Análise: Guerra no Irã se torna pesadelo político para aliados dos EUA
Líderes que se opuseram ao ataque de Washington e Israel a Teerã enfrentam a ira de Trump, alterando a dinâmica entre os líderes mundiais

Líderes mundiais que se opuseram ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã estão divididos entre a ira de Donald Trump pela recusa em se juntar ao conflito e eleitores profundamente hostis à guerra e ao presidente americano.
Esse dilema está mudando a dinâmica entre os EUA e os aliados. Líderes que antes tentavam agradar e bajular o homem mais poderoso do mundo agora ousam criticá-lo e buscar distância.
Esses líderes fazem isso não apenas por antipatia à política externa americana, mas também devido às pressões relacionadas à guerra que ameaçam o sustento de seus povos e, consequentemente, seus próprios governos e carreiras.
Até líderes que tentaram moldar o comportamento de Trump no segundo mandato estão reagindo ao seu desprezo. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, disse na segunda-feira (13) que os ataques de Trump ao Papa Leão XIV foram "inaceitáveis".
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer, cuja amizade com Trump se desfez por causa da guerra, disse na semana passada que estava "farto" de que os britânicos enfrentassem contas de energia mais altas devido às ações de Trump.
Os líderes estão reagindo às consequências da guerra que não podem controlar, simbolizadas por um alerta do FMI (Fundo Monetário Internacional) na terça-feira (14) de que o mundo está caminhando para um cenário "adverso" de apenas 2,5% de crescimento este ano, abaixo dos 3,4% em 2025.
Países dependentes de fornecimento de gás e petróleo do Oriente Médio podem se sair pior. O FMI reduziu sua previsão de crescimento para o Reino Unido para 0,8% em 2026, abaixo da projeção anterior de 1,3%.
Isso seria um desastre para o governo ameaçado de Starmer, que não cumpriu sua promessa de reacender a economia.
Outro aliado-chave dos EUA, o Japão, também está sob pressão porque depende da energia do Oriente Médio. Custos de transporte mais altos estão elevando os preços e ameaçando um modesto aumento nos salários.
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, nunca esperou enfrentar tais dificuldades logo após a histórica vitória eleitoral em fevereiro.
Mesmo antes da guerra com o Irã, Trump era profundamente impopular em muitos países aliados. Uma pesquisa do Pew Research no ano passado mostrou que os índices de aprovação do presidente em mais de uma dúzia de países estavam em 35% ou abaixo.
Sua aprovação foi maior do que a do ex-presidente americano Joe Biden apenas em alguns países, incluindo Israel e Nigéria.
A desconexão não representa apenas uma ruptura que durará pelo resto do governo Trump. Ela ameaça as alianças que multiplicaram o poder político e econômico dos EUA por décadas.
A antipatia de Trump pela Otan, enquanto isso, deixou suas garantias de defesa mútua parecendo instáveis, mesmo que ele não decida retirar os EUA completamente.
A Casa Branca de Trump deixou claro na retórica e em documentos de política externa que considera a aplicação do poder unilateral dos EUA como a melhor maneira de proteger os interesses americanos no século 21.
O presidente americano parece considerar a Otan não como uma aliança defensiva, mas como uma ferramenta para promover seus interesses de política externa — por exemplo, em uma guerra por escolha no Irã.
Ele tem pouca tolerância para aliados que dependem do guarda-chuva de defesa dos EUA, mas se recusam a se juntar às suas guerras.
Mas comprometer-se a lutar é politicamente impossível para muitos líderes aliados. Eles enfrentam eleitorados que veem a guerra no Irã como imprudente, improvável de ter sucesso e uma violação do direito internacional.
O menosprezo de Trump às pesadas perdas aliadas nas guerras pós 11 de setembro apenas aprofundou a antipatia de seus eleitores ao presidente.
Como a guerra tensionou uma relação-chave de Trump com a Europa
As previsões do FMI deixaram claro que o conflito no Irã é mais do que uma crise de política externa distante para os governos aliados. Tornou-se uma ameaça doméstica e política. Isso, combinado com o crescente antagonismo entre líderes aliados e o presidente dos EUA, significa que apoiá-lo seria um risco.
Meloni lidera um partido populista de direita e é uma das líderes europeias mais ideologicamente compatíveis com Trump. Ela, portanto, se posicionou como uma ponte entre a Casa Branca e os aliados europeus. Mas sua própria popularidade foi atingida pelo aumento dos preços dos combustíveis induzido pela guerra.
Meloni também tem um papel único em uma nação que tem mais de 40 milhões de católicos romanos e uma relação especial com o Vaticano. Portanto, ela não tinha escolha política real a não ser criticar os ataques de Trump ao Papa.
