Análise: Putin dá sinais de que a paz na Ucrânia ainda está distante
Em cúpula no Quirguistão, presidente russo usa analogia de orcas e ursos polares para defender intensificação da guerra na Ucrânia

O presidente russo, Vladimir Putin, viajou ao Quirguistão nesta semana para a cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai, um encontro regional que também reuniu Xi Jinping, da China, Narendra Modi, da Índia, e Masoud Pezeshkian, do Irã.
Os líderes se reuniram na capital, Bishkek, em uma semana de grande tensão geopolítica, marcada por uma nova rodada de ataques de retaliação entre o Irã e os Estados Unidos, por drones e mísseis russos atingindo a Ucrânia e pela acusação da Alemanha de que a Rússia foi responsável por um ataque com drones contra o aeroporto de Leipzig no mês passado.
Mas Putin parecia estar totalmente à vontade. Em uma entrevista coletiva na noite de terça-feira (1º), ele pareceu fazer questão de deixar um ponto claro: as nações vivem em um estado de competição darwiniana, e a Rússia prevalecerá em uma disputa pela sobrevivência do mais apto.
Questionado pelo repórter do Kremlin Pavel Zarubin sobre alguns comentários incomuns que havia feito poucos dias antes a respeito de orcas que comem ursos-polares — falaremos mais sobre as opiniões de Putin a respeito da biologia marinha daqui a pouco —, o presidente russo descreveu sua declaração como uma analogia “espontânea” para o atual confronto da Rússia com o Ocidente.
“Eu diria que a orca é, sem dúvida, um predador formidável, mas também é uma criatura altamente inteligente e astuta”, afirmou. “O Ocidente coletivo, por sua vez, recebeu uma definição específica ainda na era soviética, que continua atual até hoje: os tubarões do imperialismo.”
Tubarões e orcas podem não pertencer exatamente à mesma classe de animais, mas Putin continuou com sua analogia.
“O ponto central dos meus comentários era que, se alguém tentar nos arrastar para baixo na cadeia alimentar e nos devorar, nos consumir, seria bom que esperasse ter os dentes quebrados”, afirmou. “E a Rússia está pronta para fazer exatamente isso, apesar do apetite insaciável e dos dentes cada vez mais afiados desses tubarões.”
A mensagem aqui era clara, tanto para o público doméstico quanto para os interlocutores internacionais de Putin. No que diz respeito à guerra na Ucrânia, Putin pretende intensificar seus esforços, independentemente de como estejam definidas as linhas no campo de batalha e de qualquer dano econômico que Kiev consiga infligir aos russos comuns por meio de uma campanha de ataques de longo alcance.
Putin sabe que a Ucrânia está em desvantagem na defesa de seu espaço aéreo, e as forças russas vêm cobrindo cidades ucranianas com uma enxurrada de drones e mísseis.
Embora o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tenha alertado na terça-feira que o espaço aéreo russo “efetivamente estará sendo fechado” devido à presença de drones ucranianos, Putin minimizou a retórica de escalada, dizendo que não havia ouvido o comentário.
Segundo Putin, declarações desse tipo “não passam de um chamado ao terrorismo patrocinado pelo Estado. E eu gostaria de destacar que eles estão nos pedindo para retomar as negociações e solicitando reuniões presenciais. Não se negocia com terroristas.”
Putin também rejeitou categoricamente a acusação da Alemanha de que a Rússia estaria por trás de um recente ataque com drones contra o aeroporto de Leipzig, sugerindo que Berlim havia plantado evidências como parte de uma provocação deliberada.
“Há apenas uma explicação apresentada: a necessidade de combater uma ‘Rússia agressiva’”, disse Putin. “Mas onde estão as provas? Bem, agora algumas ‘provas’ foram plantadas.”
Os comentários de Putin em Bishkek podem ter sido belicosos, mas ele adotou um tom um pouco mais conciliador quando o assunto foi o governo Trump.
Questionado sobre a recente visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscou, Putin sugeriu que os contatos de Ratcliffe com autoridades russas de inteligência foram construtivos, sem revelar novos detalhes.
“Os contatos sempre existem, mesmo nos períodos mais difíceis da Guerra Fria, e agora existem ainda mais”, afirmou. “Somos favoráveis às negociações, a quaisquer negociações, desde que elas sejam preenchidas, antes de mais nada, com conteúdo concreto. E, se alguém fizer ou puder fazer uma contribuição concreta para esse processo, somos totalmente a favor.”
Putin também deixou claro quem prefere como interlocutores quando se trata de fechar qualquer acordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: a dupla diplomática pouco convencional formada pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro de Trump.
“São pessoas próximas do presidente Trump. Na minha opinião, são pessoas sinceras e se esforçam para dar um conteúdo concreto ao nosso trabalho. E o presidente confia neles, o que é muito importante, porque, sem isso, em geral, é impossível conduzir qualquer negociação”, afirmou o líder russo. “Tanto o senhor Kushner quanto Witkoff são sempre convidados bem-vindos por aqui, e temos satisfação em trabalhar com eles.”
Witkoff e Kushner fizeram várias viagens a Moscou desde que Trump iniciou seu segundo mandato. Mas a preferência de Putin pode causar preocupação em Kiev: Witkoff e Kushner não visitaram a Ucrânia desde que assumiram seus papéis como principais representantes de Trump nas negociações de paz, e alguns observadores temem que eles possam apoiar um acordo favorável à Rússia.
A Ucrânia tem um inverno difícil pela frente, e há temores de que a Rússia possa lançar uma nova onda de mobilização após as eleições parlamentares previstas para o fim deste mês. Putin classificou essas especulações como “bobagem completa”. Mas os comentários de Putin sobre o reino animal podem dar uma ideia do que anda passando pela cabeça do presidente russo atualmente.
A história sobre as orcas contra os ursos-polares surgiu pela primeira vez durante uma reunião na Universidade Pedagógica Estatal de Moscou, no sábado, quando um dos participantes mencionou uma visita ao Ártico. O comentário pareceu despertar a imaginação do presidente russo, que perguntou ao estudante se ele havia visto ursos-polares.
“E as orcas vivem bem ao lado deles; elas comem esses ursos como se fossem peixes pequenos — atacam em grupo e os despedaçam”, disse Putin, acrescentando um contexto político: “Essa é a cadeia alimentar, e as crianças também precisam ouvir sobre isso, para entenderem o mundo em que vivemos e por que estamos conduzindo a ‘Operação Militar Especial’.”
Vários observadores destacaram que, na realidade, as orcas não caçam ursos-polares — e especularam se Putin estaria assistindo a vídeos gerados por inteligência artificial de qualidade duvidosa. Mas, deixando de lado a zoologia questionável e sem qualquer conexão aparente de Putin sugere que, na questão existencial de continuar ou não a guerra contra a Ucrânia, sua posição continua tão inflexível quanto antes.
No mundo de Putin, é sempre a Semana do Tubarão.


