Análise: Ultimato de Trump à Rússia não deve convencer Putin a parar guerra
Presidente dos EUA deu prazo de 10 a 12 dias para Kremlin checar a acordo sobre conflito na Ucrânia
A julgar por suas últimas declarações, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece estar perdendo a paciência com o Kremlin.
Falando de seu resort de golfe em Turnberry, na Escócia, ao lado do primeiro-ministro britânico Keir Starmer, Trump inesperadamente reduziu o prazo de 50 dias para que Moscou chegue a um acordo de paz com a Ucrânia ou enfrente novas sanções econômicas severas.
"Sim, vou estabelecer um novo prazo de cerca de 10 ou 12 dias a partir de hoje", disse Trump a repórteres nesta segunda-feira (28).
"Não há motivo para esperar. Quero ser generoso, mas simplesmente não vemos nenhum progresso sendo feito", acrescentou o presidente.
Não está claro por que, nesse caso, Trump decidiu esperar mais 10 a 12 dias antes de concretizar sua ameaça de impor altas tarifas à Rússia e duras sanções secundárias aos países que compram petróleo russo.
Mas este é o sinal mais recente de que a retórica instável de Trump sobre a guerra na Ucrânia, que durante meses oscilou entre culpar Kiev e Moscou pelo derramamento de sangue contínuo, agora parece ter assumido um tom mais consistente, geralmente crítico ao Kremlin e à conduta de seu líder autoritário, Vladimir Putin.
"Achávamos que tínhamos resolvido isso inúmeras vezes, e então o presidente Putin sai e começa a lançar foguetes contra alguma cidade como Kiev e mata muitas pessoas em um asilo ou algo assim", disse Trump nesta segunda.
Trump também renovou sua ameaça de tarifas e sanções.
"Seria de se esperar, com base no bom senso, que se chegasse a um acordo. Acho que descobriremos", disse Trump.
Mas, após anos de teimosa recusa em chegar a um acordo, o suspense não mata ninguém.
A Rússia tem consistentemente descartado a possibilidade de encerrar a guerra na Ucrânia até que alcance seus objetivos máximos. Entre eles, obter o controle sobre vastas áreas de território ucraniano ainda não conquistadas e impor limites militares e de política externa rigorosos à Ucrânia no pós-guerra que deixariam Kiev à mercê de Moscou.
É improvável que qualquer ameaça de novas sanções à Rússia, um dos países que mais enfrenta restrições no mundo, desanime o Kremlin, que parece determinado a atingir seus objetivos a qualquer custo.
Simplesmente antecipar essa ameaça em algumas semanas, como Trump fez agora, provavelmente terá pouco impacto nos cálculos práticos do Kremlin, especialmente considerando que as sanções ameaçadas por Trump são vistas na Rússia como ineficazes ou impossíveis de implementar.
As ameaças de Trump de impor tarifas de 100% sobre as exportações russas, por exemplo, são vistas como sem sentido em um país que tem apenas alguns bilhões de dólares em comércio com os Estados Unidos anualmente.
Já a ameaça de Trump de impor tarifas ou sanções secundárias aos países que compram petróleo russo pode ter mais impacto. Mas os maiores importadores dessa commodity são a Índia e a China. A Turquia também é um grande cliente, assim como vários países europeus, além do Brasil. Há sérias dúvidas em Moscou de que Trump mergulharia os Estados Unidos em uma guerra comercial global sobre a questão da Ucrânia.
E mesmo que os países concordassem em cooperar e parassem de comprar petróleo russo, o choque para os mercados da perda do fornecimento russo seria profundo. Provavelmente faria os preços do petróleo dispararem, alimentando a inflação global e até mesmo os preços da gasolina nas bombas nos EUA.
Mesmo antes dos últimos comentários do presidente dos EUA, fontes internas do Kremlin zombavam publicamente dos ultimatos de Trump.
“Cinquenta dias! Costumava ser 24 horas; costumava ser 100 dias. Já passamos por tudo isso”, zombou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, no início deste mês.
Agora, a última janela de 10 a 12 dias provocou reações ainda mais contundentes.
"A resposta real da Rússia ao ultimato de Trump será a mesma que tem sido nos últimos 500 anos a todos os ultimatos", escreveu Sergey Markov, um renomado analista político russo, no Telegram.
"Vá embora! Vá para o inferno", acrescentou.