Mas sua mudança pode ter arruinado mais de um ano de diplomacia dolorosa e construção de relacionamento.
"Estou chocado com ela. Eu pensei que ela tivesse coragem. Eu estava errado", disse Trump segundo o jornal italiano Corriere della Sera em uma entrevista.
"Ela é quem é inaceitável, porque não se importa se o Irã tem uma arma nuclear e explodiria a Itália em dois minutos se tivesse a chance", acrescentou o presidente americano.
Meloni está aprendendo como é estar na ponta de um ataque verbal de Trump. Isso já fazia parte da vida dos líderes no Canadá, onde o desafio de lidar com Trump transformou a política doméstica.
Se não fosse por Trump, é improvável que o primeiro-ministro Mark Carney — um ex-banqueiro central e outsider político — estivesse no cargo. Mas sua vitória eleitoral no ano passado em uma plataforma anti-Trump seguiu os ataques do presidente à soberania canadense.
Na segunda-feira (13), Carney solidificou seu mandato e transformou uma administração minoritária em um governo majoritário após duas vitórias em eleições especiais e várias deserções de partidos de oposição.
Em sua convenção do Partido Liberal este mês, ele aludiu aos planos expansionistas de Trump. "Unidos, construiremos um Canadá forte, um Canadá para todos, um Canadá forte que ninguém jamais poderá tirar de nós", disse ele.
Carney fez uma escolha decisiva. Embora ele espere trabalhar com os EUA, sua base de poder é confirmada por um mandato eleitoral e repousa sobre um fundamento de resistência a Trump.
Ele está, portanto, em melhor situação política do que muitos outros líderes aliados. Mas sua popularidade ainda será testada por fatores que ele não pode controlar totalmente, como danos econômicos relacionados à guerra; tarifas dos EUA; e o que se anuncia como uma renegociação amarga de um acordo comercial norte-americano.
Trump já foi visto como um herói para os populistas europeus, muitos dos quais presumiram que sua reeleição com uma postura dura anti-imigração previa sua própria ascensão política.
Tudo isso mudou na Hungria na semana passada. Trump, o vice-presidente JD Vance e o movimento MAGA fizeram uma campanha para o líder populista Viktor Orbán como se ele fosse um senador republicano em um estado indeciso.
Mas resultados surpreendentes nas eleições gerais destituíram Orbán após 16 anos no poder.
A derrota provavelmente vai acelerar uma tendência de líderes populistas na Europa se distanciando do MAGA para seu próprio bem político.
O paradoxo causado pela pressão de Trump sobre líderes aliados
A Casa Branca de Trump nunca demonstrou muita preocupação com os problemas políticos que o estilo incomum do presidente americano causa para líderes aliados. Parece ter desprezo pela Europa moderna.
Consagrou o apoio a grupos populistas que lutam para derrubar líderes mais centristas em sua estratégia de segurança nacional. Vance argumentou que a Europa tradicional e seus valores poderiam ser perdidos para a imigração de nações do Oriente Médio e Norte da África, principalmente muçulmanas.
Trump parece acreditar que é popular no exterior e argumenta que suas demonstrações de poder americano tornaram os Estados Unidos mais temidos e respeitados do que nunca, como a nação mais "quente" do planeta.
O Secretário do Tesouro Scott Bessent, a ponta de lança das guerras comerciais de Trump com nações aliadas, na terça-feira (14) buscou minimizar o impacto da guerra do Irã em nações não combatentes, dizendo que o FMI "provavelmente reagiu exageradamente".
Os líderes europeus podem estar se tornando mais explícitos em suas críticas a Trump. Mas eles têm apenas uma certa margem de manobra. Suas posições são frequentemente enfraquecidas por sua maior fragilidade nas relações com os EUA — seus exércitos enfraquecidos.
Quando Trump reclamou que os aliados da Otan não enviaram navios para abrir o Estreito de Ormuz, ele tocou em um ponto sensível.
Não era apenas que os líderes aliados não tinham o apoio político para fazê-lo: as potências da Otan não americanas provavelmente não têm mais a capacidade de realizar tal missão após anos de cortes na defesa.
Quando Trump considera se retirar da Otan, ele está jogando uma carta significativa. Rearmamentos sérios na Europa poderiam derrubar governos devido aos cortes impopulares em programas sociais e de saúde que acarretariam.
Então, mesmo quando se voltam contra Trump para sua própria preservação política, seus distanciados homólogos europeus não podem arriscar uma ruptura total com os Estados Unidos.
Mas quanto mais o presidente exige a entrada deles em uma guerra impopular, menos espaço político eles têm para ajudá-lo a terminá-la.



