Análise: Escolhido de Trump para reconstruir Gaza tem passado controverso

Ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, é conhecido por acordo de paz na Irlanda do Norte e envolvimento em Guerra do Iraque

Tim Lister, da CNN
Tony Blair, primeiro-ministro britânico entre os anos de 1997 e 2007. Membro do Partido Trabalhista.
Tony Blair, primeiro-ministro britânico entre os anos de 1997 e 2007. Membro do Partido Trabalhista.  • Photo by Dan Kitwood/Getty Images
Compartilhar matéria

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair está retornando ao cenário internacional como provável líder de uma autoridade encarregada da reconstrução da Faixa de Gaza em um cenário pós-guerra.

Blair levaria anos de experiência política e em negociações para a missão, após ocupar o cargo de premiê por uma década e posteriormente atuar como enviado internacional no Oriente Médio.

Apenas um ano após assumir a função, em 1998, Blair conquistou, com mediação dos Estados Unidos, uma de suas principais realizações de seu governo — o Acordo de Sexta-feira Santa, que trouxe paz à Irlanda do Norte. Na época, aos 43 anos, ele era o primeiro-ministro mais jovem desde 1812.

Oito anos antes, em um raro momento de reflexão pública, Blair foi questionado sobre o motivo que o levou à política. “Suponho que você apenas olha para o mundo ao seu redor. Pensa que as coisas estão erradas. Quer mudá-las”, respondeu ele.

Diferentemente de sua antecessora, Margaret Thatcher, nunca houve uma doutrina Blair ou filosofia de governo. Mas ele permaneceu no cargo até 2007 e desde então tem se mantido ativo na diplomacia e em investimentos internacionais.

Ex-premiê em meio a controvérsias

Blair conduziu o Reino Unido à Guerra do Iraque em apoio ao então presidente dos EUA, George W. Bush, em 2003. Isso manchou seu legado e provocou protestos diplomáticos e nas ruas.

Mais de 50 ex-diplomatas britânicos seniores escreveram uma carta aberta em abril de 2004 criticando o apoio incondicional dele às políticas lideradas peor Washington, tanto no Iraque quanto no conflito israelense-palestino, classificando-as como “fadadas ao fracasso”.

Uma investigação independente sobre o apoio de Blair à invasão do Iraque posteriormente descobriu que ele havia exagerado nas justificativas para a guerra e que não havia ameaça iminente do regime de Saddam Hussein.

Os EUA invadiram o Iraque com o objetivo declarado de buscar armas de destruição em massa ocultas, mas elas não existiam.

Trabalho como enviado especial

Em seu posterior papel político como enviado do Oriente Médio para o chamado Quarteto, ele era malvisto pelos palestinos por sua postura considerada pró-Israel.

O Quarteto, composto pelas Nações Unidas, União Europeia, Rússia e Estados Unidos, nomeou Blair como enviado em 2007 com o objetivo de ajudar a desenvolver a economia e as instituições palestinas.

Ele passou oito anos na função antes de renunciar em 2015, momento em que as negociações entre israelenses e palestinos estavam estagnadas e a solução de dois Estados era um sonho cada vez mais distante.

Em meio a crescentes críticas nos últimos anos do mandato de Blair, o ex-negociador-chefe da Autoridade Palestina, Nabil Shaath, afirmou que ele “conquistou muito pouco devido a seus enormes esforços para agradar os israelenses.”

“Ele gradualmente reduziu seu papel a pedir aos israelenses para removerem uma barreira aqui ou ali”, declarou Shaath.

Tony Blair, primeiro-ministro britânico entre os anos de 1997 e 2007 • Photo by Max Mumby/Indigo/Getty Images
Tony Blair, primeiro-ministro britânico entre os anos de 1997 e 2007 • Photo by Max Mumby/Indigo/Getty Images

A visão sobre Blair na Cisjordânia não melhorou muito desde então. Mustafa Barghouti, da Iniciativa Nacional Palestina, disse à CNN na segunda-feira (29): “Ele alegou que havia armas de destruição em massa (no Iraque) e isso se revelou uma grande mentira.”

“Acho preferível que ele permaneça em seu próprio país e deixe os palestinos se governarem por si mesmos. E, mais importante, permita que os palestinos realizem eleições democráticas livres para eleger seus líderes de forma livre e democrática, em vez de nos submeter a outro domínio colonial”, afirmou Barghouti.

A Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia ocupada, não realiza eleições presidenciais ou parlamentares há quase duas décadas.

Durante seu tempo como enviado do Quarteto, o escritório do britânico respondeu às alegações sobre seu progresso “insignificante” com a insistência de que ele “acredita apaixonadamente na solução de dois Estados, mas também acredita que isso só pode ser alcançado por meio de uma negociação com Israel.”

Porém, nos últimos dias, Blair notavelmente não apoiou o atual governo trabalhista em seu reconhecimento de um Estado palestino.

Quando questionado se o Reino Unido apoiava seu papel, o gabinete do ex-premiê desviou da questão, dizendo apenas: “Nosso foco está nas conversas de paz, nas quais obviamente estamos desempenhando um papel ativo.”

Mesmo assim, em muitos aspectos, Blair está bem preparado para o papel em Gaza. O ITB (Instituto Tony Blair para Mudança Global), trabalhando em estreita colaboração com a administração Trump, passou meses explorando cenários do “dia seguinte” para a reconstrução de Gaza.

Cenários também controversos

Uma investigação do Financial Times neste ano descobriu que funcionários do Instituto estavam envolvidos em um estudo que imaginava a reconstrução de Gaza, o qual incluiria pagamentos a palestinos para deixarem suas terras.

A organização respondeu que os planos de Blair “nunca foram sobre realocar habitantes de Gaza, uma proposta que o ITB nunca criou, desenvolveu ou endossou.”

Em agosto, ele se reuniu na Casa Branca com Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, e o enviado americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, para discutir ideias de reconstrução.

É indiscutível que ele tem a atenção da administração Trump e, por meio de sua antiga empresa de consultoria, mantinha estreitas ligações com os Emirados Árabes Unidos.

Esses vínculos já garantem a Blair conexões com dois dos países mais importantes que devem estar envolvidos na Gaza pós-guerra, mas apenas se houver um cessar-fogo abrangente.

Ele sempre foi bem recebido e respeitado em Israel. Mas como enviado do Quarteto, raramente visitou Gaza. Um membro do Gabinete Político do Hamas, Husam Badran, disse à  emissora Al Jazeera que Blair era “uma figura indesejada no contexto palestino, e vincular qualquer plano a essa pessoa é um mau presságio para o povo palestino.”

Badran afirmou que o ex-primeiro-ministro havia desempenhado um “papel criminoso e destrutivo desde a guerra no Iraque.”

O próprio Blair elogiou o plano de paz de 20 pontos apresentado por Trump como “ousado e inteligente”, dizendo que promete “a chance de um futuro mais brilhante e melhor para o povo (de Gaza), ao mesmo tempo que garante a segurança absoluta e duradoura de Israel.”

Notavelmente, ele falou sobre “o potencial para uma aliança regional e global mais ampla para combater as forças do extremismo”, uma questão na qual ele e seu Instituto têm se concentrado.

Como negociador cuja inteligência e compreensão dos detalhes são reconhecidas tanto por detratores quanto por apoiadores, Blair precisará de toda sua experiência e poder de persuasão em seu novo papel, caso ele se concretize.

Esse conteúdo foi publicado originalmente em
inglêsVer original