Análise: Israel anuncia pausa nas operações em Gaza; mas será o suficiente?
Embora a medida tenha sido bem recebida por agências da ONU, surgem dúvidas sobre se será suficiente após meses em que a ajuda chegou de forma extremamente limitada à região

Israel anunciou uma “pausa tática nas atividades militares” em três áreas de Gaza para permitir que mais ajuda humanitária chegue à população, em meio à crescente indignação internacional com a fome no território.
O exército israelense afirmou que a medida visa “refutar a falsa alegação de fome deliberada na Faixa de Gaza”.
A pausa, que também incluirá a abertura de corredores para facilitar a entrega de ajuda pela ONU e outras agências, chegou tarde demais para dezenas de palestinos, com autoridades em Gaza relatando mais mortes por desnutrição.
Embora a medida tenha sido bem recebida por agências da ONU, surgem dúvidas sobre se será suficiente após meses em que a ajuda chegou de forma extremamente limitada à região. Veja o que se sabe até agora:
Como chegamos a este ponto?
Em quase dois anos de guerra desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, a grande maioria da população de Gaza foi deslocada várias vezes.
Dezenas de milhares vivem nas ruas ou em tendas improvisadas. Com a infraestrutura de Gaza destruída, o acesso à água e à energia tornou-se cada vez mais difícil.
Acima de tudo, a entrega de ajuda alimentar humanitária foi interrompida pelos combates, pelas dificuldades logísticas e por restrições impostas pelos militares israelenses.
Antes do conflito, cerca de três mil caminhões de ajuda e comércio entravam em Gaza a cada semana. Depois, esse número despencou.
Durante um cessar-fogo no início deste ano, uma média de centenas de caminhões cruzava a fronteira diariamente, mas isso não durou.
A situação piorou drasticamente no início de março, quando Israel impôs um bloqueio completo à Faixa de Gaza, numa tentativa de forçar o Hamas a libertar os reféns que ainda mantinha.
A fome já era generalizada em Gaza e, nos meses seguintes, se agravou. A ONU alertou para o aumento da desnutrição enquanto quase 6 mil caminhões de ajuda estavam parados na fronteira.
No final de maio, o bloqueio foi parcialmente suspenso, e a Gaza Humanitarian Foundation (GHF) — uma iniciativa privada apoiada por EUA e Israel — abriu centros de distribuição de alimentos no sul de Gaza. No entanto, a ONU e outras entidades criticaram a GHF por violar princípios humanitários básicos e por não conseguir atender às necessidades da população.
A GHF afirma ter distribuído mais de 90 milhões de refeições e culpa a ONU por falta de coordenação.
Mais de 1 mil pessoas foram mortas desde maio em tentativas desesperadas de conseguir comida para suas famílias, segundo a ONU, quase todas pelas forças militares israelenses.
Em maio, a ONU informou que toda a população de Gaza enfrentava altos níveis de insegurança alimentar aguda, com 500 mil pessoas em risco de inanição e mais de 70 mil crianças necessitando de tratamento para desnutrição aguda.
Mortes por desnutrição aumentaram em julho, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS), com 63 mortes registradas. Mais de 5 mil crianças menores de cinco anos foram admitidas para tratamento ambulatorial de desnutrição nas duas primeiras semanas de julho, segundo a OMS.
Até o momento, 147 pessoas morreram por desnutrição em Gaza desde o início do conflito, segundo autoridades de saúde palestinas, quase 90 delas eram crianças. A maioria das mortes ocorreu a partir de março.
Por que é tão difícil levar ajuda humanitária?
Os militares israelenses culpam a ONU por não coletar e distribuir a ajuda que chega ao território. Já a ONU culpa Israel por não enviar comida suficiente e por complicar o processo de coleta.
Funcionários da ONU denunciam grandes obstáculos de segurança e burocracia impostos por Israel. Esses entraves estão presentes em quase todas as etapas do processo de distribuição. Quando um caminhão chega a um ponto de entrada, os militares israelenses o inspecionam.
Se aprovado, ele entra em Gaza e descarrega sua carga, aguardando coleta por outros caminhões dentro do território, muitos deles operados pela ONU.
Mas até o processo de coleta sofre atrasos. Na semana passada, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) informou que pediu autorização para 138 comboios recolherem carga na área de fronteira, mas apenas 76 foram aprovados, pouco mais da metade.
