Análise: Quem pode salvar a Otan em meio às ameaças de Trump à Groenlândia?
Pressão do presidente americano sobre a aliança pode colapsar relação dos EUA com nações europeias

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afundou a Otan naquela que poder ser a sua pior crise, ao ameaçar impor novas tarifas países europeus que se opõem à tentativa de anexar a Groenlândia.
A ameaça de fragmentação da aliança militar mais poderosa do mundo dependerá, em parte, se os republicanos no Congresso se mostrarão determinados em desafiar o presidente americano.
Outro fator crucial é se os líderes europeus, que responderam à recente escalada das tensões, ameaçarão Trump e os Estados Unidos com represálias.
A União Europeia é um bloco comercial gigantesco, e retaliações poderiam afetar os mercados de ações americanos, que Trump considera um termômetro da economia.
Mas retaliações comerciais ou a redução da cooperação militar poderiam acabar prejudicando mais os países europeus do que os Estados Unidos.
Embaixadores da União Europeia realizaram reuniões de emergência em Bruxelas no domingo (18), e vários líderes de países aliados da Otan, próximos a Trump, telefonaram para expressar sua visão em relação à Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca.
Há um alarme palpável em ambos os lados do Atlântico com a possibilidade de colapso da Otan. Tal cenário, antes impensável, representaria uma vitória histórica para a Rússia e a China, e talvez o resultado mais desestabilizador dos dois mandatos de Trump na Casa Branca.
Há também preocupação no Congresso com as excentricidades de Trump. Mas será que existem republicanos do alto escalão em número suficiente que sejam tão protetores da Otan, um pilar do poder global americano, a ponto de arriscarem uma ruptura com o líder americano?
Rachaduras surgiram na base de poder de Trump no Congresso — especialmente por causa dos arquivos de Jeffrey Epstein —, mas muitos parlamentares republicanos ainda temem o presidente.
No entanto, em última análise, o destino precário da aliança depende de um presidente que vê o poderio militar americano como algo que pode exercer sem restrições legais ou constitucionais e que despreza a Otan como uma rede de segurança.
Adquirir a Groenlândia seria um legado maior para Trump do que ter seu nome no Kennedy Center ou construir um novo salão de baile na Casa Branca; isso o colocaria ao lado de Thomas Jefferson e William McKinley como presidentes que expandiram o território americano.
Tarifas ameaçam rompimento da Otan
Na semana passada, Trump abalou o Atlântico ao intensificar suas exigências agressivas pela Groenlândia, levando sua política externa da "Arte da Negociação" ao extremo.
Ele afirmou que vai impor uma tarifa de 10% sobre "todos e quaisquer produtos" da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia a partir do dia 1º de fevereiro, aumentando para 25% em 1º de junho, até que um acordo seja alcançado.
Trump apontou corretamente que muitas nações da Otan contaram com a proteção dos EUA ao decidirem reduzir suas forças armadas nas últimas décadas.
Sua indignação, bem como a ameaça representada pela invasão russa da Ucrânia, levou muitos Estados integrantes da aliança a prometerem um aumento substancial nos gastos com defesa.
Mas, ao não descartar o uso da força militar para tomar a Groenlândia, ele corre o risco de destruir a Otan e seu Artigo 5º, cláusula de defesa mútua, por conta de uma obsessão pessoal.
Tudo isso apesar dos eleitores americanos não terem expressado nenhum desejo concreto de controlar a ilha ou de pagar por ela. Eles estão mais preocupados com os altos preços após um ano do segundo mandato de Trump.
“O presidente tem acesso militar irrestrito à Groenlândia para nos proteger de qualquer ameaça. Então, se ele quiser comprar a Groenlândia, isso é uma coisa. Mas invadi-la militarmente seria subverter completamente o Artigo 5 da Otan e, essencialmente, nos colocaria em guerra com a própria Otan”, disse o deputado Michael McCaul, republicano do Texas e ex-presidente das Comissões de Relações Exteriores e Segurança Interna da Câmara, ao programa “This Week” da emissora ABC.
