Análise: Retórica de Trump e Putin sobre armas nucleares pode ser perigosa
Presidente dos EUA anunciou retomada de testes nucleares, citando disputa com Rússia e China

As constantes ameaças nucleares do governo da Rússia parecem ter finalmente provocado uma reação na Casa Branca, com o presidente Donald Trump ordenando a retomada dos testes de armas nucleares dos Estados Unidos.
"Devido aos programas de testes de outros países, instruí o Departamento de Guerra a iniciar testes de nossas armas nucleares em igualdade de condições", escreveu Trump em uma publicação nas redes sociais na quinta-feira (30).
Não ficou imediatamente claro se Trump se referia a um teste de arma nuclear ou a um teste de um sistema de armamento com capacidade nuclear. Seu anúncio veio pouco antes de uma reunião com o presidente chinês Xi Jinping na Coreia do Sul, mas ele indicou que a China não motivou sua decisão, dizendo a um repórter mais tarde que "tinha a ver com outros".
A ordem de Trump veio apenas horas depois que o líder russo Vladimir Putin, visitando um hospital militar em Moscou, lançou sua mais recente bomba nuclear. Sentado ao lado do médico-chefe e de um grupo cuidadosamente selecionado de militares russos feridos nas linhas de frente da brutal guerra na Ucrânia, Putin afirmou que outra arma russa "invencível" havia sido testada com sucesso.
Desta vez foi o Poseidon – um torpedo experimental subaquático de propulsão nuclear que, segundo analistas militares, pode ter um alcance superior a 9.650 km e que Putin revelou ter sido testado pela primeira vez.
"O poder do Poseidon supera significativamente o de nosso míssil balístico intercontinental mais avançado", disse o presidente russo à sua audiência já marcada pela guerra. "É único no mundo", acrescentou, afirmando que interceptar a arma seria "impossível".
Arsenal formidável
Putin mencionou, quase como um detalhe secundário, que o há muito aguardado e massivo míssil balístico intercontinental Sarmat, popularmente conhecido como "Satan 2", também será em breve implantado – um anúncio discreto da chegada do que tem sido amplamente considerado o sistema de entrega de armas nucleares mais letal do mundo.
É a segunda vez em uma semana que Putin se vangloria de novas armas de destruição em massa prontas para se juntar ao já formidável arsenal nuclear da Rússia. Os EUA e a Rússia concordaram em limitar seus arsenais de armas nucleares sob o tratado New START, que entrou em vigor em 2011. Pelo acordo, ambos os países tiveram sete anos para atingir limites definidos sobre o número de armas nucleares de alcance intercontinental que podem ter.
O tratado, no entanto, deve expirar em fevereiro de 2026.
Poucos dias antes do anúncio do Poseidon, o líder do Kremlin revelou que a Rússia havia testado com sucesso um míssil de cruzeiro movido a energia nuclear, o Burevestnik – ou Petrel – que, segundo os militares, é capaz de voar em velocidades subsônicas, usando combustível nuclear, por tempo e distância praticamente ilimitados.
Naturalmente, existem sérias dúvidas técnicas sobre a viabilidade de armas que dependem de energia nuclear, notoriamente pouco confiável, sem mencionar tóxica. Sua implantação, se é que acontecerá, provavelmente ainda está muito distante.
Por sua vez, o Kremlin vê sua demonstração de força nuclear menos como uma ameaça militar direta e mais como uma ferramenta diplomática: uma maneira imediata e econômica de fazer os EUA e o Ocidente prestarem atenção; de conseguir o que deseja na Ucrânia e de concentrar as atenções na potencial ameaça existencial que uma Rússia provocada ou contrariada poderia representar.
O governo russo já se sente tanto provocado quanto contrariado em relação à Ucrânia: provocado mais recentemente pelo debate sobre fornecer ou não mísseis Tomahawk de longo alcance à Ucrânia, que colocariam alvos em torno das maiores cidades russas, Moscou e São Petersburgo, sob ameaça; e contrariado pela falha de Washington em forçar a Ucrânia e seus apoiadores europeus a aceitarem os termos maximalistas de Moscou para encerrar os combates na Ucrânia.
Certamente, o momento das últimas ameaças, quando o progresso diplomático com os Estados Unidos estagnou, tem sido menos que sutil.
Mas para o Kremlin, a resposta da Casa Branca foi inesperada.
Enquanto Trump – frustrado com a recusa consistente do Kremlin em encerrar imediatamente sua guerra na Ucrânia – insinuou o cancelamento de uma cúpula planejada com Putin em Budapeste, antes de impor sanções às duas maiores empresas petrolíferas da Rússia, o presidente russo fez questão de ser fotografado supervisionando o que ele insistiu serem exercícios "planejados" da tríade nuclear, nos quais mísseis de longo alcance foram testados a partir de terra, mar e ar.
Foi uma clássica demonstração teatral de força nuclear do Kremlin, mas pareceu provocar pouca reação dos EUA.
Retórica imprudente
Dias depois, os testes do míssil de cruzeiro Burevestnik foram anunciados por Putin, que estava vestido, de maneira um tanto incomum, com uniforme militar.
Mas até mesmo isso foi descartado por uma Casa Branca indiferente.
"E eu não acho apropriado que Putin esteja dizendo isso também, a propósito", disse Trump a jornalistas no Air Force One na segunda-feira (27), a caminho da Ásia para uma turnê de três paradas que incluía um encontro histórico com o líder chinês Xi.
"Ele deveria acabar com a guerra, uma guerra que deveria ter durado uma semana e agora está em seu quarto ano, é isso que ele deveria fazer em vez de testar mísseis", acrescentou Trump.
Mas ao ignorar esse conselho e logo em seguida anunciar o teste do torpedo Poseidon movido a energia nuclear, potencialmente capaz de causar destruição radioativa em regiões costeiras inteiras dos Estados Unidos, o Kremlin pode ter inadvertidamente empurrado a Casa Branca para a decisão de retomar seus próprios testes de armas nucleares.
Pode ser uma lição sobre os perigos de misturar palavras imprudentes com armas nucleares em um mundo cada vez mais volátil. E o que pode ter sido planejado pelo Kremlin como uma forma de reforçar seus argumentos sobre a Ucrânia, possivelmente nos mergulhou em uma nova era perigosa e imprevisível.



