Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    Ativista leva internet a Gaza com chips virtuais em meio à guerra de Israel

    Temendo que apagão de telecomunicações encobrisse “crimes de guerra”, Mirna El Helbawi buscou solução para que palestinos pudessem se conectar a redes estrangeiras

    Mirna El Helbawi está no Cairo, Egito, usando o seu telefone para coordenar a distribuição de chips de celular virtuais em Gaza
    Mirna El Helbawi está no Cairo, Egito, usando o seu telefone para coordenar a distribuição de chips de celular virtuais em Gaza Pola Salem

    Alaa ElassarEmma Tuckerda CNN

    Mirna El Helbawi, escritora e ativista egípcia, criou uma iniciativa que conecta centenas de pessoas à internet na Faixa de Gaza mesmo em meio aos apagões de telecomunicações com a guerra.

    A Connecting Gaza utiliza eSIMs, que são chips virtuais de celulares, para ajudar os palestinos a contornar os apagões durante os ataques aéreos israelenses.

    El Helbawi, de 31 anos, juntamente com um pequeno grupo de voluntários e uma legião de doadores internacionais, afirma ter restaurado a conexão telefônica e de internet a mais de 200 mil palestinos na Faixa de Gaza, e que continuará o esforço até que a guerra entre Israel e o Hamas termine.

    Ela explica que a ideia surgiu quando enviava mensagens de texto a um pai aterrorizado cuja mulher e filhos estavam em Gaza.

    A ativista estava no Cairo, Egito, a mais de 320 quilômetros de distância dos ataques, e recebia do homem que o que ele mais queria naquele momento, mesmo que seja pela última vez, era ao menos “dizer adeus”.

    “O direito ao acesso a telefone e à internet é um direito humano básico tão importante quanto a alimentação e a água”, pontuou El Helbawi.

    “Sem a capacidade de se comunicar, os civis palestinos que estão na linha de fogo não conseguem contato eles ou pedir ajuda; os profissionais de emergência e médicos não conseguem coordenar as ações; e os jornalistas não podem documentar as atrocidades no terreno, incluindo possíveis crimes de guerra”, advertiu.

    “Depois de toda essa dor, eles não conseguem nem compartilhar a sua tristeza com o mundo ou gritar para que as pessoas exijam um cessar-fogo. Eles têm que suportar bombardeamentos e ataques em silêncio absoluto”, adicionou El Helbawi.

    “É como ser assassinado enquanto alguém cobre a sua boca com a mão, então você não consegue nem gritar por socorro”, pontuou.

    Mirna El Helbawi está no Cairo, Egito, usando o seu telefone para coordenar a distribuição de chips de celular virtuais em Gaza / Pola Salem

    Apagão nas telecomunicações

    El Helbawi, assim como milhões de outras pessoas, tem observado ansiosamente o desenrolar da guerra desde 7 de outubro, quando o Hamas lançou um ataque contra Israel, matando 1.200 pessoas e fazendo mais de 240 como reféns.

    Israel respondeu impondo um cerco e lançando ataques aéreos contra a Faixa de Gaza, destruindo casas, escolas e hospitais.

    Estima-se que 15.200 palestinos, 70% dos quais são mulheres e crianças, foram mortos nos ataques até agora, e 40 mil ficaram feridos, de acordo com o Ministério da Saúde palestino, que tem como base números de fontes em Gaza, que é controlada pelo Hamas.

    Quase imediatamente com a guerra, os serviços de telecomunicações sofreram interrupções. Israel cortou a eletricidade no território, e os prestadores de serviços de telecomunicações informaram que os bombardeios destruiram infraestruturas de rede vitais.

    Alguns palestinos ainda conseguem fazer chamadas telefônicas e acessar a internet, mas a conexão é instável.

    Durante semanas, El Helbawi acompanhou de perto as notícias. Imagens e vídeos postados nas redes sociais de bairros inteiros reduzidos a escombros, médicos lutando para tratar pacientes sem remédios e pais lamentando a morte de seus filhos partiram seu coração, segundo a ativista.

    Então, em 27 de outubro, enquanto Israel se preparava para expandir as operações terrestres, Gaza ficou em silêncio.

    “Lamentamos anunciar uma interrupção completa de todos os serviços de comunicação e internet com a Faixa de Gaza à luz da agressão em curso”, disse a Paltel, a principal empresa de telecomunicações nos territórios palestinos, em nota. Foi o primeiro de vários apagões que atingiram Gaza.