“Isso acabaria por abolir a Otan como a conhecemos, uma organização que nos protegeu das guerras mundiais”, acrescentou McCaul.
Mike Pence, que foi vice de Trump no primeiro mandato, disse à CNN, no programa "State of the Union", que, embora os Estados Unidos tenham interesse em controlar e, em última instância, adquirir a Groenlândia, os métodos de Trump são prejudiciais.
"Acho que a postura atual, que espero que mude e diminua, ameaça romper esse forte relacionamento, não apenas com a Dinamarca, mas com todos os nossos aliados da Otan", disse Pence.
O deputado Mike Turner, de Ohio, que lidera a delegação dos EUA na assembleia parlamentar da Otan, concordou que Trump tinha preocupações legítimas de segurança nacional na Groenlândia.
Mas ele disse no domingo (18), no programa "Face the Nation" da emissora americana CBS, que "certamente o presidente não tem autoridade para usar a força militar e tomar território de um país da Otan".
Mas será que o Congresso fará alguma coisa para impedir Trump?
O senador republicano do Kentucky, Rand Paul, e o senador democrata da Virgínia, Tim Kaine, planejam apresentar objeções. Em uma participação conjunta no programa "Meet the Press" da emissora americana NBC, eles afirmaram que estão discutindo uma nova resolução sobre poderes de guerra em relação à Groenlândia.
Eles também pretendem contestar as novas tarifas e destacar uma lei que estipula que um presidente não pode se retirar da Otan sem a aprovação do Congresso.
Paul também disse que Trump estava "provocando reações" ao se recusar a descartar a possibilidade de tomar a Groenlândia pela força. Mas acrescentou: "Não ouvi nenhum apoio republicano a isso; até mesmo os membros mais linha-dura do nosso grupo disseram que não apoiarão essa ideia."
Alguns republicanos esperam que Trump esteja apenas agindo como um tubarão do mercado imobiliário. "Acho que é apenas o jeito de Trump lidar com as coisas. Quer dizer, veja bem, ele conseguiu alguns bons negócios adotando uma postura agressiva", disse o senador da Flórida, Rick Scott, à Fox News.
Mas uma administração fortalecida após a deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro parece ter abandonado sua postura de grande negociador.
Dias depois de Trump ter dito que queria a Groenlândia porque ela era “psicologicamente importante para mim”, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, pareceu confirmar a percepção de que o governo acredita que os Estados Unidos são tão fortes que podem tomar o que quiserem.
“Os Estados Unidos, neste momento, são o país mais quente do mundo. Somos o país mais forte do mundo. Os europeus projetam fraqueza. Os Estados Unidos projetam força”, disse Bessent à NBC.
A Otan já teve divisões, mas nunca como essa
A Otan enfrentou muitas tensões em seus quase 77 anos. Na Crise de Suez de 1956, os Estados Unidos se opuseram à invasão franco-britânica de partes do Egito. Na década de 1990, algumas nações europeias ficaram frustradas com a relutância inicial de Washington em envolver a Otan no fim da guerra na antiga Iugoslávia.
No início dos anos 2000, após um período de reflexão sobre seu papel depois da Guerra Fria, a Otan invocou o Artigo 5 pela primeira vez em defesa dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro. Posteriormente, liderou a campanha no Afeganistão. Mas profundas divisões surgiram em relação ao Iraque.
A pressão de Trump sobre a Otan ocorre após um período de grande força para a aliança, quando a Suécia e a Finlândia entraram para a organização durante o governo Biden, na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia.
A atual crise é inédita, pois nenhum dos líderes que cultivaram a aliança por sete décadas poderia ter imaginado um integrante ameaçando outro. O fato de a parte beligerante ser os Estados Unidos — o maior integrante — torna a situação ainda mais inacreditável.
A fixação de Trump na Groenlândia, que está ganhando importância à medida que a corrida pelo controle do Ártico se intensifica, faz sentido estratégico. Mas sua justificativa para que os Estados Unidos a controlem é mais obscura.