“Uma vez carregada, a comida nos comboios geralmente fica retida, esperando até 46 horas por autorizações finais para circular pelas rotas aprovadas dentro de Gaza”, disse o PMA na sexta-feira.
Esse atraso permite que multidões famintas se acumulem ao longo das rotas de distribuição, o que complica ainda mais a entrega. Depois que Israel autoriza a liberação dos caminhões, pode levar até 12 horas para que os comboios completem sua missão, acrescentou o PMA.
O Dr. Fadel Naim, diretor do hospital Al-Ahli no norte de Gaza, disse na semana passada que Gaza precisa de pelo menos 1.500 caminhões de ajuda diariamente por um mês para conter a disseminação da fome.
A COGAT, agência israelense que administra o fluxo de ajuda para Gaza, afirmou que cerca de 180 caminhões entraram no território no domingo. Antes de outubro de 2023, entre 500 e 600 caminhões passavam pela fronteira todos os dias.
Apesar do aumento no número de mortes por fome, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou no domingo que “não há fome em Gaza”. Um porta-voz militar disse que o fornecimento de ajuda é monitorado e que Israel “não está bloqueando a ajuda”.
O que Israel anunciou?
As pausas táticas anunciadas pelas Forças de Defesa de Israel abrangem três áreas ao longo da costa do Mediterrâneo, Al-Mawasi, Deir al-Balah e parte da Cidade de Gaza, muitas das quais já eram consideradas “áreas seguras” para onde a população poderia fugir.
O Exército israelense publicou um mapa mostrando as áreas onde a pausa entrará em vigor, enquanto marcou o restante da Faixa em vermelho como “zona de combate perigosa”.
A pausa começou no domingo e dura 10 horas, das 10h às 20h (horário local). Ela continuará diariamente “até novo aviso”, segundo os militares.
Um aspecto importante do anúncio israelense é o estabelecimento de “rotas seguras” das 6h às 23h (horário local), para permitir que comboios da ONU e de organizações humanitárias distribuam alimentos e medicamentos com segurança.
Centenas de caminhões foram saqueados nos últimos meses, às vezes por pessoas desesperadas, outras por gangues criminosas, e levar a ajuda com segurança até os armazéns será um grande desafio.
Israel realizou um lançamento aéreo de ajuda em Gaza na noite de sábado, após permitir que países estrangeiros conduzissem operações semelhantes. No domingo, Israel, Jordânia e Emirados Árabes Unidos lançaram 28 pacotes de ajuda por via aérea.
No entanto, agências humanitárias consideram os lançamentos aéreos caros, ineficientes e, por vezes, perigosos.
As Forças de Defesa de Israel também anunciaram a reconexão da linha de energia entre Israel e a planta de dessalinização em Gaza, o que permitirá o fornecimento de cerca de 20 mil metros cúbicos de água por dia, dez vezes mais que o volume atual.
As condições podem melhorar rapidamente?
Comboios começaram a seguir rumo a Gaza, incluindo veículos vindos do Egito e da Jordânia. Mas o volume de ajuda necessário é imenso.
Milhares de veículos estão prontos para entrar com alimentos e suprimentos médicos, mas o principal ponto de entrada — Kerem Shalom — já está sobrecarregado com caminhões aguardando distribuição. Há apenas dois pontos de entrada para Gaza: Kerem Shalom e Zikim, no norte.
Mais de 100 caminhões com ajuda entraram em Gaza no domingo, mas é necessário um “esforço contínuo” para enfrentar a crise, disse Tom Fletcher, chefe do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários.
Agências da ONU relatam que questões de segurança e falta de autorizações por parte dos militares israelenses continuam a dificultar as entregas.
O porta-voz do Unicef, Joe English, disse à CNN que a agência “não pode fazer milagres” com janelas de entrega anunciadas de última hora, pois crianças desnutridas precisam de cuidados prolongados.
O PMA acolheu o anúncio israelense com cautela, afirmando ter alimentos suficientes na região, ou a caminho dela, para alimentar toda a população de 2,1 milhões de pessoas por quase três meses. O programa disse ter recebido garantias de que as liberações seriam agilizadas por Israel para permitir um aumento na assistência alimentar.
A decisão de liberar a entrada de ajuda já gerou dissenso dentro do governo israelense.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, de extrema direita, afirmou que não foi consultado e que “a única forma de vencer a guerra… é parar completamente com a ajuda ‘humanitária’, conquistar toda a Faixa e incentivar a migração voluntária”.