Ausência de Trump no G20 é oportunidade de liderança para África do Sul
Casa Branca diz que não participará da primeira Cúpula do G20 na África devido a alegações de que o país anfitrião maltrata os brancos

A ausência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Cúpula do G20 oferece uma oportunidade para os anfitriões da África do Sul, determinados a definir uma agenda para os líderes globais.
A Casa Branca diz que não participará da primeira Cúpula do G20 na África devido a alegações de que o país anfitrião, que já foi governado por uma minoria branca sob um sistema de apartheid explicitamente racista até 1994, agora maltrata os brancos.
Trump também rejeitou a agenda da África para a reunião, que acontece nos dias 22 e 23 de novembro, que visa promover a solidariedade e ajudar as nações em desenvolvimento a se adaptarem a desastres climáticos, fazer a transição para a energia limpa e reduzir custos excessivos de dívidas.
Embora não seja provável que uma cúpula sem o país mais poderoso do mundo resulte em uma declaração significativa, o primeiro G20 na África é uma vitrine para o continente, que tem economias em rápido crescimento, riqueza mineral e uma população jovem.
E se alguém esperava simplesmente ignorar a ausência de Trump, não será possível. No final da cúpula, o presidente Cyril Ramaphosa deve entregar simbolicamente o G20 ao próximo anfitrião. Que, por acaso, é Trump.
"Não quero passar o cargo para uma cadeira vazia, mas a cadeira vazia estará lá", disse Ramaphosa na semana passada, preparando-se para a cúpula em um local em Soweto, subúrbio na cidade de Johanesburgo onde os negros já foram confinados sob as regras do apartheid que os impediam de viver na própria cidade.
Ele "simbolicamente passaria para aquela cadeira vazia e depois falaria com o presidente Trump", afirmou o presidente.
Chance de preencher vácuo de liderança
Os itens da agenda da África do Sul incluem a preparação para desastres induzidos pelo clima, dívida sustentável para nações de baixa renda, financiamento de transições de energia e garantia de que a corrida por minerais essenciais beneficie os produtores.
Aliado de Trump, o presidente argentino, Javier Milei, também vai se ausentar por motivos ideológicos. Vladimir Putin, da Rússia, não irá à reunião devido ao mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional contra ele por conta da guerra na Ucrânia.
Já a China está enviando o primeiro-ministro Li Qiang, em vez do presidente Xi Jinping.
Mas a ausência dos EUA oferece uma chance para que outros países, especialmente os europeus e a China, assumam o vácuo de liderança, avaliou Chris Vandome, do centro de pesquisa Chatham House.
"Sem os EUA desempenhando seu papel tradicional, esses fóruns são ainda mais importantes para a cooperação", destacou Vandome.
Piet Croucamp, professor associado de estudos políticos e relações internacionais da Universidade do Noroeste da África do Sul, observou que o vice-presidente americano, JD Vance, causou um tumulto em sua primeira viagem à Europa com um discurso hostil.
Vance disse que uma aparição dos Estados Unidos no G20 que causasse a mesma perturbação teria sido "uma distração".
"Trump não vir à África do Sul pode ser a melhor coisa que poderia acontecer ao G20", afirmou o vice-presidente americano.
Ainda assim, a cúpula deve frustrar os líderes ainda comprometidos com o antigo estilo de negociações multilaterais desprezados por Trump, que cortou a ajuda externa, aumentou tarifas unilateralmente e criticou os esforços globais para combater as mudanças climáticas.
Mesmo antes da chegada de Trump à Casa Branca no segundo mandato, as tensões entre os países integrantes do G20 estavam dificultando que as cúpulas oferecessem mais do que declarações brandas nos últimos anos.
Isso porque as divergências -- especialmente sobre o compartilhamento da responsabilidade da ação climática entre alguns dos maiores poluidores do mundo -- impediam compromissos reais.


