Após recente aumento militar, Rússia retira tropas da fronteira com a Ucrânia

Ministério da Defesa russo declarou que as tropas concluíram seus exercícios perto da fronteira com a Ucrânia e voltam às suas bases permanentes em 1º de maio

Zahra Ullah, Anna Chernova e Eliza Mackintosh, CNN

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Exército russo faz exercício na região da Crimeia
Exército russo faz exercício na região da Crimeia, em 19/03/2021
Foto: Sergei MalgavkoTASS via Getty Images

A Rússia parece estar recuando de um confronto com o Ocidente nesta sexta-feira (23), quando a mídia estatal TASS informou que as tropas estavam retornando às suas bases após participarem de exercícios perto da fronteira com a Ucrânia e na Crimeia.

Um aumento de tropas russas ao longo da fronteira nas últimas semanas reacendeu as tensões no leste da Ucrânia, onde as forças do governo lutam contra separatistas apoiados pela Rússia exigindo independência de Kiev, desde 2014.

Mas na última quinta-feira (22), o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, declarou repentinamente que as tropas haviam concluído seus exercícios no sul do país, perto da Ucrânia e da Crimeia, e voltariam às suas bases permanentes em 1º de maio. “Acredito que o objetivo do exercício repentino foi totalmente alcançado. As tropas demonstraram a capacidade de fornecer uma defesa confiável do país”, disse Shoigu em reunião na Crimeia, que a Rússia anexou a Kiev em 2014.

“No momento, unidades e formações militares estão marchando para estações ferroviárias, aeródromos, carregamento em navios de desembarque, plataformas ferroviárias e aeronaves de transporte militar”, relatou a agência TASS nesta sexta-feira, citando o Ministério da Defesa.

O anúncio de Shoigu veio semanas depois que Moscou iniciou o maior acúmulo de tropas perto da fronteira com a Ucrânia desde 2014. Não estava claro desde o anúncio de quinta-feira quantas tropas permaneceriam na região.

Mais de 10 mil militares e 1.200 unidades de armas e equipamentos militares participaram da “inspeção instantânea”, de acordo com a TASS. Oficiais militares ucranianos disseram à CNN, no início deste mês, que estimam que 50 mil soldados russos extras se reuniram nas últimas semanas na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia e na Crimeia. A União Europeia colocou o número ainda mais alto, estimando na última terça-feira (20) que mais de 100 mil soldados se reuniram perto da fronteira e na Crimeia.

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, reconheceu na quinta-feira o anúncio da Rússia, dizendo que os EUA continuariam monitorando de perto a situação com autoridades ucranianas e outros aliados, mas acrescentou que “o que estamos procurando é ação”.

“Deixamos claro em nosso compromisso com o governo russo que ele precisa se abster de ações escalonadas e cessar imediatamente todas as suas atividades agressivas dentro e ao redor da Ucrânia, incluindo seu recente aumento militar na Crimeia ocupada e na fronteira com a Ucrânia, e sua intenção de bloquear navios específicos em partes do Mar Negro”, disse Price em entrevista coletiva.

Algumas armas militares russas, que incluem tanques e artilharia pesada, serão deixadas para trás até que os exercícios estratégicos conjuntos Zapad-2021 ocorram em setembro nos territórios da Rússia e Bielorrússia, de acordo com a agência de notícias TASS. Isso deixa a Rússia com mais poder de fogo na fronteira com a Ucrânia do que tinha anteriormente.

O Conflict Intelligence Team (CIT), um grupo de inteligência de código aberto russo que monitora o crescimento militar agressivo da Rússia na fronteira, sugeriu na quinta-feira que é muito cedo para julgar se as notícias representam uma diminuição da escalada.

“Pela nossa avaliação, as forças que permanecem na fronteira com a Ucrânia ainda representam um perigo de implantação no leste da Ucrânia ocupado, enquanto uma invasão em grande escala do território controlado pelo governo certamente exigiria o deslocamento de mais tropas para a fronteira”, ponderou o CIT no Twitter.