Os Estados Unidos têm tratados com a Dinamarca que permitem o envio de tropas para a região. Trump afirma que a ilha é vital para o seu projeto de defesa antimíssil Domo de Ouro. No entanto, uma base da Força Espacial dos EUA já se concentra em sistemas de alerta antecipado de mísseis.
A Groenlândia e a Dinamarca também estão abertas a acordos comerciais com os americanos para a exploração de minerais de terras raras.
E a alegação de Trump de que a China e a Rússia poderiam invadir a ilha é enganosa, visto que ela já é território da Otan, que a aliança defenderia.
Mas Bessent ofereceu uma justificativa surpreendente que implica que Trump poderia agir unilateralmente em qualquer questão global. "A emergência nacional visa prevenir uma emergência nacional. É uma decisão estratégica do presidente", disse ele à NBC.
A invocação de poderes de emergência por Trump para impor tarifas como parte de suas guerras comerciais é o ponto crucial da questão, enquanto a Suprema Corte delibera sobre se as tarifas do presidente violaram as prerrogativas comerciais do Congresso.
Por que a Groenlândia é tão importante para o congresso?
Na sequência das exigências de Trump em relação à Groenlândia, os líderes europeus, que passaram o último ano tentando apaziguar e bajular o presidente, endureceram o tom.
A questão não é meramente territorial. Ela atinge o cerne do ideal europeu, forjado através de séculos de derramamento de sangue no continente, de que as nações e os povos têm o direito à autodeterminação e não são simplesmente vassalos de Estados todo-poderosos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, traçou um paralelo impressionante entre Trump e o gangsterismo territorial do presidente russo, Vladimir Putin, ao escrever no X que a França apoia a independência e a soberania de todas as nações.
"Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará; nem na Ucrânia, nem na Groenlândia, nem em qualquer outro lugar do mundo quando enfrentarmos tais situações", afirmou Macron.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni — que tentaram cultivar uma relação com Trump — falaram com ele por telefone. Meloni disse que “discorda” das tarifas relacionadas à Groenlândia.
Mas palavras não bastam para apaziguar Trump. Conseguirão os republicanos no Capitólio ou os aliados da Otan demonstrar a ele que haverá consequências pessoais e políticas por tornar a anexação da Groenlândia uma prioridade?
Há indícios de que as ameaças de Trump podem inviabilizar a ratificação de um acordo comercial entre a UE e os EUA que oferecia condições vantajosas aos Estados Unidos, em parte porque a Europa sabe que não podia arriscar perder o apoio militar americano.
O colapso do acordo ou tarifas retaliatórias poderiam prejudicar Trump, fazendo disparar os preços das importações em um ano de eleições de meio de mandato, no qual os eleitores estão cada vez mais desiludidos com seu desempenho econômico.
A fragmentação da aliança da OTAN poderá, em última análise, causar problemas para os Estados Unidos, caso implique o fechamento de bases militares no Reino Unido, na Alemanha ou em outros locais que os EUA utilizam para projetar poder no Oriente Médio e na África. Poderá também deixar as já sobrecarregadas forças armadas americanas com a responsabilidade exclusiva pela defesa do Ártico.
Uma ruptura nas relações transatlânticas também complicaria outras prioridades de Trump, como seu desejo de apoio e financiamento europeus para sua iniciativa de estabilizar e reconstruir Gaza.
E se ele realmente quer acabar com a guerra na Ucrânia, não poderá fazê-lo de forma justa sem a Europa. Os membros da Otan também poderiam interromper a compra de armas e os investimentos nos EUA.
No entanto, os países da Otan continuam profundamente vulneráveis a Trump. Décadas de baixos gastos com defesa os deixaram dependentes do poderio militar dos EUA, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial e quase 35 anos após o fim da Guerra Fria.
Existe um desejo genuíno na Europa por maior independência. Mas serão necessárias décadas para alcançar escala e resiliência abrangente, partindo do pressuposto de que governos frágeis consigam convencer eleitores descontentes a fazer sacrifícios em prol dos gastos com defesa.
Em última análise, essa dinâmica desequilibrada na aliança ocidental tem tanto a ver com o atual impasse quanto com o presidente americano fora de controle.


