Análise: Trump e Hegseth prometem vingança e evocam a Deus na guerra
Presidente e secretário de defesa dos EUA usam retórica religiosa para justificar ações militares e ameaças de bombardeio contra o país

Longe de se esquivar da ideia de que há um aspecto religioso na guerra dos EUA e Israel contra o Irã, os líderes do governo americano estão se apoiando nela, invocando Deus e prometendo fogo e enxofre para a sociedade civil iraniana caso seus líderes não cedam às demandas dos EUA.
“Este é um dos nossos melhores períodos de Páscoa, eu acho, de várias maneiras. Posso dizer militarmente que tem sido um dos melhores”, disse o presidente Donald Trump na segunda-feira, traçando um paralelo estranho entre o poder militar dos EUA contra a República Islâmica do Irã e a ressurreição de Jesus na fé cristã.
Prometendo vingança e evocando a Deus
No fim de semana, uma das publicações de Trump nas redes sociais prometendo vingança dos EUA contra o Irã soou como se tivesse sido arrancada do Antigo Testamento. Ele reforçou isso com uma invocação de um poder superior.
Na segunda‑feira (6), Trump mudou o foco de sua participação no tradicional “White House Easter Egg Roll” — o evento anual de rolar ovos de Páscoa na Casa Branca — para a coletiva de imprensa, onde renovou sua promessa de bombardear a infraestrutura civil do Irã se o país não concordar em reabrir o Estreito de Ormuz e liberar o fornecimento de petróleo ao mundo.
Piloto americano "renasceu" em resgate
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, que prefere usar o título secundário que Trump lhe concedeu, de “secretário de guerra”, também comentou sobre a Páscoa no contexto da guerra com o Irã durante a coletiva de imprensa.
“Durante este fim de semana de Páscoa, as Forças Armadas dos Estados Unidos mais uma vez provaram por que possuímos a maior força de combate que o mundo já conheceu”, disse Hegseth, que tem priorizado serviços de oração cristã no Pentágono e publicou sobre a ressurreição de Cristo em suas contas oficiais do Pentágono nas redes sociais durante a Páscoa.
Hegseth adicionou um elemento de fé à sua narrativa sobre o aviador resgatado em uma operação massiva.
“Quando (o aviador abatido) finalmente conseguiu ativar seu transponder de emergência, sua primeira mensagem foi simples e poderosa. Ele enviou a mensagem: ‘Deus é bom.’ Naquele momento de isolamento e perigo, sua fé e espírito de luta se destacaram”, disse Hegseth, antes de usar o termo “renascido” para descrever o piloto, resgatado no dia destinado a marcar a ressurreição de Jesus.
“Vejam, abatido numa sexta-feira (3), Sexta-feira Santa, escondido em uma caverna, numa fenda, durante todo o sábado (4), e resgatado no domingo. Transportado para fora do Irã ao amanhecer do Domingo de Páscoa. Um piloto renascido, todos em casa e contabilizados, uma nação se alegrando, Deus é bom", disse Hegseth.
Trump usou o mesmo termo mais tarde, quando um repórter perguntou se o presidente acha que Deus apoia os EUA na guerra.
“Eu acredito, porque Deus é bom, porque Deus é bom, e Deus quer ver as pessoas cuidadas”, disse Trump, embora tenha acrescentado que nem ele nem Deus “gostam do que está acontecendo”.
Trump pode acreditar que Deus está ao seu lado, mas se cumprir as ameaças de atingir todas as usinas de energia do país, isso pareceria violar o direito internacional. Trump ignorou uma pergunta sobre se sua promessa de bombardear as pontes e usinas de energia do Irã na terça-feira — efetivamente atingindo a população civil — constituiria um crime de guerra.
E ele se recusou a dizer se algum alvo civil poderia ser considerado fora de alcance, como sugerem as leis de guerra. Em vez disso, afirmou que, se o Irã não aceitar suas exigências, a infraestrutura de um país com mais de 90 milhões de pessoas estará em ruínas sob seu comando, um poder impressionante para qualquer pessoa.
“Temos um plano, devido ao poder das nossas forças militares, em que cada ponte no Irã será dizimada até a meia-noite de amanhã; onde cada usina de energia no Irã estará fora de operação, queimando, explodindo e para nunca mais ser usada. Digo, demolição completa até as 12h [meia-noite], e isso aconteceria em um período de quatro horas, se quiséssemos. Nós não queremos que isso aconteça", afirmou o presidente americano.
Trump disse que provou seu power e disposição ao ordenar a destruição da maior ponte do Irã como uma lição aos líderes do país quando seus negociadores — o vice-presidente JD Vance, o genro de Trump, Jared Kushner, e o enviado especial Steve Witkoff — disseram que o Irã estava retrocedendo no progresso em direção a um acordo.
“Em 10 minutos após eu dar essa ordem, aquela ponte era coisa do passado. Então. Eu quero fazer isso? Não. Eu quero destruir a infraestrutura deles? Não. Levaria 100 anos para eles reconstruírem", completou o republicano.



