Análise: Por que o Irã retomou o confronto com os EUA com ataque surpresa?

Teerã reiniciou ofensiva por conta própria, elevando o risco de escalada com os EUA e alterando o padrão do conflito na região

Abbas Al Lawati, da CNN
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O Irã encerrou dias de relativa calmaria no Oriente Médio após lançar o que os EUA chamaram de ataque "surpresa", em uma mudança marcante no padrão dos combates.

Em vez de responder a um novo ataque americano, Teerã optou por reacender o conflito por iniciativa própria, demonstrando uma disposição crescente de usar a força militar para moldar o curso da guerra em seus próprios termos.

Isso, por sua vez, prepara o terreno para uma nova escalada. "Vamos dar uma baita surra neles", disse o presidente dos EUA, Donald Trump, à Fox News na manhã de quarta-feira (29). "Vamos atacá-los com força. Eles vão apanhar."

Essa ameaça dificilmente poderia ter surpreendido Teerã, que lançou seus mísseis sabendo que eles poderiam trazer os bombardeiros americanos de volta.

Trump havia atribuído a pausa da semana passada a um pedido do Irã, porque "eles nos pediram muito gentilmente" e queriam negociações. Teerã nunca se comprometeu publicamente com a pausa recente, embora um alto funcionário iraniano tenha dito que "nossas forças armadas também decidiram não tomar ação militar".

Isso torna a decisão do Irã de retomar os ataques ainda mais significativa.

Horas depois de sinalizar publicamente que iria seguir a contenção dos Estados Unidos, Teerã atacou forças americanas, aparentemente decidindo que aumentar a pressão valia o risco de retomar os bombardeios noturnos.

"Algo parece ter mudado na abordagem do Irã, particularmente no que diz respeito à sua disposição de iniciar um ataque caso considere essa a única opção viável", escreveu Hamid Reza Azizi, pesquisador do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, no X.

O ataque do Irã ocorreu logo após a reunião do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu com Trump em Washington, DC, que o líder israelense descreveu como "uma das melhores conversas" que os dois já tiveram, após um crescente atrito entre eles.

Horas antes da reunião, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, disse que Israel queria atacar a infraestrutura energética do Irã, mas havia sido impedido pelo governo Trump.

"O ataque parece ter sido um sinal relacionado à visita de Netanyahu à Casa Branca no início do dia", escreveu Azizi. "Isso sugere que a estratégia militar do Irã pode ter mudado e que Teerã está agora preparada para lançar um ataque preventivo caso detecte sinais de uma ameaça iminente."

Logo após o ataque na Jordânia, os militares dos EUA e da Arábia Saudita atacaram conjuntamente milícias apoiadas pelo Irã no Iraque. O Comando Central dos EUA enquadrou a operação no Iraque não como retaliação pelo ataque na Jordânia, mas como resposta a mais de 30 ataques de drones contra forças americanas e infraestrutura energética saudita nas 72 horas anteriores.

A escalada ocorrida durante a noite mostrou como a guerra está se ampliando. A Arábia Saudita, há muito cautelosa em ser arrastada diretamente para o conflito, está se envolvendo de forma mais profunda à medida que enfrenta ameaças em três frentes: os Houthis no Iêmen, milícias apoiadas pelo Irã no Iraque e o próprio Irã.

"O desafio central que Washington e seus parceiros do Golfo enfrentam é que nem o Irã nem seus aliados regionais parecem dispostos a recuar do que agora definem como objetivos estratégicos centrais", escreveu Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel e ex-chefe da divisão do Irã na inteligência militar israelense, no X.

"Teerã continua a insistir em manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz, enquanto os Houthis deixaram claro que não encerrarão sua campanha a menos que o (bloqueio) liderado pelos sauditas imposto a eles seja levantado."

"Nada mais do que uma fantasia"

Em uma entrevista à televisão estatal iraniana publicada poucas horas antes do ataque na Jordânia, o vice-ministro das Relações Exteriores Kazem Gharibabadi ofereceu talvez uma das articulações mais claras da posição de Teerã até o momento.

O Irã havia parado de atirar, ele sugeriu, mas não hesitaria em retomar as hostilidades caso sua reivindicação de soberania sobre o Estreito de Ormuz fosse contestada.

Teerã não poderia se considerar vitoriosa se o estreito retornasse ao seu status de pré-guerra, disse o vice-ministro das Relações Exteriores. A via navegável havia se tornado central para a segurança nacional do país e uma "ferramenta defensiva".

Quando o entrevistador perguntou por que Teerã havia arriscado reiniciar a guerra ao atacar navios comerciais apesar de um cessar-fogo em vigor, Gharibabadi disse que o Irã considerava os esforços de Omã e dos EUA para estabelecer uma rota de navegação alternativa pelo estreito como uma linha vermelha.

Permitir que essa rota operasse, ele argumentou, teria reduzido a reivindicação do Irã ao "exercício efetivo da soberania" sobre a via navegável a "nada mais do que uma fantasia".

"Alguém pode olhar para isso de forma simples e perguntar por que o Irã atacaria três navios comerciais com mísseis apenas porque eles desligaram seus GPS, potencialmente reiniciando uma guerra", disse ele. "Mas se você olhar nos bastidores, verá que os arranjos aplicados ao Estreito de Ormuz terão um impacto de longo prazo sobre a segurança da República Islâmica do Irã."

Da perspectiva de Teerã, a pausa de Washington nos ataques ao Irã reflete "fraqueza estratégica em vez de contenção", escreveu Citrinowicz. Essa percepção corre o risco de alimentar um ciclo no qual o Irã escala para impor custos maiores, enquanto nenhum dos lados recua por medo de perder credibilidade.

Os EUA e seus parceiros enfrentam, portanto, uma escolha, argumentou ele: acomodar algumas demandas iranianas ou aceitar a perspectiva de um conflito prolongado marcado por ataques crescentes a navios, infraestrutura energética e rotas comerciais.

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