    Fumaça após ataque israelense em Gaza / 21/11/2023 REUTERS/Alexander Ermochenko

    Temendo que isso pudesse encobrir crimes de guerra, El Helbawi quis encontrar uma solução.

    No início, ela se juntou a outras pessoas no X, antigo Twitter, pedindo que Elon Musk disponibilize seu serviço de internet via satélite, a Starlink, para Gaza, e ficou entusiasmada quando Musk disse que o faria.

    Mas quando as negociações sobre esses planos estagnaram, El Helbawi decidiu tentar outra coisa.

    Por sugestão de uma seguidora nas redes sociais, ela comprou um eSIM com serviço de roaming e pediu a um amigo que tentasse se conectar a uma rede estrangeira. Para sua surpresa, funcionou.

    “Senti isso em todo o meu corpo no momento em que percebemos que havia esperança, mesmo que fosse uma esperança muito pequena, de encontrarmos uma solução. Era a luz no fim de um túnel muito escuro”, comemorou.

    Em seguida, ela postou no X e no Instagram pedindo aos seguidores que quisessem ajudar a restaurar os serviços telefone e internet para os palestinos que doassem eSIMs, comprando online e enviando os QR Codes.

    El Helbawi estava confiante de que poderia encontrar pessoas em Gaza que ainda tivessem internet para distribuir os eSIMs por todo o território.

    Dando voz às vítimas

    Quando El Helbawi começou a executar o seu plano, o jornalista Ahmed Elmadhoun estava em Gaza, com dificuldade de reportar sobre a guerra sem telefone ou serviço de internet.

    Como um dos poucos jornalistas no terreno, Elmadhoun se sentiu obrigado a manter o mundo informado sobre as últimas notícias, compartilhando fotos e vídeos nas redes sociais.

    “É uma responsabilidade significativa. As pessoas aqui estão morrendo em silêncio, e ninguém consegue ouvi-las. Somos a voz de todas essas vítimas”, afirmou Elmadhoun, 27 anos..

    O jornalista Ahmed Elmadhoun foi a primeira pessoa em Gaza que El Helbawi ajudou a reconectar-se à internet através de um eSIM / Ahmed Elmadhoun/Arquivo Pessoal

    Ele também se preocupava com a sua família, que estava deslocada por todo o território, e não conseguia fazer contato com eles. Mais de 40 de seus parentes foram mortos em ataques aéreos, diz Elmadhoun.

    “Gaza estava incrivelmente isolada, apenas com o medo presente. Estávamos sozinhos, muito sozinhos. Não conseguimos entrar em contato com nossas famílias ou perguntar sobre elas, e os ataques aéreos foram incrivelmente intensos”, destacou.

    “Mesmo as ambulâncias e as equipes de emergência não conseguiram determinar os locais dos bombardeios ou chegar aos feridos”, complementou.

    Em meio ao temor, Elmadhoun conseguiu acessar a internet usando um chip israelense, antes de ser bloqueado. Na ocasião, ele postou no X perguntando: “Alguém me contou sobre um eSIM – quem?”.

    Minutos depois, El Helbawi viu a pergunta e respondeu: “Eu! Eu! Eu! Me envie uma mensagem com urgência”. El Helbawi rapidamente deu a Elmadhoun um QR Code para o eSIM e ajudou a reconectá-lo à internet, tornando-o a primeira pessoa em Gaza a obter um.

    Naquele momento nasceu o Connecting Gaza.

    Iniciativa viralizou

    A notícia da iniciativa se espalhou rapidamente nas redes sociais, e pessoas em todo o mundo preocupadas com a situação em Gaza começaram a comprar e doar eSIMs.

    Doadores de Estados Unidos, Suíça, Paquistão, Holanda, entre outros países enviaram QR Codes, relata El Helbawi. A maioria comprou o chip virtual as em aplicativos como Simly e Airalo, que permitem aos doadores ver quando os eSIMs são ativados e colocar crédito quando necessário.

    FOTOS: Veja imagens do conflito entre Israel e Hamas

    Graeme Bradley, um doador da Escócia, diz que foi atraído pela iniciativa porque é uma forma fácil de ter um grande impacto em um conflito onde tantas vidas estão em jogo.

    “É horrível ver o nível de destruição e morte infligido a civis inocentes que vivem em um território ocupado sem ter para onde ir. Não há escapatória para eles”, pontuou, Bradley, de 38 anos.

    Ao ajudar os palestinos a contar suas histórias, ele espera que sejam capazes de “virar a opinião pública e pressionar os líderes mundiais a pedirem um cessar-fogo”.