Na terça-feira, o Ministério da Defesa russo disse que mais de 20 navios participaram de exercícios no Mar Negro, que faz fronteira com os dois países.

“Uma unidade de navios composta por fragatas ‘Admiral Makarov’ e ‘Admiral Essen’, pequenos navios mísseis ‘Grayvoron’ e ‘Vyshny Volochek’, bem como barcos mísseis, pequenos navios antissubmarinos e grandes navios anfíbios realizaram um exercício de repelir ataque aéreo, que significa um inimigo simulado usando interferência eletrônica ativa e o uso condicional de meios de defesa aérea”, afirmava um comunicado do ministério.

Shoigu, que supervisionou os exercícios na Criméia anexada perto da fronteira sul da Ucrânia na quinta-feira, avaliou que os militares russos devem estar prontos para responder rapidamente a qualquer desenvolvimento “desfavorável”, dados os exercícios militares Defender-Europe em andamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O Defender-Europe é um exercício anual multinacional liderado pelo Exército dos EUA em grande escala, projetado para criar prontidão e interoperabilidade entre os EUA e seus parceiros da Otan. Foi cancelado no ano passado devido a preocupações com o novo coronavírus.

“Todos os anos, na Europa, a aliança conduz até 40 grandes eventos de treinamento operacional com um claro foco anti-russo. Na primavera deste ano, as forças armadas combinadas da Otan começaram o exercício mais ambicioso dos últimos 30 anos”, relatou Shoigu.

Ele acusou a liderança militar e política da Ucrânia de tentar desestabilizar a situação na zona de conflito de Donbass e disse que os Estados Unidos e a Otan continuaram a conduzir “atividades provocativas” no espaço aéreo e nas águas do Mar Negro.

A aliança expressou profunda preocupação com o aumento militar russo perto da Ucrânia, descrito pelo secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, como “parte de um padrão mais amplo de ação agressiva russa”.

“Os aliados apoiam totalmente a soberania e integridade territorial da Ucrânia e pedimos à Rússia que desacelere imediatamente, pare seu padrão de provocações agressivas e respeite seus compromissos internacionais”, disse.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, convidou na terça-feira o presidente Vladimir Putin para se reunir no Donbass, pedindo a restauração de um cessar-fogo na região oriental, onde “milhões de vidas” estão em jogo. Na quinta-feira, conforme informou a TASS, Putin respondeu que estava disposto a discutir as relações bilaterais com Zelensky na capital russa.

A Ucrânia tem tentado aumentar o apoio internacional em seu impasse com Moscou e solicitou seus aliados ocidentais a prometerem novas sanções para desencorajar o Kremlin de recorrer a mais força militar.

Em seu discurso na terça-feira, Zelensky pediu aos cidadãos ucranianos que se unissem diante da ameaça militar russa. “Ucrânia e Rússia, apesar de seu passado comum, olham para o futuro de forma diferente. Nós somos nós. Você é você. Mas isso não é necessariamente um problema, é uma oportunidade. No mínimo – uma oportunidade, antes que seja tarde demais para parar a matemática mortal de futuras perdas militares”.

Ele culpou a Rússia por se recusar a apoiar uma “declaração geral” para restaurar um cessar-fogo completo na área, apesar do “apoio de todas as partes”.

Em seu discurso anual à nação na última quarta-feira (21), Putin advertiu as potências estrangeiras para não cruzarem as “linhas vermelhas” de Moscou, mas não fez menção ao aumento militar perto da Ucrânia.

Na semana passada, o presidente ucraniano se reuniu em Paris com o presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel – que se juntou por meio de videoconferência – para discutir a deterioração da situação de segurança no leste da Ucrânia e a ocupação dos territórios ucranianos. Os três líderes encerraram a reunião pedindo à Rússia que retire as tropas extras reunidas na fronteira com a Ucrânia.

Denis Lapin, em Kiev, contribuiu com esta reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler a versão original em inglês)

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