Após seis meses de guerra, China segue resistindo o impacto de Ormuz
Apesar de ser o maior importador de petróleo pelo estreito, o país conseguiu diversificar recursos e se estabilizar em meio a sanções americanas

O maior importador mundial de petróleo pelo Estreito de Ormuz também é um dos países mais bem posicionados para enfrentar seu fechamento.
A China importa aproximadamente a mesma quantidade de petróleo do Golfo que a Índia, o Japão e a Coreia do Sul juntos. Enquanto autoridades de toda a Ásia incentivam seus cidadãos a economizar energia, o principal jornal do Partido Comunista Chinês afirmou aos leitores que o país possui seu próprio "celeiro de arroz energético".
Anos de medidas políticas reduziram a vulnerabilidade da China. O país possui uma frota de veículos elétricos quase tão grande quanto a do resto do mundo combinada, grandes reservas de petróleo, fornecedores diversificados e uma rede elétrica alimentada quase inteiramente por carvão e energias renováveis nacionais.
"É evidente que a China, apesar dos impactos causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, conseguiu ser resiliente, pelo menos em termos de segurança energética", afirmou o professor adjunto Alejandro Reyes, da Universidade de Hong Kong.
Como o boom dos veículos elétricos reduziu a vulnerabilidade?
No final de 2020, Pequim estabeleceu a meta de que os veículos elétricos representassem 20% das novas vendas até 2025. No ano passado, esse número já havia atingido metade de todos os veículos novos.
Esse crescimento significa que o consumo de petróleo da China atingiu seu pico após décadas de rápida expansão. O petróleo substituído por veículos elétricos no ano passado foi aproximadamente igual às importações chinesas da Arábia Saudita, segundo estimativas do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo.
Reyes afirmou que a China investiu pesadamente em energias renováveis e desenvolveu uma vasta indústria de veículos elétricos.
"A China é líder mundial em veículos elétricos. Isso fez com que a demanda por combustíveis fósseis diminuísse. E isso ajudou a China a superar o impacto da interrupção do fluxo de petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz."
Quão isolado é o sistema energético da China?
A rede elétrica da China é alimentada quase inteiramente por carvão e por energias renováveis em rápido crescimento. O crescimento exponencial da energia limpa, que superou as próprias metas de Pequim, é tal que quase toda a energia extra que a economia necessita anualmente é suprida por novas usinas solares ou eólicas. Isso significa menos importações de carvão e menos GNL (gás natural liquefeito) importado para as poucas províncias costeiras onde ele faz parte da matriz energética.
As importações de petróleo são deliberadamente diversificadas. O Japão obtém quase 80% do seu petróleo da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. A China obtém a mesma porcentagem de oito países, incluindo fornecimentos com desconto da Rússia, Venezuela e Irã.
A China também destina uma parte dessas importações para os tanques de armazenamento de sua reserva estratégica de petróleo, mantida em sigilo. Ninguém sabe exatamente o tamanho dessas reservas, mas, somadas aos estoques mantidos pelas refinarias comerciais, a China possui petróleo suficiente em estoque para substituir as importações pelo Estreito de Ormuz por cerca de sete meses, segundo algumas estimativas.
A produção doméstica de petróleo atingiu o recorde de 4,3 milhões de barris por dia no ano passado, o equivalente a cerca de 40% do total das importações.
Reyes observou que a sobrecapacidade nos setores de refino e petroquímica proporcionou à China uma margem de segurança maior.
"A China teve à sua disposição mais produtos derivados do petróleo e produtos energéticos do que poderia ter previsto... Portanto, hoje, ela possui um horizonte temporal mais longo para suportar quaisquer interrupções."
Qual o papel da política e da geografia?
As fronteiras terrestres e a rede de gasodutos da China oferecem opções indisponíveis para vizinhos insulares como o Japão e a Coreia do Sul. O fornecimento de gás pelo gasoduto Força da Sibéria e pelas rotas da Ásia Central tem aumentado constantemente. Os planos para um segundo gasoduto russo ainda estão em discussão.
Reyes afirmou que a China há muito tempo utiliza a política econômica externa, incluindo a Iniciativa BRI (Cinturão e Rota- que visa criar uma rede comercial global por meio do desenvolvimento e controle de rotas comerciais) e a aproximação com a Rússia e a Ásia Central, para lidar com os desafios energéticos internos.
"Essa capacidade de agir em seu próprio interesse significa que a China conseguiu promover, desenvolver e refinar sua resiliência, sua capacidade de resistir a choques como os que ocorreram com a guerra no Irã e o Estreito de Ormuz", disse Reyes.
Os Estados Unidos anunciaram um plano de sanções econômicas para o "Dia D", que visa ampliar as medidas econômicas contra o Irã e seus parceiros comerciais, incluindo Pequim.
As empresas chinesas convivem com as sanções americanas há anos e desenvolveram maneiras de contorná-las, limitando o impacto de quaisquer novas medidas, acrescentou Reyes.