    Mas nem todo mundo que recebe um eSIM vive o suficiente para contar sua história.

    Noha Elkomi, uma egípcia de 25 anos que doou um eSIM, diz que assistiu com entusiasmo em seu aplicativo quando um palestino ativou o chip que ela doou. Mas quando ficou inativo, seu coração afundou.

    Ela compartilhou suas preocupações com El Helbawi, que lhe disse: “Nunca se sabe o que aconteceu”, lembrou Elkomi.

    “Eu entendi o que ela disse. Talvez o primeiro que o pegou tenha desaparecido. Talvez eles tenham sido mortos. Esta é a realidade, por mais triste que seja. Cada minuto conta e você não sabe quanto tempo eles ficarão”, ponderou Elkomi.

    Um eSIM só pode ser ativado uma vez e pode ficar inativo dependendo de onde em Gaza a pessoa está tentando se conectar. Se eles se mudarem para uma área com sinal mais fraco, o chip poderá não funcionar.

    “Isso me deu um pouco de esperança, mas ao mesmo tempo me fez começar a imaginar o que a pessoa estaria passando? Onde eles estão agora? Comecei a sentir como se os conhecesse pessoalmente”, complementou a egípcia.

    O primeiro eSIM que ela doou acabou perdendo completamente o sinal, relata Elkomi, mas ela não parou de doar. Dias depois, lágrimas escorreram dos olhos de Elkomi ao ver seu segundo eSIM ficar online e conectar outra pessoa em Gaza.

    “Independentemente do que esteja diante deles, eles [palestinos] encontram uma maneira de contorná-lo [o problema] e continuar prosperando e é isso que eles querem mostrar ao mundo”, disse Elkomi.

    “O apagão foi, sim, alguma escuridão, mas sempre haverá luz brilhando na escuridão”, adicionou.

    Mais de mil pessoas conectadas diariamente

    El Helbawi admite que está obcecada com a Connecting Gaza. É a primeira coisa em que ela pensa pela manhã e a última à noite.

    “Mal dormimos, conectar eSIMs é nossa prioridade na vida. Embora sinta que estou fazendo algo grande por Gaza, nunca consigo deixar de sentir que ainda não estamos fazendo o suficiente”, afirmou.

    Mirna El Helbawi na passagem de fronteira de Rafah, entre Gaza e Egito, com uma bandeira palestina pendurada nas costas / Mirna El Helbawi/Arquivo Pessoal

    Até o momento, cerca de US$ 1,3 milhão (R$ 6,43 milhões) em eSIMs foram doados à Connecting Gaza para distribuição, de acordo com El Helbawi.

    A iniciativa, que fez parceria com a Simly durante um período, conecta mais de mil palestinos diariamente, e cada pessoa pode transformar um telefone em um ponto de acesso para outras cinco pessoas, explica.

    A Connecting Gaza tem tido tanto sucesso que El Helbawi recentemente alavancou o número de seguidores nas redes sociais para uma organização sem fins lucrativos chamada Connecting Humanity, através da qual ela espera reconectar pessoas vulneráveis em outras zonas de conflito.

    “Os eSIMs não são baratos. Saber que tantas pessoas estão gastando o seu tempo e dinheiro para ajudar outras diz muito sobre a solidariedade que o mundo tem com a Palestina”, pontuou El Helbawi.

    “Algumas pessoas doam eSIMs e esperam o próximo pagamento para enviar outro. Eles fazem isso para salvar a vida de alguém. Isto é humanidade”, colocou.

    A guerra mudou significativamente desde o primeiro apagão de telecomunicações. Houve uma trégua de curta duração, alguns reféns foram libertados e mais ajuda foi autorizada a entrar em Gaza.

    Entretanto, a violência recomeçou, e mais de um milhão de palestinos continuam deslocados, com suas casas destruídas. Além disso, há pouco acesso a cuidados de saúde, alimentos, água potável ou eletricidade – e sem meios de fuga.

    A dor e o isolamento que os palestinos sentem são agravados pelos frequentes apagões, diz Elmadhoun: “O que está acontecendo em Gaza é um massacre. Não há lugar seguro e sentimos que estamos sozinhos”, observa.

    Mas El Helbawi, juntamente com milhares de doadores em todo o mundo, afirma que se recusa a deixar os palestinos sofrerem em silêncio.

    “Estamos enviando uma mensagem aos palestinos. Nós não apoiamos isso. Não vamos deixar você perder sua conexão com o mundo”, conclui

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

    versão original