Presidência de Joe Biden, mas isso não foi suficiente para convencer os eleitores a dar outra chance aos democratas em 2024. E a insatisfação com o alto custo de vida continuou crescendo durante o retorno de Trump à Casa Branca.

Ainda assim, Trump e os republicanos tinham uma história econômica relativamente convincente para contar no início deste ano.

Então, os Estados Unidos entraram em guerra com o Irã, e tudo mudou.

Os preços do petróleo dispararam e atingiram os níveis mais altos em quatro anos. O diesel chegou a um recorde. E a gasolina nunca havia custado tão caro em um dia de eleição.

Os americanos podem detestar a inflação, mas ficam especialmente irritados com os preços elevados dos combustíveis. Os valores da gasolina estão estampados em grandes painéis por toda parte, e encher o tanque serve como um lembrete semanal de quanto mais dinheiro as pessoas estão gastando. Os preços elevados da gasolina e do diesel, por si só, acrescentaram US$ 1.150 às despesas da família americana média desde o início da guerra, segundo pesquisadores da Universidade Brown.

Com a alta dos preços dos combustíveis, os rendimentos dos títulos dispararam, e as taxas de financiamento imobiliário também subiram — recentemente, no ritmo mais acelerado dos últimos três anos.

Depois de três anos consecutivos em que os salários aumentaram mais do que os preços, essa tendência se inverteu em março. Desde então, a retomada da inflação vem corroendo o salário líquido dos trabalhadores — e o poder de compra real do americano médio diminuiu desde que Trump voltou à Casa Branca.

Americanos culpam Trump

Não é surpresa que os americanos tenham boas lembranças da economia durante o primeiro mandato de Trump. Em todos os momentos da primeira passagem de Trump pela Presidência, o dinheiro conquistado pelos americanos com seu trabalho teve maior poder de compra do que os preços: os aumentos salariais foram quase duas vezes maiores do que a inflação ao longo dos quatro anos de seu primeiro mandato.

Por isso, os americanos ouvidos em uma pesquisa da CNN em outubro de 2024 preferiam Trump a Kamala Harris, então vice-presidente, por 15 pontos percentuais quando perguntados sobre quem seria mais capaz de administrar a economia. Não era nenhuma surpresa: a aprovação líquida de Biden em relação à economia era de -31 pontos na última pesquisa da CNN realizada antes de ele abandonar a disputa eleitoral.

Agora, os índices de Trump são piores do que os de Biden. E por uma ampla margem: a aprovação líquida de Trump em relação à economia está em -46 pontos, segundo uma pesquisa da CNN realizada em outubro.

O segundo mandato de Trump tem sido completamente diferente do primeiro. Para muitos americanos, parece que os custos estão saindo de controle e que o sonho americano se tornou inalcançável.

O governo Trump e os republicanos no Congresso atribuíram aos democratas a responsabilidade pela situação financeira desfavorável que herdaram. Mas algumas das políticas de Trump — especialmente a guerra impopular — claramente pioraram o custo de vida dos americanos.

Não se trata apenas dos preços da gasolina, que acrescentaram cerca de US$ 75 por mês às despesas das pessoas. Há outros custos que os eleitores associam a Trump e aos republicanos — alguns deles adicionando centenas de dólares às contas mensais das famílias.

"Digamos, para argumentar, que Biden tenha cometido erros graves: isso de forma alguma isenta Trump de responsabilidade", afirmou Steven Durlauf, economista da Universidade de Chicago que pesquisa desigualdade de riqueza e mobilidade social. "Trump administrou muito mal a inflação. Os eleitores precisam responsabilizar as políticas do governo."

Sem alternativas

A inflação é apenas parte da história. Muitos americanos sentem que a economia os deixou para trás.

A economia em forma de K ajuda a explicar parte desse fenômeno: americanos mais ricos, que têm dinheiro investido no mercado de ações e são proprietários de imóveis, estão muito mais protegidos contra o aumento dos custos do que os americanos de menor renda, que cada vez mais vivem de salário em salário.

Uma parte importante do problema é a falta de alternativas para alcançar o sonho americano. A enorme insuficiência de opções de creches e de moradias elevou os preços a níveis que excluíram muitas pessoas do mercado e impediram o acesso de outras que teriam condições de pagar.

"O ideal da classe média está se tornando cada vez mais inalcançável", afirmou Durlauf.

O mesmo começa a acontecer no mercado de trabalho. Embora ainda esteja relativamente forte, ele está longe de registrar o ritmo de crescimento observado nos anos imediatamente posteriores à pandemia. As demissões em massa não se tornaram a regra, mas, para quem está desempregado, as candidaturas a vagas parecem desaparecer no vazio.

Nesta economia, muitos americanos simplesmente sentem que estão presos.

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